My favorite things

Loading...

quarta-feira, dezembro 31

A minha mãe: A mulher da minha vida, pelo dia que era o seu (reed.)





















Se, de facto, as estrelinhas que há no Céu são os que partiram com a alma em paz, sei que brilharás como nenhuma.
Para mim és aquela a que chamam estrela, mas não o é: Vénus, a estrela da manhã. A primeira que se vê e a última a deixar de se poder observar


Nome: Maria Helena Antunes dos Santos Albarran Barata (a bela Helena de Tróia, mais conhecida por "linda", porque toda a vida assim lhe chamou o meu pai, o seu homem de toda a vida).

31 de Dezembro 1935 -10 de Janeiro 2005 (para connosco ainda passar o dia de Natal e o seu dia de anos).


Toda a vida trabalhou e cresceu, tendo sido a única mulher do Banco de Angola em Malanje.
Toda a vida conduziu descalça em dias de calor fazendo estranhar, pelo pioneirismo, Malanje (Angola) que lhe conheceu os melhores anos.
Toda a vida amou
Toda a vida gostou de viver e sorrir
Toda a vida tomou chá, tantas vezes gelado, sentando-se nos degraus da casa que foi a da minha infância



A minha mãe (segunda à direita, junto da minha avó. Em baixo, o primeiro à direita, o meu pai com a minha irmã ao lado. Eu estou com as tampas da panela na mão).


Os meus pais (do lado direito)

Toda a vida soube festejar, dançando com as amigas o Zorba ou a valsa da Meia-Noite com o meu pai.

Toda a vida teve tempo para os seus.
Toda a vida teve preocupações sociais, o que a tornou uma convicta votante socialista.
Sempre lhe vi um livro na mão.
Com ela teve até ao último dia o «Cavaleiro da Dinamarca» de Sophia de Mello Breyner Andersen, que quis ler e ouvir até que os olhos quase lhe fecharem.
Ela sabia que era apenas uma viagem que tinha que empreender!
Hoje eu ter-lhe-ia também juntado «A Casa dos Espíritos» e um livro de poemas de Florbela Espanca que me tinha emprestado.

Que saudades eu tenho de um café no Nicola, em dias de chuva, nostálgica que sempre foi da sua Lisboa, e de a ver meditar serena junto ao mar de Odeceixe, em posição de yoga e sorvendo o Sol.

Venha hoje a tua Força e a tua Luz para me acompanhar.


Porque eu às minhas histórias vou voltar, sem medo de fantasmas ou sombras e sei bem que por aqui estás perto para me serenar!
E sei que te prometi ser feliz, tentasse as vezes que tivesse que tentar.

A minha mãe (à direita) e a minha irmã (do seu lado, em baixo)


E sei que a partir de amanhã estará de novo junto ao meu pai para com ele poder jogar crapot no Céu.

Ao despedir-se, disse-me: «não sei porque estás assim. Quando olhares para a tu filha, lembra-te que nela corre um pouco de mim»!

Sei que talvez tenha sido a única vez que, verdadeiramente, lhe "obedeci".Nunca mais o esqueci.

segunda-feira, dezembro 15

Uma gazela aprisionada

Serafina parece uma gazela;
Não aguenta o cativeiro, nem os quatro filhos que já pariu. Não pode viver num mundo feito de portões.
Todos lhe dizem, tens que estudar; tens que trabalhar; tens que cuidar dos filhos melhor.
Serafina sorri, mas com um sorriso matreiro, logo pensando como esgueira a sua soberana magreza para mais uma noite no "bairro", quando a casa do portão está a adorrmecer.
Nascida no mato, as regras da urbanidade apertam e fazem-lhe doer o coração.
Até os sapatos talvez, mas disso não fala, porque há as ruas que tem que palmilhar, para poder ir às compras apressadas que não pode deixar de fazer.
Mas a gazela está ferida. Ferida pelo cativeiro e porque a pele começou a dar sinais de uma doença que invade o corpo, tornando-o lugar de cicatrizes e caroços.
Malárias de um tempo em que o corpo se rouba a si mesmo, contagiando-o das chagas de outros corpos seus iguais.
Já nem quer saber, e até esquece que as cicatrizes vão começar a aumentar ...
somente pensa que esta noite vai novamente fugir para longe dos portões, esquecendo as obrigações que a acorrentam.
Logo mais dela vos voltarei a falar.

Procurar e encontrar

Procurei-te, andando sem parar. Encontrei o vazio, no teu lugar.
Continuei a busca.
Lá ao fundo, flutuando, apenas me encontrei a mim.

quinta-feira, dezembro 4

A PROPÓSITO DE UMA LENDA DA EUROPA (reed.)



 Filomena Barata A PROPÓSITO DE UMA LENDA DA EUROPA


http://www.incomunidade.com/v18/art_bl.php?art=21



Rapto da Europa, Ny Carlsberg Glyptotek, Copenhagen.
Fotografia a partir de: Ancien Rome:
https://www.facebook.com/Divine.Rome/photos/a.155713357822314.33123.124453160948334/801449593248684/?type=1&theater



Segundo a mitologia grega, Europa foi raptada por Zeus, que se transformou em touro para seduzir a princesa, quando esta se banhava na praia. A princesa Europa terá nascido no mediterrâneo e era filha de Agenor, o rei fenício de Sídon. Um dia, a princesa passeava na praia com as suas companheiras, quando Zeus se disfarçou de touro branco, com chifres e cascos de prata, pois sabia que Europa gostava de grandes animais e mansamente se veio deitar a seus pés. Europa terá acariciado o animal, e depois deixou-se subir para o seu dorso. O touro, aproveitando-se deste momento, levantou-se impetuosamente e cavalgando as ondas do mediterrâneo, levou-a até à Ilha de Creta e foi depositá-la debaixo de um plátano. Ao que rezam também as lendas, terá sido nessa ilha que Zeus passou a sua infância. Segundo o poeta Mosco de Alexandria, Europa, rainha de Creta, foi “mãe de filhos gloriosos, cujos ceptros hão-de acabar por dominar todos os homens da terra”. Quando Zeus revelou a sua verdadeira identidade e a tornou a primeira rainha de Creta, deu-lhe três presentes: Talos, um autómata de bronze; Laelaps, um cão que nunca soltava a sua presa; e uma jabalina que nunca errava. 
 Os três filhos de Europa foram: Minos, Radamantis e Sarpedón. É por causa disso que o seu mito é indissociável do Minotauro. 



Mosaico do Minotauro, Museu Monográfico de Conímbriga.


