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sexta-feira, outubro 11

InComunidade «A Vinha e o Vinho»

      EDIÇÃO 15 - SETEMBRO 2013                                                                                                                                                          INÍCIO                SOBRE                CONTACTOS                     
Filomena Barata

A VINHA E O VINHO
Festa dies Veneremque vocat cantusque merumque.
[Ovídio, Amores 3.10.47]
(O dia de festa convida Vênus, o canto e o vinho.)

«Musgosas fontes, vós, e tu, ó relva
mais repousante que o melhor dos sonos,
e tu, ó verde arbusto que proteges,
que a vós protege com a breve sombra,
defendei o meu gado do calor
pois chega o Verão, tórrido tempo,
e já nas vinhas, nas tão tenras vinhas
incham rebentos».

Bucólicas, Virgílio

Como se fosse inebriada pelo efeito das Bacantes, festival que se realizava na Antiga Grécia, e de que há relato escrito desde o século V a.C., na célebre obra de Eurípedes, escrevo esta crónica, que com dificuldades várias. Este não será o texto que gostaria de vos oferecer, mas o meu testemunho sobre a história da vinha e do vinho, circunscrevendo-o, por dificuldades de índole informática, praticamente a um conjunto de referências sobre o tema.

Quis o destino que a concluísse no Atlântico Sul, em Angola, onde nasci e onde a vinha tem uma expressão diminuta, pese as tentativas feitas por portugueses em tempos remotos.
Mas, aqui como no resto do Mundo, o vinho português faz ainda hoje companhia às melhores iguarias gastronómicas que Angola tem.

É pois, do vinho e da vinha, esse bem precioso, que dizem as lendas da Antiguidade ser atributo dos deuses, que vos tentarei falar.

Já citado nas Sagradas Escrituras, conhecido entre Egípcios e Mesopotâmicos, para além dos aspectos comercial, medicinal e hedónico, o vinho assume, entre os Gregos, aspectos simbólicos muito relevantes relacionados com o culto a Dionísio ou Baco ou Líber, como referimos.

Existem lendas acerca da sua existência, a mais conhecida é aquela narrada na peça de Eurípides.

Assim, Dionísio, nascido em Naxos, seria filho de Zeus (Júpiter), o pai dos deuses, que vivia no Monte Olimpo em Thessaly e da mortal Sêmele, a filha de Cadmus, o rei de Tebas. Semele, que ainda no sexto mês de gravidez, morreu fulminada por um raio, proveniente da intensa luminosidade de Zeus. Dionísio foi salvo pelo pai que o retirou do ventre da mãe e o cozeu na própria coxa, onde foi mantido até ao final da gestação.

Dionísio confunde-se com vários outros deuses de várias civilizações, cujos cultos teriam origem há 9.000 anos. Originalmente era apenas o deus da vegetação e da fertilidade e gradualmente se foi tornando o deus do vinho, como Baco, deus originário da Lídia.

O vinho chegou ao sul da Itália através dos gregos, a partir de próximo de 800 a.C. No entanto, os etruscos, já viviam ao norte, na região da actual Toscana, e elaboravam vinhos, que comercializavam até na Gália e provavelmente na Borgonha. Não se sabe, no entanto se eles trouxeram as videiras de sua terra de origem, provavelmente da Ásia Menor ou da Fenícia, ou se cultivaram uvas nativas da Itália, onde já havia videiras desde a pré-história. Deste modo, não é possível dizer quem as usou primeiro para a elaboração de vinhos. A mais antiga ânfora de vinho encontrada na Itália é etrusca e data de 600 a.C.

O ponto crítico da história do vinho em Roma foi a vitória na longa guerra com o Império de Cartago no norte da África para controlar o Mediterrâneo Ocidental entre 264 e 146 a.C. Após as vitórias sobre o general Naibal e, a seguir, sobre os macedónios e os Sírios, houve mudanças importantes.

