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quarta-feira, maio 14

São as tuas mãos a minha cidade?





















São as tuas mãos a minha cidade?
Certamente não!

Porque para o serem
seria também o bairro
o escolhido, o eleito
mãos nas mãos, numa rua, e não perdidas ao vento
sem assento, sem convicção... sem destino,
apenas perdidas na indecisão.

Não seriam apenas membros escondidos na noite,
lugar de solidão, desejo envergonhado
clímax de cenário de televisão,
toalha branca limpando apenas a extensão de umas mãos.

Chorando o triste destino dos momentos sem projecção.

Seriam mãos, somente mãos
sem medo, sem mentira, e, muito menos,
apenas lugar de prazer de minutos
escondido de si próprio,
envergonhado, encerrado, nas próprias mãos.

Para que as mãos se tornem numa cidade
é preciso conhecer as vielas, os becos
e mesmo assim escolher o todo que a imensidão tem.

Porque se as tuas mãos fossem uma cidade, a minha,
teriam que nela saber viver, dela conhecendo
os sítios onde as ruas se cruzam com outras ruas
mas, mesmo assim, se identifica o lugar onde moram as mãos.

Serão as tuas mãos a minha cidade?
Não, certamente não, porque ainda procuram
o lugar que habitam, as tuas mãos

Se na noite escondida,
ou na Aurora, à luz do nascer do Sol.
E, esse lugar perdido, o sítio de umas mãos como as tuas,
não é por certo o da cidade que eu habito.
Simplesmente porque se perdem nas encruzilhadas da indecisão.

Com sorte, haverá talvez um anjo da noite que as conduza a um qualquer lugar.


- Falaram-me um dia de Intimidade. Onde residirá ela com mãos assim? Mãos que tudo sentem o direito de devassar?

Residirá a Intimidade numas outras mãos, ou em algum pescoço apertado, sem ar, em estertor, como um dia, em tom de aviso ou de admoestação - talvez para tentarem calar a palavra ou os afectos a quem a verdade não teme - me chegaram a dizer???

Não sei, sei que mãos assim terão que se limpar. Terão que percorrer muitos e longos caminhos mais. Até se conseguirem clarear.
Terão que aprender que não existem mãos sem o pensamento, sem a Palavra.
E que a vida nunca se resolve pelas mãos dos outros, em bancos sujos de hospitais, ou pelo receio de umas mãos.

Se hoje tivesse uma aliança de brilhantes na minha mão, tentaria decepar os dedos. Até que a terrível dor me acordasse de vez!
Porque nunca deixaria que, na minha vida, fossem outros a fazer a eutanásia (a sujar as mãos) por mim, fossem amigos, familiares, maridos, filhos, sopeiras, chefes, secretárias,juízes, médicos, ou tribunais!


P.S.: Recomendo vivamente a leitura do livro «As Mãos Sujas» do existencialista Sartre, que tão bem descreve as mãos que, mantendo-se limpas, se sujam pelas mãos dos outros.
Para quem nunca leu Sartre (ignorando-o, mas arrogando-se de tudo saber, de tudo conhecer, e de tudo poder violentar), trascreverei a sinopse do livro «Mãos Sujas», de acordo com a Webboom.pt: A filosofia de Sartre, tão discutida, pode ser definida como uma filosofia da liberdade e da responsabilidade. Ao homem compete inventar a própria vida e o próprio destino e escolher a própria liberdade e construir o seu valor. Esta filosofia é designada sob o nome genérico de "existencialismo" e revela-se, sobretudo, nos volumes L' être et le Néant, Situations e Critique de la Raison Dialectique. Em 1964, Sartre foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, que recusou. As Mãos Sujas, a sua peça mais célebre, nasce da oposição política de um realista e de um idealista. Um chefe revolucionário colabora com os seus adversários; uma facção do seu próprio partido considera essa táctica inoportuna e encarrega um jovem idealista de o assassinar. Este livro reflecte principalmente as ideias de Sartre sobre o problema da liberdade.

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