Posteriormente ter-se-á casado com Asterión, rei de Creta, que adoptou os seus filhos. Algumas fontes literárias identificam-na como irmã de Io, também ela uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera a quem Zeus havia seduzido, cobrindo o mundo com um manto de nuvens escuras para esconder da esposa Hera a sua paixão. Neste caso, diz-nos a Mitologia que Zeus havia transformado a amante uma belíssima novilha branca, havendo, contudo versões, que dizem ter sido Hera a obreira desse castigo, sem que, contudo, lhe conseguisse apaziguar os ciúmes, tendo acabado por a colocar à guarda do gigante de cem olhos, Argos Panoptes fiel servo da divindade. Embora Zeus tenha encarregado Hermes, o mensageiro dos deuses, de libertar a amada matando o monstro Argos, nem assim ela se livrou da vingança de Hera, transformando-a num cisne e originado um périplo entre Micenas e a Trácia, tendo percorrido as planícies da Ilíria; galgou o Monte Hemo e atravessado o estreito da Trácia, que a partir daí ficou chamado de Bósforo (rio da vaca); vagou pela Cítia e pelo país dos cimerianos e chegou, afinal, às margens do Nilo. Também a ela se deve a denominação de Mar Jónio (Ionio), o braço do mar Mediterrâneo, a sul do Mar Adriático, ao que dizem as lendas, Hermes teria usado a flauta de Pã para adormecer Argos, tendo-lhe cortado a cabeça. Hera desolada, recolheu os olhos de Argos e colocou-os como ornamentos na cauda do pavão, animal que lhe era consagrado, onde até hoje permanecem. Durante as suas deambulações, Io terá encontrado, no Monte Cáucaso, Prometeu acorrentado numa rocha e o mesmo profetizou que ela seria libertada e regressaria à sua forma humana, quando chegasse ao Egipto, onde acabou por nascer Éfano. Io acabou por reinar com o nome de Ísis, após o casamento com Telégono. Segundo algumas narrativas mitológicas, Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia. Agenor teria ordenado ao seu filho Cadmo que saísse à procura da irmã e não regressasse sem ela. Cadmo partiu e procurou a irmã muito tempo e por terras distantes, mas em vão, motivo porque decidiu consultar o oráculo de Apolo, para saber em que país deveria fixar-se. O oráculo respondeu que ele encontraria uma vaca no campo e deveria segui-la, acompanhando-a aonde ela fosse e quando a vaca parasse, ele deveria construir uma cidade e chamá-la de Tebas, fundação essa que acabou por acontecer após múltiplas deambulações, tendo Cadmo acabado por casar-se com Harmonia, filha de Vénus. Na Ilíada, narra-se, portanto, que a Europa era filha do filho de Agenor, Fénix, e referem –se os seus dois irmãos: Cadmo e Cilix, que fundou a Cilicia, actual Arménia. A narrativa que a descreve como filha do rei fenício raptada por um touro, divindade cretense, mas igualmente de fenícios e arameus, não ficaria perceptível se não se fizesse uma referência aos sonhos da bela princesa. Europa teria tido um pesadelo perturbante no dia anterior ao rapto, no qual duas mulheres exigiam a autoridade sobre ela. Uma delas representava a Ásia e dizia ser sua mãe; a outra que simbolizava um continente desconhecido (América) afirmava que Europa lhe tinha sido dada por Zeus. Assim, nos mitos gerados no mar Egeu, Europa é o nome que se deu a um novo continente que tem a Ásia por mãe. Sabe-se hoje, através do que a própria arqueologia confirmou, que a civilização europeia viajou no mediterrâneo na proa dos barcos fenícios entre outros, sendo Creta um dos grandes pólos. Mas, é um facto, que esta civilização se desenvolveu igualmente como resultado das ligações terrestres que uniram milenarmente a Europa à Ásia, através da actual Turquia. Se o que se reconhece como a «civilização europeia» tem origem no Médio Oriente, é através da mitologia e com Ulisses que atravessa o Mediterrâneo até ao Ocidente, e gradualmente até ao território que hoje se designa Portugal, trazida pelas diásporas fenícias, cartaginenses e, mais tarde, a ocupação romana. Do romance que a Europa teve com Zeus, nasceu, como vimos, o filho Minos e deu-lhe a ilha como presente, tendo-se tornado fértil e repleta de touros. Ao tornar-se adulto Minos desposou Pasifae. Querendo tornar-se ainda mais rico, Minos fez um pacto com Poseidon, o deuso deus do Mar, de forma a triplicar a sua fortuna, prometendo-lhe o seu melhor touro como pagamento.

Contudo, não querendo desfazer-se de nada, resolveu enganá-lo e dar-lhe em troca um touro vulgar.

Quando Poseidon percebeu que tinha sido enganado, chamou Vénus para o ajudar na vingança.

À noite, Vénus conseguiu introduzir no coração de Pasifae, mulher de Minos, um amor alucinante por um touro.

Incapaz de conter a sua paixão ardente, ela pediu a Dédalo que construísse uma armadura de madeira na forma de vaca, para que assim disfarçada, se pudesse aproximar do touro.

Desta união nasceu o monstro Minotauro, um humano com cabeça de touro.

Sentindo-se atraiçoado, Minos mandou construir um labirinto, de onde não se encontrasse a saída e ali encarcerou esse ser monstruoso.

Quando invadiu Atenas, Minos subjugou o seu povo, tornando-o escravo. Semanalmente eram-lhe levados 7 rapazes e 7 raparigas virgens, para contentar a fome do Minotauro.

Inconformado com essa prática de Minos, Teseu, o filho do Rei de Atenas, juntou-se a um grupo de jovens, com a intenção de matar o Minotauro e assim salvar os jovens de serem sacrificados.

Em Creta, Teseu encontrou Ariadne, filha do rei Minos, que se apaixonou por ele e lhe deu um novelo de lã que o ajudaria a sair do labirinto.

Teseu matou o Minotauro e, ao que diz a Mitologia, a parte humana do Minotauro foi deixada na terra e a parte animal foi elevada aos céus, onde se tornou a constelação de Touro.

O touro é uma constante em todo o Mundo Mediterrânico, sendo conhecida desde a Idade do Ferro, no território actualmente português, estatuária com a sua representação.

Em Santa Bárbara de padrões (Castro Verde) foi mesmo identificado um exemplar com tema da Europa representado.

No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Vila do Bispo com a forma de touro, datável dos séculos IV-II a. C. e outra de proveniência desconhecida, com chifres e pernas partidas, publicado, em 1996, no catálogo «De Ulisses a Viriato».

Existe ainda um queimador ritual de bronze, que é rematado por uma figura de touro deitado e uma estátua de touro levantado, de cabeça para a frente, da colecção Bustorff Silva, do Museu Nacional de Arqueologia, também publicado num interessante catálogo «Um gosto privado - um olhar público».

Um touro de bronze tartéssico, provavelmente proveniente de Mourão, datável do século VII a.C. pertence também à colecção desse mesmo Museu Nacional de Arqueologia.

Ainda no Museu e Arqueologia de Montemor-o-Novo, existe um outro exemplar de bronze, proveniente da Herdade de Corte Pereiro, que aponta, segundo os investigadores, para o século V a.C..

No ritual de iniciação nos mistérios de Mitra, essa divindade trazida por Romanos da Pérsia, de que já aqui falámos, era o Taurobólio, porque exigia o sacrifício do touro que foi também uma constante no mundo mediterrânico oriental e greco-latino, assumindo como anteriormente vimos nesta Revista um carácter fundacional, pois o culto deste animal assenta a sua sacralidade no seu vigor e violência cósmica, e num poder fecundante.

Em conclusão e não correndo o risco de nos repetir, pois vários cultos relacionados com o touro já aqui foram tratados em anteriores revistas, podemos dizer que o Mito da Europa tem como constante essa força genésica associada ao touro, mas também ao mar e à errância ou libertação que o mesmo permite, caminhando como a Io, sem se deter, na busca de um ideal transformador.

