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domingo, junho 23

A maior Lua Cheia do ano ...

A Lua, astro satélite sem luz própria, faz-se sempre recordar uma velha oração que conheci no Alentejo e ainda uma outra cidada no «Asno de Ouro» de Apuleio que dão conta, por um lado, do sincretismo religioso daquele território e do papel que os cultos lunares desempenham nas crenças e religiões desde épocas remotas.

Passarei a citar:


"Lua, Luar

Toma lá este Bébé

Ajuda-mo a criar

Tu és Mãe e eu sou ama

Cria-o tu que eu lhe dou mama

Em louvor da Virgem Maria

Padre Nosso, Avé Maria"



A outra citada por Apuleio, no Asno de Ouro, faz também eco da mesma devoção lunar, pois atribui ao burro na sua caminhada iniciática uma oração dedicada à "Lua cheia resplandecente de admirável brilho" a quem confere uma "transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se regiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também as inanimadas, vegetavam pelo divino influxo de sua luz e divindade (...)".

E o Asno suplica à Lua, apelando a atributos que lhe foram conferidos ao longo dos tempos:

" Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos (...); ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descendência (...) que, favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos (...); ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que é lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade (...), tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas” .


Na primeira oração , é clara a associação da Lua com a feminilidade e a maternidade.

Na segunda oração, a que Apuleio põe na boca do Asno, a Lua aparece-nos com uma feição mais complexa: ora símbolo criador, fecundador; ora rainha e regradora do mundo humano, animal e inanimado; ora símbolo do amor e da união dos sexos, associada a Vénus.

Mas a Lua também nos aparece aí associada a a uma divindade do mundo subterrâneo, Prosérpina, "horrível pelos seus uivos nocturnos", pois esta divindade, filha de Zeus com Demetra foi raptada por Hades o deus dos mortos que fez dela a sua esposa, vivendo com ela parte do ano, nesse mundo das "entranhas da Terra".

Daí advêm, certamente, muitas das associações maléficas que se atribuem à Lua na tradição popular, com efeitos perniciosos de mau-olhado ou de "quebranto".

Mas também por isso a Lua representa a passagem da vida para a morte, uma vez que, como astro que aparece e desaparece, ela tanto está tanto morta, como viva.

Ainda por esses ritmos de aparecimento/desaparecimento; Luz/Escuridão; Morte/Vida, a Lua funcionou como símbolo dos ritmos biológicos, motivo porque ainda hoje a gravidez é marcada pelas Luas, atribuindo-se-lhe também grande importância nas marés e nos ciclos agrícolas.

Ainda por isso mesmo alguns calendários da Antiguidade se regeram pelos ciclos lunares.

A Lua na sua conotação com o mundo feminino, sem Luz própria, ou seja um astro satélite natural da Terra sem Luz própria, que reflecte a Luz do Sol de forma descontínua, é também símbolo de transformação e de crescimento. De caminho ou caminhada.

Que seja um Boa Caminhada em ciclo de S. João|




segunda-feira, junho 17

Solstício de Verão




«(…)
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com a tua vida e o teu divino fado.

(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico.
Eu a julgar-te até católico
E sais-me maçom.»


Fernando Pessoa.

In Jorge de Matos, O Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa, p.101





Tinha passado toda a noite
ele mesmo se sentia perdido
diante dessa presença sem palavras
que lança trevas nos símbolos
e torna os argumentos
insustentáveis

é possível que resida nisto
sua parte mais importante
a partir deste ponto desaparece


José Tolentino Mendonça, Baldios, cit in Diário 2008, Assírio &Alvim




O Solstício de Verão marca o apogeu do percurso solar, como o Sol no zénite, no ponto mais alto do céu. Trata-se do dia da festa do Sol.

Dá-se a entrada do Sol no signo de Caranguejo.

O nascimento de S. João Baptista, a 24 de Junho, assinala, no mundo cristão, o solstício de Verão, enquanto o de Cristo corresponde ao solstício de Inverno. "Na tradição hindu, o solstício de Inverno abre a devayana, a via dos deuses, o solstício estival abre a otriyana, a via dos antepassados, que corresponde (...) às portas dos deuses e dos homens» (Chevalier, et alii, Diccionário dos Símbolos).


As festas de S. João são celebradas entre várias religiões e mesmo entre várias organizações iniciáticas, pois, para além da sua associação à água e ao Baptismo é também simbolicamente conotado com o fogo,  e o Sol, porque é através dele que tudo se vivifica, se reinicia um ciclo, integrando o anterior, mas passado pelas chamas purificadoras e regeneradoras.

São estas as palavras de São João Evangelista:  


“No começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava, no começo, com Deus. Tudo era feito por ele e, sem ele, nada se fez de tudo o que foi feito. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas, e as trevas não o receberam.”



É demais evidente através das suas palavras a ideia de uma passagem do Mundo das Trevas ao Mundo da Luz, motivo pelo que ainda nas festas populares também se salta à fogueira, queimando ervas de cheiro purificadoras.


O Fogo, esse Elemento que permitiu ao Homem evoluir enquanto espécie, fonte de energia que faz brotar a vida, renascendo diariamente, é considerado Sagrado desde a Antiguidade Remota e, quer na Antiga Grécia, quer em Roma,  guardado e transportado para as novas fundações, motivo pelo que, ainda hoje, os Jogos Olímpicos se iniciam com a entrega da tocha acesa. Os Solstícios que ocorrem quer no Inverno, quer no Verão, marcam mudanças fundamentais: são novos ciclos, tornando-se com cada um deles os dias mais longos e mais curtos, abrindo o Solstício der Inverno uma fase ascendente e o de Verão uma fase descendente.