Assim seja a Europa hoje, caminhante de novos rumos a encontrar.

Sobre as representações de touros em moedas, recomendo a leitura de:
http://www.romancoins.info/Gods-On-Coins.html

Sobre a simbologia do touro:

«Touro Esculpido de Miróbriga»
http://www.portugalromano.com/2011/01/611/

Sobre o mito da Europa e de Zeus:
http://eventosmitologiagrega.blogspot.pt/2011/01/io-e-zeus.html

Ver ainda: http://eventosmitologiagrega.blogspot.pt/2011/03/europa-e-zeus-arte-da-conquista.html
e «O Livro de Ouro da Mitologia»
http://filosofianreapucarana.pbworks.com/f/O+LIVRO+DE+OURO+DA+MITOLOGIA.pdf


Figura 1 - Touro esculpido de Miróbriga. Desenho de Marcos de Oliveira.


Figura 1 - Rapto da Europa, Museu de Beirute


Figura 3 - Rapto da Europa, foto de Pompei, arte, storia ed archeologia.


Filomena Barata, Licenciatura em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestrado em Arqueologia pela Universidade de Letras do Porto. Técnica Superior da DGPC, Secretaria de estado da Cultura. Corpos Gerentes da Liga de Amigos da Miróbriga e da VITRIOL, Associação para a Lusofonia.

sexta-feira, novembro 21

Apenas vou descansar .... nada me digam, nada me perguntem

 



Até quando o dia se sobreporá à noite?
Até quando o cansaço não nos vencerá?
Trilhos, caminhos, tantos ainda a palmilhar
E o pensamento que não consegue sossego

Tanto queria dormir
apenas os olhos cerrar ....



Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco -
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus.

E súbito encontro Deus.


Fernando Pessoa, Ficções de Interlúdio


Posted by Picasa

terça-feira, novembro 18

O silêncio (reed. 2009)






















Por vezes há que calar a voz
pedir às mãos que esqueçam como se costuram palavras
suplicar ao vale que nada diga
apenas ouvir o silêncio, acreditar no Segredo

Por vezes o claro tem que se separar do escuro
sem condescendência à penumbra
fica o peito sem poder gritar
mas certamente haverá um murmúrio que vai fazer-se escutar.

Há momentos, é verdade,
que há apenas que ser-se Sol e Luar.
É o tempo do silêncio e das decisões!

Urge soletrar baixinho, letra a letra, até que a PALAVRA se faça parir



terça-feira, novembro 11

As castanhas (a partir de 11.11.09)



Em conformidade o que a etnologia aceita, o Magusto dos Santos parece ser uma  reminiscência de antiquíssimos rituais fúnebres pagãos, durante os quais se faziam oferendas em géneros alimentares às almas dos mortos.

A importância de S. Martinho associado à festa popular das castanhas e como patrono do vinho e dos bêbados cresceu de tal modo que quase ocupou a agenda festivo ligada aos magustos, relegando para plano secundário todas as outras tradições e santinhos desta época, designadamente o dia de Todos-os-Santos.

Conhecida a sua utilização desde a Pré-História, pelo seu valor calórico, as castanhas foram muito utilizadas no período romano, guardadas em mel, e, na Idade Média até à introdução da batata e do milho na dieta alimentar, nos séculos XV-XVI, foram a par da bolota as grandes bases da dieta alimentar no mundo Ocidental. ao ponto de se comerem mais do que pão.

A castanha encerra o sentido simbólico do ciclo do Outono, sendo o dia de S. Martinho o dia em que se prova o vinho novo que "amadurecerá ou envelhecerá" durante o Inverno.
No dia de Santos o magusto continua a ser tradição, funcionando a fogueira para fazer as castanhas e aquecer as mãos.

A castanha, que se desenvolve dentro de um ouriço, provém do castanheiro, árvore que simboliza a longevidade e a perenidade.

«No dia de S. Martinho, há fogueiras, castanhas e vinho».
Que este dia represente um ciclo novo para quem tem páginas para virar ...
...
Imagem: Wikipédia
Para conhecer a «Festa do Castanheiro - Feira da Castanha» em Marvão, poderá consultar:

O dia de S. Martinho (reed. 11.11.09)













Fot. http://smatinho.blogspot.com/








«SSão  «S. Martinho é festejado a 11 de Novembro, dia em que por tradição se prova o vinho novo, pois São Martinho é pretexto para molhar a goela. Reza a tradição algarvia que em 383, São Martinho de Tours, solicitou ao imperador Máximo ajuda material para a construção de um convento. Foi bem recebido pelo imperador e participou num banquete com os membros da corte. No banquete bebeu-se em demasia e foram tantas as bebedeiras que o banquete foi desde logo, classificado como martinhada. Segundo consta, esta terá sido a origem de São Martinho ser o patrono dos bêbados, embora nada permita afirmar que tenha sido daqueles que se excederam na bebida». in http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2011/11/dia-de-sao-martinho.html

Para além da história do Santo, sepultado em Tours no século IV, motivo pelo que se tornou um dos santos mais populares em França, há um conjunto de informações sobre a efeméride, passando a citar alguns dos Provérbios de S. Martinho e de castanhas que aí encontrei. Mas há mais! Parabéns ao Município de Mirandela por disponibilizar esta informação.







































Relembro ainda o que nos dizia Alfredo Saramago:

A segunda coisa que Noé fez, com pé em terra, foi plantar uma vinha e quando os frutos das suas vides amadureceram e fermentaram, bebeu, e bebeu tanto que apanhou uma bebedeira mais que histórica, agarrou uma bebedeira bíblica. O patriarca guardou o vinho só para si, evitando qualquer libação ritual, ou qualquer oferenda, porque para a ira do Criador já tinha dado e, além disso, é fácil concluir que as relações entre Senhor e servo não seriam as melhores, propensas a qualquer partilha, com tanta privação e tanta prova de água. A Bíblia é compreensiva em relação à bebedeira de Noé, não o condena, apenas narra o que se passou.

Alfredo Saramago, Os Prazeres de Alfredo Saramago
in Diário 2008, Assírio & Alvim


Sobre o Santo e tradições em seu redor, o etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira (1910-1990) afirma o seguinte: «O S. Martinho, como o dia de Todos os Santos, é também uma ocasião de magustos, o que parece relacioná-lo originariamente com o culto dos mortos (como as celebrações de Todos os Santos e Fiéis Defuntos). Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas, celebrada em muitas partes com procissões de bêbados de licenciosidade autorizada, parodiando cortejos religiosos em versão báquica, que entram nas adegas, bebem e brincam livremente e são a glorificação das figuras destacadas da bebedice local constituída em burlescas irmandades. Por vezes uma dos homens, outra das mulheres, em alguns casos a celebração fracciona-se em dois dias: o de S. Martinho para os homens e o de Santa Bebiana para as mulheres (Beira Baixa). As pessoas dão aos festeiros. vinho e castanhas. O S. Martinho é também ocasião de matança de porco.» (in As Festas. Passeio pelo calendário, Fundação Calouste Gulbenkian, 1987)

cit. in http://smartinho.blogspot.com

E passarei a citar alguns dos ditados sobre o magusto e as castanhas, recomendando a consulta do site http://www.cm-mirandela.pt.

- A cada bacorinho vem o seu S. Martinho.

- Em dia de S. Martinho atesta e abatoca o teu vinho.

- Martinho bebe o vinho, deixa a água para o moinho.

- No dia de S. Martinho, fura o teu pipinho.

- No dia de S. Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho.

- No dia de S. Martinho, mata o porquinho, abre o pipinho, põe-te mal com o teu vizinho.

- No dia de S. Martinho, mata o teu porco, chega-te ao lume, assa castanhas e
prova o teu vinho.

- Pelo S. Martinho abatoca o pipinho.

- Pelo S. Martinho castanhas assadas, pão e vinho.

- Pelo S. Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.

- Pelo S. Martinho, nem nado nem no cabacinho.

- Por São Martinho, semeia fava e linho.

- Por São Martinho – nem favas nem vinho.

- Pelo S. Martinho prova o teu vinho; ao cabo de um ano já não te faz dano.

- O Sete-Estrelo pelo S. Martinho, vai de bordo a bordinho; à meia-noite está a pino.

- São Martinho, bispo; São Martinho, papa; S. Martinho rapa.

- Se o Inverno não erra o caminho, tê-lo-ei pelo S. Martinho.

- Se queres pasmar o teu vizinho, lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.

- Se o Inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo São Martinho.

- Veräo de S. Martinho säo três dias e mais um bocadinho.

- Vindima em Outubro que o S. Martinho to dirá.

- Castanhas boas e vinho fazem as delícias do S. Martinho.

- A castanha e o besugo em Fevereiro não têm sumo.

- A castanha em Agosto a arder e em Setembro a beber.

- A castanha excita o coito e alimenta muito.

- A castanha tem três capas de Inverno: a primeira mete medo, a segunda
é lustrosa e a terceira é amarga.

- A castanha tem uma manha: vai com quem a apanha.

- A castanha veste três camisas: uma de tormentos, outra de estopa e outra de linho.

- A castanha amarela em Agosto tem a tinta no rosto.

- A noz e a castanha é de quem a apanha.

- Andam os castanheiros ao boi!...

- Ao assar as castanhas, as que estouram são as mentiras dos presentes.

- Arreganha-te, castanha, que amanhã é o teu dia.

- As castanhas apanham-se quando caem.

- As castanhas para o caniço e o boneco para o porco.

- As folecas indicam o sexo de criança ou animal que vai nascer.

- Assentar-lhe uma castanha.

- As folhas de castanheiro andam sete anos na terra e depois ainda voam.

- A oliveira e ao castanheiro todos os anos mochadeiro.

- Cada mocho ao seu souto.

- Carregadinho de castanha, vai o burrinho para Idanha.

- Castanha assada, pouco vale ou nada, a não ser untada.

- Castanha bichosa, castanha amargosa.

- Castanha cacaforra, nem a dês aos porcos.

- Castanha peluda, castanha reboluda.

- Castanha perdida, castanha nascida.

- Castanha que está no caminho é do vizinho.

- Castanha quente só com aguardente, comida com água fria causa «azedia»

- Castanha semeada, p´ra nascer, arrebenta.

- Castanhas caídas, velhas ao souto.

- Castanha do Maranhão, e escolher se vão.

- Castanhas do Marão, a escolher se vão.

- Castanhas do Natal sabem bem e partem-se mal.

- Castanhas enchidas, velhas ao souto.

- Castanhas idas, velhas pelos soutos.

- Castanheiro para a tua casa, corta-o em Janeiro.

- Com castanhas assadas e sardinhas salgadas não há ruim vinho.

- Crescem os reboleiros, morrem os castanheiros.

- Cruas, assadas, cozidas ou engroladas, com todas as manhas,
bem boas são as castanhas.

- Dá-me castanhas, dar-te-ei banhas.

- De bom castanheiro, boa acha.

- De bom castanheiro, bom madeiro.

- De castanha em castanha (roubando) se faz a má manha.

- De castanhas um palmo.

- De castanheiro caído todos fazem lenha.

- Desde que a castanha estoira, leve o diabo o que ela tem dentro.

- Dia de Santo António vêm dormir as castanhas aos castanheiros.

- Do castanho ao cerejo, mal me vejo.

- Do cerejal ao castanhal, bem vai, o pior é do castanhal ao cerejal.

- Do cerejo ao castanho, bem eu me amanho.

- Do cerejo ao castanho, bem me avenho.

- Em Agosto deve o milho ferver no caroço e a castanha no ouriço.

- Em alheio souto, um pau ou outro.

- Em ano de muito ouriço não faças caniço.

- Em Maio comem-se as castanhas ao borralho.

- Em minguante de Janeiro, corta o teu castanheiro.

- Em Setembro, antes de chover, o souto o arado quer ver.

- Estalar a castanha na boca.

- Folha amarela do castanheiro cai ao chão.

- Lenha de castinceira, má de fumo, boa de madeira.

- Mais vale castanheiro, que saco de dinheiro.

- No dia de São Julião, quem não assar um magusto não é cristão.

- O amor é como o raminho do souto, vai-se um, vem outro.

- O castanheiro, para plantar, precisa ir na mão, o carvalho às costas
e o sobreiro no carro.

- O Céu é de quem o ganha e a castanha de quem a apanha.

- Oliveira do meu avô, castanheiro do meu pai e vinha minha.

- O ouriço abriu, a castanha caiu.

- Os ouriços no São João são do tamanho de um botão.

- Ouriço raro, castanha ao carro.

- Pelo São Francisco, castanhas como cisco.

- Pinheiro cortado em Janeiro, vale por castanheiro.

- Planta o souto, quando cai a folha ao outro.

- Por souto não irás atrás do outro.

- Quando gear, o ouriço vai buscar.

- Quando o lobo come outro, fome há no souto.

- Quando o sol aperta, o ouriço arreganha.

- Quebrar a castanha na boca.

- Quebrar a castanha no dente.

- Quem castanhas come, madeira consome.

- Quem não sabe manhas, não come castanhas.

- Queres castanhas? Larga-a o burro tamanhas.

- Raiz de castanheiro, dá «bô» braseiro.

- Sacar as castanhas do lume com mão alheia.

- Senhoria de Itália, dom de Espanha, não valem uma castanha.

- Sete castanhas são um palmo de pão.

- Sete castanhas fazem no estômago um palmo de pau.

- Soitos do pai e olival do avô.

- Temporã é a castanha, que em Agosto arreganha.

- Tirar a castanha do fogo com a mão do gato.


Adivinhas sobre a castanha:

Alto cavaleiro
Quando lhe dá a risa
Cai-lhe o dinheiro?

Qual é a coisa, qual é ela,
Que é macho e dá fêmeas?

O meu fruto é mais doce,
Que o milho fabricado
Todos o comem com gosto
Cru, cozido ou assado?

Tenho camisa e casaco
Sem remendo nem buraco
Estoiro como um foguete
Se alguém no lume me mete.


Jorge Lage
jorgelage@portugalmail.com – 18NOV2007

segunda-feira, novembro 3

Dos silêncios e dos gritos

A todas as mulheres (ou homens) que sofreram violência.