Para as primeiras sociedades , a época das colheitas era  celebrada no dia mais longo do ano - O Solstício de verão, pois a sobrevivência durante o período invernal delas. Por seu lado, o Solstício de Inverno marcava a viragem para uma época de maior calor. Em Roma, os dois Solstícios são figurados através das duas faces de Janus, divindade das passagens, dos princípios e dos fins: uma face era de um jovem, símbolo do Futuro, e a outra a de um velho, símbolo do Passado e do ano que se prepara para o terminus a partir do Verão. Uma das faces dirige-se para a Luz e outra olha as Trevas, motivo pelo que a divindade era celebrada duas vezes por ano.

Não admira, portanto, que João, embora nascido em Israel, tenha também essa feição do romano Janus, que aqui se espelha em S. João Envangelista e em S. João Baptista.




E porque se aproxima o Solstício de Verão, o maior dia do ano, vou ver a luz serenamente poisar, pois a Lusitânia é, na Europa, o sítio onde ele se deitará mais tarde, não sei se rugindo como diziam os autores clássicos a propósito do Promontório Sagrado!





De acordo com certas variações do calendário grego – que diferiam amplamente por região e época – o solstício de verão era considerado o primeiro dia do ano. 
Vários festivais se realizavam nessa altura, designadamente o Cronia, que celebrava o deus da agricultura Cronos. 
O rigoroso código social era temporariamente suspenso durante o período de duração do Cronia, e até os escravos podiam participar das festividades em total igualdade, ou mesmo sendo servidos por seus senhores. O solstício de verão também marcava o início da contagem regressiva de um mês para o início dos jogos olímpicos.

Os Romanos nos dias que precediam o solstício de verão celebravam o festival de Vestália, que honrava Vesta, a deusa da família (conjuntamente com Juno zelava pelo casamento) e que protegia as mulheres e a virgindade. Os rituais incluíam o sacrifício de um bezerro não nascido retirado, portanto. do útero de sua mãe. Esta era a única altura do ano em que era permitido às mulheres casadas entrar no templo das virgens vestais que guardavam a chama sagrada e lá fazer suas oferendas.

quarta-feira, junho 12

O Vermelho e o Negro, Stendhal








Voltarei sempre ao Vermelho e Negro, como um dos mais belos romances que li.

A par da Cartuxa de Parma, o Vermelho e Negro é dos melhores romances que a história da literatura conheceu.
Redescobri-los é como se nos descobrissemos também um pouco.

Como Stendhal conseguiu inventar o mundo inteiro em duas pequenas cidades de França e Itália, é a arte que a muito poucos coube: a capacidade de tudo criar através da palavra!
Fugindo através delas da tirania das máscaras frágeis de um lugar qualquer, e criar, assim, um qualquer lugar, onde a densidade das histórias nos transporta ao mais profundo que há em nós: a capacidade de querer e de crer. Somando a cada dia a liberdade de escolher.




«Não tenho a menor ilusão - dizia-lhe ela, mesmo nos momentos em que se atrevia a entregar-se a todo o seu amor -, estou condenada à danação, irremissivelmente condenada. Tu és moço, cedeste às minhas seduções, o céu pode perdoar-te; mas eu estou condenada ao fogo eterno (...). Tenho medo; quem não teria medo à vista do inferno? Mas, no fundo, não me arrependo. De novo cometeria este erro, se não tivesse ainda cometido.

(...) Mas, e tu, pelo menos, meu Julien (...) tu és feliz? Achas que eu te amo o bastante?»


sexta-feira, junho 7

Chama-me o Sul: o Alentejo Litoral .... (reed.)

Ver: http://mirobrigaeoalentejo.blogspot.pt/search?q=pessegueiro





Mesmo quando algumas oliveiras têm dificuldade em crescer, de serem lentas a criar raízes no chão, há lugares que sempre nos pertencerão!

Como há amores que só morrem pelas nossas mãos.

Aqui vos deixo um apontamento, um caminho a percorrer (do Castelo Velho - Miróbriga e a capela de S. Brás, as suas ruínas, os ciprestes, sobreiros, zambujos e as imaginadas papoilas que em Maio florescem - ao Castelo Novo fortificado pelos Espatários) que tantas vezes cruzei, por entre moinhos e veredas, mas que sempre consegui ver com um novo olhar.


Mas poderão rumar ainda mais ao mar: Sines, a Ilha do Pessegueiro, Vila Nova de Milfontes, lembrando velhos caminhos romanos, potenciando o que mar fornecia, transformado o pescado em garum e salmoura, quer em Sines, quer nas fábricas de salga do Pessegueiro, que funcionaram entre os séculos II e IV.

Ou espreitando o que resta do forte filipino e as pedreiras mandadas fazer por Alexandre Massai, sem terem, contudo, obtido resultados proveitosos que fazem daquela ilha fendida um lugar mágico e especial.
































E ver, ainda, ao longe, o Cercal, cheirando a serra ao metal que tornava ferruginosas as ribeiras; vi o Sado de Alcácer e as lagoas que, mais a Sul, viabilizaram uma agricultura mais fértil.


Mas já a noite havia chegado, e os tons se tinham esbatido no silêncio que lhe deu lugar. Como um dos dias mais fantásticos que vivi e que por lá passei, onde se desvendaram afectos como na "Ilha dos Amores"....

Afinal há tanta coisa para encontrar ...




Lily Allen

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Que as ragas tragam ao dia o que a noite lhe roubou

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Bom Domingo

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oiça a Buika ... oiça bem

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e oiça também a Lila Downs

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i want you, but i don´t need you ...

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