 

Ela acordara novamente com dores de dentes. Com a sensação de não ter dormido, senão por horas e em sobressaltos.
Lembrara os anos em que não tinha direito a que lhe desejassem «Bom Natal»; «Feliz Ano Novo» e muito menos que lhe dessem os parabéns. E que lhe diziam que estava tanta coisa mal feita ou imperfeita.
Sonhava acordada com os momentos que inventava sozinha para se sentir, mesmo assim, feliz, esquecendo insultos, mentiras, omissões e traições. Usando as letras para escrever histórias.
Ela acordava, julgando ter ouvido o telefone tocar e as palavras suaves que desejaria escutar.
Descobria, nessas alturas, que tinha estado a sonhar. Porque o real era bem outro: eram as culpas de tudo e de nada; do trabalho se ele pudesse brilhar; dos amores que tinham existido e dos amantes que nunca tinham sido reais; dos fascínios a que jamais se tinha rendido.  Isto misturando-se com estranhas palavras «mas ninguém te amará como eu».
E ela quase queria acreditar naquele bizarro amor.
E depois ficava o silêncio soturno e castigador.
Mas ela continuava sempre, mesmo quando revia tudo isso, todos os dias; todas as noites, tentando ainda entender.
E recordava também o dia/os dias, em que o seu corpo tinha sido um saco de boxe, onde se abateram fúrias que nem hoje conseguia explicar.
Lembrava-se sentada num sofá a chorar convulsivamente, perguntando: merecia eu isto? Uma faca brilhava numa mesa e rodou, dando voltas a si mesma, sob o movimento controlado de um dedo.
Apenas ouviu uns sons, «és capaz de te calar, ou queres continuar a falar». Sim, calou-se, e muda ficou por uns dias mais...
Até que acordou realmente. Esqueceu os dentes que doíam, as manchas escuras que haviam ficado na pele; as insónias.
Nesse dia gritou, tanto e tão alto que o seu grito atravessou o mar. E disse: nenhuma espécie de prisão é superior a mim.
Virou as costas. Guardou as forças da revolta agora transformadas numa enorme serenidade e continuou mais decidida do que nunca.
Sabia que seria feliz! Porque ia apenas sossegar.


Pensamentos soltos ...

“Caí em meu patético período de desligamento. Muitas vezes, diante de seres humanos bons e maus igualmente, meus sentidos simplesmente se desligam, se cansam, eu desisto. Sou educado. Balanço a cabeça. Finjo entender, porque não quero magoar ninguém. Este é o único ponto fraco que tem me levado à maioria das encrencas. Tentando ser bom com os outros, muitas vezes tenho a alma reduzida a uma espécie de pasta espiritual. Deixa pra lá. Meu cérebro se tranca. Eu escuto. Eu respondo. E eles são broncos demais para perceber que não estou mais ali”.
Charles Bukowski (1920-1994)






Hoje, andando o vendaval quase à solta, venho aqui agradecer publicamente a grandeza com que a vida me brindou, até com “copinhos de espumante” de início do ano, aproveitando para dar a conhecer um texto de dia de temporal:


« a todas as mensagens sem nome
a todas que têm nome, nem que seja disfarçado
as que me lembraram as tristes roque que não dançam rock
e as que jogam com azedas às escondidas

a todas as raivas e amores sem norte nem rumo
a todos os desamores e desassossegos
a todas as mentiras, traições e ameaças
agradeço terem-me feito sentir ainda mais eu

a todas as viagens pagas para que outros tivessem mesada certa
a todas as mentiras, ilusões ou desilusões
estou profunda e sinceramente grata
pois vi melhor que a vida é mais surpreendente que qualquer romance

Quero agradecer os insultos e a violência
Os desaforos de alguns, feitos heróis nacionais
Cumprimento a grosseria, os mentirosos ou manipuladores
pois fizeram-me dar redobrado valor à educação e lealdade de tantos mais

Sou grata à vida, pois sei que a quem se entrega à ingrata brutalidade dos vendavais
ficará sempre e simplesmente entregue a si só!»
F.B.

sábado, outubro 25

Reflexões



Os poderosos e os ricos, é demais sabido, sempre precisaram de legitimar o seu poder, através de alguém que lhe desse História (ou PEDIGREE): imperadores; reis, magnatas!
Seria sempre tão pequeno o Poder, ou os Bens se não os pudessem consagrar ou projectar para além da estrita e desolada materialidade, pois muitos não encontravam essa dimensão numa Igreja ou Religião também ela sempre demasiado subserviente ao Poder e aos Bens da Matéria.

Muitos constituiam-se Mecenas, fazendo juz ao nome do cidadão romano,Caio Cílnio Mecenas (70 a.C. — 8 a.C.), patrono das letras do tempo de Augusto, , subsidiando os Artistas, para que pudessem contar uma História - através da Pintura, da Escultura, da Escrita ou da Poesia.

Mas era uma espécie de escravatura lixiviada ou "branca", a de alguns cronistas ou artistas, tantas vezes de cama e roupa lavada, ou mesmo com direito a mesa de corte, pois desaparecidos estavam os Escravos Gregos que faziam mestria a médicos e imperadores.

Hoje a Democracia exige que os Intelectuais sejam Homens Livres de quaisquer tipos de poder! E eles são-no!

E, cada vez menos, a sua actividade é suportada ou subsidiada.

Mas resistem estoicamente, continuando a falar de Poesia; de Literatura; de Filosofia; de Artes Plásticas, e, como num reduto de resistência, continuam, continuam ... uma espécie de lugar da POESIS.

Produzem mais, cada vez mais para não morrer como Seres de Pensamento.
Seres Livres para pensar, tentando fazer os outros reflectir.

Mas o que lhes acontece? Morrem à Fome, pensando!
Não são Homens do Ócio, como a Grécia os consagrou, esses ou eram ricos, ou apoiados, mas SERES da Luta para resistir e fazer lembrar o BELO e O BEM de Platão.

E ainda lhes dizem: "têm que procurar a via e não ser subsidio-dependentes". Ou pior ainda, em algumas conjecturas mais elaboradas, ouve-se duzer «não é trabalho, porque dá prazer».

Vivam Eles, os resistentes que continuam a falar de História, de Música, de Cinema, de Filofofia e de POESIA!
E também de uma sociedade melhor!



terça-feira, outubro 14

A Mariana já terminou de fazer os seus convites ... (reeditado)




















E quase não dorme a pensar na festinha que não tardará!

lindos, não são?

(2008)

À minha filha. Porque não são os filhos as desculpas dos pais, mas apenas a sua força mais (reed. Maio 2008)





Quando cheguei a Évora, há uns anos atrás, experiência para viver, sem amigos, sem família e sem alojamento , tive de presente, para culminar, ficar prenhe de um ser.
Primeiro pensei, são apenas uns "espenicões" na barriga (como se diz naquele lugar)... ou, quem sabe, a idade me está já a atraiçoar!
Na mão tinha um livro emprestado da minha mãe «Chocolate»;
No saber e no querer tinha tantas ilusões!...
Nasceu uma criança, o meu «princípe sapo» que, por sinal, e tal como seria de seria de imaginar numa casa de tantas mulheres como era a minha, era fêmea também.
Mariana de seu nome, Alcoforado, não será! (espero-o eu, pese a sua bela escrita que algumas Feministas como eu ainda conseguem manipular. Porque Mariana Alcoforado foi mulher e de desejo. Mas o vilão, o cavaleiro francês toda a vida a fez esperar ...).

Pensei ... desistir? Vou à base retornar... vou fugir do que me tinha proposto fazer?
Mas não, continuei a ler e a trabalhar.
Mariana comigo e eu com ela a refilar e aprender a ser mãe e filha, mãos dadas com a alegria.
Viu os barros de Beja e os campos onde o Sol ainda se põe. Assistiu à solidão de dias e à comunhão de bairros. Viu-me amar muito, rir e chorar.
Sem temor, ela e eu aprendemos que nenhum sentimento ou emoção são de esconder, de fingir ou de evitar. Há apenas que os encarar.
E assim aprendeu ela a escrever e a cantar, correndo campos fora e amigos a acompanhar.
Mochos de ciência e de sorte ainda conseguiu encontrar e chamou os bombeiros para um gato assustado árvore acima poder arregimentar.

Ela e eu acreditámos que a seara semeada de tempo podia ser o nosso lugar.

Não ... o Alentejo é grande, mas não era o nosso espaço de habitar.
Tão longe, tão longe tudo, que, quando agremiadas as gentes, em alguns lugares, pouco mais fazem do que tentar controlar o que de cada um pertença é, perdendo o essencial!

Vamos partir, está na hora, de outros lugares conhecer, filha minha, o sapinho transformado em princesa e que se tornou o ente encantado do meu ser.
E assim foi, fomos acampar noutro lugar. O mesmo onde estamos agora, mesmo que para ela ainda hoje não tenha sido grande solução, pois deixara amigos e tanto espaço para brincar.

Para mim sem searas, mas sem medos da solidão, pois esta é a cidade que desde cedo aprendi a amar!

Sítios grandes estes, cheios de gentes, mas com espaços para outros lugares.

Sim, livro na mão, ela e eu fomos outro sítio espreitar. Trazia novos sonhos e uma vontade enorme de ser feliz, pois a mudança vinha de mãos dadas a tantas outras ilusões.


Ainda ao meu Museu da Memória, à minha filha, micróbio meu, sapo encantado dos dias a desvendar, aos milagres do ser ... SIM, A TUDO ISSO, o melhor do meu ser.

Porque, se filhos nossos são, nada que lhes seja atribuível poderá servir de desculpa para não tomarmos decisões, isso aprendi eu com o meu sapo tranformado em princesa. Só se esconde nos filhos quem com eles não soube crescer!
Nem um dia me fez desistir, apenas continuar, esta "infecção" de que, para sorte minha, nunca me vou livrar:

Mariana
Nascida em Outubro 1999
Olhos cor de azeitona
"Peste" de cognome e convicção

Micróbio na minha pele
menina que a tudo diz não.

Resposta rápida,
mas com a mentira bem escondida debaixo do colchão
porque viu, desde cedo, que a palavra
é a única força que temos na mão.

Para a mentira pede licença
como já não pede para me invadir,
mas quero, quero sim, este meu tão único luar.

Não sendo de Maio, a Mariana é a rosa do meu quintal. É Mulher de Maio meu.

Para ela fica a reedição de um episódio que quase me cortou o ar.


"Estou mais exausta do que é costume. Fui a Santiago... tentei ainda acabar os textos de madrugada, mas não consegui todos ... tentei, mas não consegui acabar todos os textos que tinha em mente, nas minhas madrugadas.
Não tenho parado de tremer estes dias, de novo, outra vez assim!!! Cansaço, demais, cansaço.
Mas nada se compara ao que hoje senti ao chegar ao colégio.
15 min atrasada ... apanhámos um desastre na estrada, talvez numa estrada do sul ... Santiago, será?; houve que pedir uma ambulância ... eu, como sempre, com os minutos contados para chegar ao outro lado do espaço ... ao lado interior do Alentejo ... ao ponto de quase me apetecer deixar o homem na valeta; bêbado .... partiu um carro, mas parecia estar consciente ... os minutos contados ... aquele stress de não me atrasar ... de não pedir à Ângela; à Alexandra ... ou a outra qualquer, a quem mais poderia pedir??? Não, vou eu ... mesmo que com 15 min de atraso.
Chego, finalmente ... com os tais minutos de atraso ... a Mariana, onde está ... e a Tété que hoje vinha com ela cá para casa???? pátio ... não ... pavilhão de ginástica .... não estão .... entrada ... não ... quem as viu afinal??? há pouco estavam mesmo aqui ... mesmo há uns minutos atrás .... diziam. Um telefonema do Segurança do meu trabalho ... eu tinha ficado sem bateria num dos telemóveis para chatear .... uns minutos, uns quilómetros antes ...A senhora, onde está ... estou aqui no colégio ... porquê??? É que a sua filha está aqui no trabalho .... com uma amiga ...
Amaldiçoei possíveis transportadores imaginários que lhes tivesses dado boleia ... sem me avisar ....angústia, porque o telemóvel tinha ficado sem rede ... se calhar tentaram ligar esses "beneméritos" ... gaita e eu sem bateria .... porque me hei-se atrasar??? O homem na valeta??? Não, tu que não páras de te atrasar ....
Afinal não, elas foram lá ter ... as duas sozinhas ... lembraram-se assim de me fazer uma surpresa ...No trabalho, atravessando as circulares à cidade ...de mochilas às costas, ruas fora ... as duas...
Mãe não chegavas ... viemos fazer-te uma surpresa ... mãe .... atrasaste-te .... mãe estamos aqui, que pena não estares antes ... queria mostrar a tua sala à Tété
Eu ... sei ... lá ... tremuras ... pernas ... mãos ... coração ... revoltas ... e elas as duas sorridentes!!!Não parei ainda de ter vontade de chorar ... ela não saiu de castigo hoje ... nem um minuto ... mas o castigo merecia-o eu que me atrasei ... sei lá.... um homem quase morto na estrada ... mas quem se atrasou fui eu que sou mãe ... chorei ... choro ainda ... muito ... choro e se pudesse chorava mais ainda mais ... já não sou capaz de mais nada... apenas de dormir ... depois de uma vela acesa .... de uma Mariana aqui; felizmente aqui .... castigo, sim ... mas aqui.
Que eu já me castiguei a mim ....
Vou dormir com ela; pois ... quero-o sim ... para ver se sossego o choro ... se o acalmo ... que amanhã será outro dia. O que foi que fizeste Mariana? Mãe, atrasaste-te ... e eu quis fazer uma surpresa!!!
Senti-me tão sozinha ... vou dormir ... hoje não consigo esperar por nada mais ... só dormir ...Outro dia será amanhã ... mãe ... vamos dormir ... que bom é afinal, ouvi-lo!


Sim, vou tentar dormir sem pesadelos ... amanhã é outro dia e a Mariana está aqui hoje perto de mim!



E ela é a melhor coisa que a vida me pôde dar!

quarta-feira, outubro 8

PORQUE SOU REPUBLICANA?

PORQUE SOU REPUBLICANA?

Filomena Barata







Editado em:




Filomena Barata

PORQUE SOU REPUBLICANA?
Tendo-se comemorado o 104º ano da implantação da República, e porque lamentavelmente este já não é assinalado entre os feriados oficiais, mais me faz recordar os motivos porque sou efectivamente republicana.

Poderia resumi-lo assim: 
É muito simples: porque acredito que a Sabedoria; a Força e a Beleza não são hereditárias mas uma Construção. 
Todos nós podemos ser sábios, belos e fortes!

Não posso esquecer ainda que, para além de muitas outras questões em que, do meu ponto de vista, o novo regime permitiu a consolidação de valores universais como a Igualdade, Liberdade e Fraternidade, gostaria hoje de relembrar o fomento do ensino e da formação como um dos mais fortes investimentos feitos pela República, em prole da Cidadania e das Mulheres.

Mas o que, particularmente, desejo salientar é o papel que as mulheres desempenharam na implantação da I República e o que, posteriormente, puderam desempenhar, se bem que exigindo grande empenho e luta, pois muitas das medidas que preconizaram acabaram por não se concretizar totalmente, nomeadamente o Sufrágio Universal que algumas acalentaram como esperança na República.

Assim, servindo-me da obra «Mulheres e Republicanismo» passo a citar Ana de Castro Osório, fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas:

«Foi a mulher republicana quem educou muitos dos republicanos de hoje, foi a mulher que detestava a monarquia corrupta quem mais seguramente preparou este surdo estado de revolta, em que a sociedade portuguesa tem vivido …(…).

A revolta da mulher levou anos a explodir, mas nem por isso foi menos firme, nem por isso menos nociva ao velho estado de coisas.

Mas quando em Portugal a mulher, que é atavicamente modesta e presa a preconceitos, pôde reunir-se numa agremiação, como a nossa, ostensivamente política e de propaganda social, é que o regimen se devia ter considerado morto. Não era pelo mal que nós lhe podíamos fazer, mas era pelo que representava de sintomático para a monarquia em descalabro. Que eles avaliaram bem a força moral que a liga representava, prova-o o ódio que lhes votaram os reaccionários, o ridículo que sobre ela quiseram lançar, a guerra desleal e ignóbil que nos moveram individual e colectivamente. (…)

A República precisa de nós; não lhe regatearemos o nosso apoio. Defendamo-la dos seus inimigos, defendamo-la dela própria se alguma vez fraquejar no seu caminho rasgadamente progressivo e libertador.(…)
Não o esqueçamos! O povo português precisa de nós, que somos as suas mulheres, as mães dos cidadãos de amanhã, as educadoras, as companheiras livres numa sociedade libertada».

 “Eu (…) quero a República como libertação e felicidade para as mulheres, visto que a humanidade é composta dum só grupo de animais, indiferentemente masculinos ou femininos”.

Citação a partir de: Mulheres e Republicanismo (1908-1928), João Gomes Esteves


E repetiria eu, “a República ainda precisa de nós”.


Não me prenderei, portanto, aos inúmeros estudos felizmente já existentes e publicados sobre este tema a que, entre tantos outros investigadores, se têm dedicado acerrimamente Natividade Monteiro, quer com a sua obraMemórias de Maria Veleda, quer outros trabalhos desta especialista em Estudos sobre as Mulheres; de João Gomes Esteves com o seu notável trabalho sobre «Mulheres e republicanismo (1908-1928)» também entre muitos outros; ou de Maria Alice Samara; Isabel Baltazar, designadamente no trabalho «Operárias e Burguesas. As Mulheres no tempo da República», editado em Faces de Eva, nº19; de Isabel Losada de que destaco a obra Perfil de uma pioneira: Adelaide Cabete (1867-1935), Livros República, Associação Cedro/Fonte da Palavra, 2011 e cuja obra também se espelha no belíssimo blogue da autora Mulheres, Poesia, Literatura http://lousadaisabel.wordpress.com/
ou ainda o notável trabalho desenvolvido pelo Projecto Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a Mulher, uma unidade de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, bem como a sua revista, não esquecendo o trabalho de Zília Osório de Castro e mesmo o empenho de divulgação sistemático desenvolvido por Cristina Duarte de Duarte no seu blogue «Cidade das Mulheres»,http://acidadedasmulheres.blogspot.pt, mas tentarei fazer somente através da vida de algumas dessas mulheres o espelho do que representa para mim a República no feminino.

Num belíssimo artigo intitulado «Quando as feministas influenciaram o poder», publicado em 2010 no Jornal Público, datado de 27/08/2010, http://www.publico.pt/temas/jornal/quando--as-feministas-influenciaram--o-poder-19991625, a jornalistaSão José Almeida faz uma belíssima resenha sobre o papel da Mulher na transição do século XIX para o XX e ainda sobre os primeiros anos da República. Apoiar-me-ei nesse texto para, em conjunto com todos os trabalhos que tive a possibilidade de consultar acima referidos, poder manifestar o apreço pela luta dessas mulheres que contribuíram também, pelo seu exemplo, para que eu seja republicana.

Refere a autora do artigo mencionado que, em 18 de Maio de 1906, é criada a Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz em sessão realizada na Sociedade de Geografia, em Lisboa que consistiu na «Conferência sobre o Problema feminista, proferida por Olga de Morais Sarmento, feminista monárquica, que dirigiu esta associação ao lado de figuras como Emília Patacho, Domitília de Carvalho e Virgínia Quaresma.

Em Dezembro desse ano, nasce uma segunda associação feminista que ainda junta monárquicas e republicanas. (…) Reúne figuras como Magalhães de Lima, Alice Pestana, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Jeanne Paula Nogueira e Olga Morais Sarmento. E também Carolina Ângelo e Adelaide Cabete, que deixarão a organização em 1909.

Em 1907 é fundado o Grupo Português de Estudos Feministas, por Ana de Castro Osório, para doutrinar as mulheres. É ainda uma organização pacifista, mas já maçónica e republicana. No ano seguinte, o Grupo de Estudos dissipa-se e integra a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) fundada em 1909 e que dura até 1919. A Liga é apadrinhada por figuras maiores do Partido Republicano e do Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU): António José de Almeida, Bernardino Machado e Magalhães Lima, que será grão-mestre entre 1907 e 1928».

De cariz claramente republicano, a Liga empenha-se em defender a Lei do Divórcio, a revisão do Código Civil e Direito da Família e direitos sociais.

Fundada pelas quatro grandes feministas (Carolina Ângelo, Adelaide Cabete, Castro Osório e Maria Veleda), torna-se, como bem refere São José Almeida no seu artigo, a maior e mais influente organização feminista, acrescentando que a «sua abrangência manteve no seu seio tensões entre mulheres com concepções opostas sobre a questão religiosa e sobre o sufragismo. Essa tensão foi personalizada por Ana de Castro Osório, mais moderada, não revolucionária, sufragista, partidária do voto só para as mulheres da elite e seguidora da tolerância religiosa, e Maria Veleda, que defendia a revolução antes do 5 de Outubro, o voto igualitário e que era anticlerical».

Da vida de todas estas mulheres de condições socio-económicas diferentes; de profissões diferenciadas, ou mesmo com posicionamentos políticos que, por vezes, as acabaram por distanciar, saliento, contudo a comum determinação pelos ideais que abraçaram, a vontade de fazer vingar os direitos iguais e uma maior equidistância social, o papel que tiveram como professoras, formadoras, jornalistas, panfletárias, escritoras ou médicas.
Carolina Beatriz Ângelo afirmaria em 1911, em entrevista dada a O Tempo

"Reclamaria todas as medidas que considero necessárias para modificar a situação deprimente em que se encontra a mulher, (...) [entre elas] conseguir a igualdade de salários, quando a mulher produza tanto como o homem."

Notável é o exemplo de Carolina Beatriz Ângelo que desafiou o poder político sendo a primeira mulher a votar por se sentir nesse direito, pois era letrada e “chefe de família” por ser viúva.


Persistentemente não desistiu das dificuldades que lhe foram colocadas e acabou por conseguir exercer o direito ao voto na Assembleia Eleitoral de Arroios, a 28 de Maio de 1911.

Além de ser sido a única participar no escrutínio, salientou-se por ter sido também a única que defendeu o serviço militar obrigatório para as mulheres, defendendo que estas desempenhassem funções administrativas, enfermagem, em serviço de ambulâncias, nas cozinhas, entre outras.

Na sua carreira médica destaca-se o facto de ter sido a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, sob a direcção de Sabino Maria Teixeira Coelho. Exerceu funções como médica no Hospital de Rilhafoles, sob a orientação de Miguel Bombarda, e dedicou-se à Ginecologia.

Mas a atividade profissional de Beatriz Ângelo nunca deixou de se compaginar com uma intervenção política e social intensa e marcante, pois foi uma das principais activistas da sua época, defensora dos direitos das mulheres, da sua emancipação e do sufrágio feminino, tornando-se uma figura central no feminismo português ligado ao pensamento republicano que teve outras grandes referências como a médica ginecologista Adelaide Cabete (1867-1935); a escritora Ana Castro Osório (1872-1935) e a professora Maria Carolina Frederico Crispim (1871-1955), que ficou conhecida como Maria Veleda.

A vida desta última que, por contingências várias, foi de particular dificuldade é um exemplo de coragem e persistência e um exemplo para a República.

Sobre esta extraordinária mulher, afirma Maria José Franca:
«Há 104 anos, Maria Veleda já tinha começado a sua luta (desde 1905) em prol da República e dos ideais de «Liberdade, Igualdade, Fraternidade». Participou no «5 de outubro de 1910». Sofreu, chorou, também foi feliz. Viveu com intensidade todos os momentos da sua vida»

Empenhou-se pelo direito das mulheres ao sufrágio universal, efectuando petições, discursos e chefiando delegações junto dos Órgãos de Soberania.

Foi dirigente da " Liga Republicana das Mulheres Portuguesas", entre 1910 e 1915. Era anti -clericalista, o que lhe casou muitos dissabores, quer pela facção mais conservadora da Igreja, quer pelos adeptos da Monarquia e por se sentir próxima das classes mais desfavorecidas fazia palestras para as mulheres operárias.

Após a revolução republicana fez parte de um grupo chamado " Pró-Pátria" que percorreu o país em defesa do regime implantado.

Eu tinha uma ardente esperança no futuro; e a minha propaganda era iluminada pelo clarão abençoado na fé num mundo novo, liberto de injustiças – um mundo sobre que a Fraternidade desdobrasse o seu manto protector.” (na defesa dos ideais da República)

Maria Veleda, cit. in «Memórias de Maria Veleda» de Natividade Monteiro


Na fotografia:

Grupo das Treze, fundado por Maria Veleda, em Maio de 1911, para combater a superstição. Em 1.º plano, sentadas a partir da direita: Judite Pontes Rodrigues, Carolina Amado, Ernestina Pereira Santos, Lídia de Oliveira, Maria Veleda, Antónia Silva e Adelina Marreiros. Em 2.º plano, em pé: Honorata de Carvalho, Mariana Silva, Filipa de Oliveira, Berta Vilar Coelho, Lénia Loyo Pequito e Carolina Rocha da Silva. (Foto legendada por Natividade Monteiro in «Memórias de Maria Veleda»

Por sua vez, Adelaide Cabede, de origem bastante humilde e órfã começou a trabalhar muito nova na apanha da ameixa e trabalho de serviço doméstico em casas ricas de Elvas.
Tendo contraído matrimónio com o Sargento Manuel Fernandes Cabete, que era republicano, este torna-se uma figura central na sua vida, tendo-a lançado na militância republicana e feminista e a incentivado a estudar. E é em 1889, com vinte e dois anos que faz o exame da instrução primária tendo, em 1894, finalizado o curso liceal.

Em 1895, mudam-se para Lisboa, onde se matriculou no ano seguinte na Escola Médico-Cirúgica, concluindo o curso em 1900 com a tese dedicada à Protecção às Mulheres como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações, tornando acabado por ser obstetra e ginecologista.

Adelaide Cabede participou activamente na propaganda que antecedeu a mudança de regime em 5 de Outubro de 1910, escrevendo contra a Monarquia e os Jesuítas, sendo notórios os seus ideais republicanos, também aplicados no interior da Liga Republicana das Mulheres, a que esteve ligada.


Foi uma das principais feministas portuguesas do século XX e, durante mais de vinte anos, presidiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo reivindicado para as mulheres o direito a um mês de descanso antes do parto, e, em 1912, o direito ao voto feminino, sendo em 1933  a primeira e única mulher a votar, em Luanda, a Constituição Portuguesa. Desempenhou um notável papel como pacifista, abolicionista e humanista.

Mas não posso esquecer, tanto mais que a História não lhe deu tanta relevância, Alda Guerreiro, oriunda de uma família com tradição no campo das artes e letras (seu pai era pintor), nascida em Santiago do Cacém, em 1878. 
O seu ambiente familiar favoreceu o desenvolvimento de uma grande sensibilidade e espírito crítico social, tornando-se uma notável poetisa. 
A sua obra não foi ainda compilada e publicada em livro, encontrando-se, por isso, ainda dispersa por jornais e revistas da época, pese o trabalho que o historiador João Madeira lhe tem vindo a dedicar.
Alda Guerreiro que conviveu com a época de uma enorme agitação política, na sequência das lutas partidárias – desde o regicídio do rei D. Carlos, passando pela implantação da República até ao período conturbado que se seguiu - pertenceu à geração dos intelectuais do séc. XIX e, tal como eles, aderiu à causa republicana. O seu nome ficou também ligado ao ensino, tendo fundado inclusivamente uma escola primária em sua casa. Desempenhou assim um papel fundamental na educação, tendo-se pautado por reconhecer a necessidade de formação das mulheres e do ensino popular.
Republicana convicta, desenvolveu uma actividade notável como escritora, jornalista e pedagoga a bem dos valores que defendia.
E porque urge cumprir a República, partilho um dos seus poemas, terminando.


Lily Allen

Loading...

Que as ragas tragam ao dia o que a noite lhe roubou

Loading...
Loading...
Loading...

Bom Domingo

Loading...

oiça a Buika ... oiça bem

Loading...

e oiça também a Lila Downs

Loading...

i want you, but i don´t need you ...

Loading...