Os romanos começaram a investir na agricultura com seriedade e a vitivinicultura atingiu seu clímax», in “ Confraria do Vinho, Bento Aguinaldo Gonçalves”.

O vinho aparece associado a Liber Pater e sua divina esposa Libera, e gradualmente, estas duas divindades relacionadas com a fertilidade foram assimiladas por Dionysus/Bacus.

Mas a vinha também aparece relacionada com Saturno e a Priapo como nos refere Virgílio, em As Geórgicas, datada do Século I da nossa Era.

Tendo por base um excelente artigo de Citando Hernâni Matos,
«O Vinho na mitologia Greco-Latina», em:


podemos dizer que Dioniso ou Baco, filho de Zeus e da princesa Semele, era o deus grego das festas, do vinho, da fecundidade, do lazer e do prazer, símbolo do desejo e da libertação de qualquer inibição. Apresenta-se geralmente «como um jovem imberbe, risonho e de ar festivo, de longa cabeleira, pegando um cacho de uvas ou uma taça numa das mãos e empunhando na outra um tirso (bastão envolvido em hera e ramos de videira e encimado por uma pinha). Tem sido sugerido o carácter fálico do tirso, no qual a pinha seria o símbolo do sémen.

Dioniso é por vezes figurado com o corpo coberto por um manto de pele de leão ou de leopardo, com uma coroa de pâmpanos na cabeça e conduzindo um carro puxado por leões. Pode igualmente ser apresentado sentado num tonel, segurando numa das mais uma taça donde absorve a embriaguez que o faz cambalear.

Dioniso é normalmente representado na companhia de outros bebedores:

- Sileno – Tutor de Dioniso, companheiro fiel e o mais velho, sábio e beberrão dos seus seguidores, que embriagado tinha o poder da profecia. Representado quase sempre bêbado, amparado por sátiros ou carregado por um burro.

- Sátiros - divindades menores da natureza com aspecto humano, cabelos eriçados, com grande cauda e orelhas bicudas de bode, pequenos cornos na testa, narizes achatados, lábios grossos, barbas longas e órgãos sexuais de proporções sobre-humanas, frequentemente mostrados em estado de erecção. Viviam nos campos e nos bosques, onde tinham relações sexuais frequentes com as Ninfas e as Ménades, que a eles se juntavam no cortejo de Dioniso, além de copularem com mulheres e rapazes humanos, cabras e ovelhas. A embriaguez era a fonte inesgotável da sua perpétua jovialidade e lubricidade.

- Ménades (ou Bacantes) - mulheres apaixonadas por Dioniso e entregues com fervor ao seu culto. Levadas à loucura pelo deus do vinho, que provocava nelas um estado de êxtase absoluto, entregavam-se a desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e autoflagelação. Representadas nuas ou vestidas com véus ligeiros, coroadas de hera e segurando um tirso ou um cântaro, por vezes tocavam flauta de dois tubos ou tamboril e entregavam-se a uma dança livre e lasciva (orgia ou menadismo), em total concordância com as forças mais primitivas da natureza. Vagueavam por montanhas e campinas e entregavam-se aos sátiros que também integravam o cortejo de Dioniso.

- Ninfas – jovens mulheres que povoavam o campo, os bosques e as águas. São os espíritos dos campos e da natureza em geral, de que personificam a fecundidade e a graça. Apesar de serem consideradas divindades secundárias, a elas se dirigiam orações e por elas se nutria temor. Eram frequentemente alvo da luxúria dos sátiros (...)

Os festivais realizados em homenagem do deus eram basicamente festas da Primavera e do vinho. As danças frenéticas a que se entregavam as mulheres, davam-lhes uma sensação de liberdade e força, sendo-lhes atribuídos actos impressionantes como desenraizar árvores (...) Os Gregos consideraram este culto nocivo e muitos governantes das cidades-estado procuraram proscrevê-lo.
Em 370 a.C., o culto a Dioniso (Baco) penetrou em Roma e tinha sacerdotisas conhecidas por bacantes. As festas, de natureza ritual, em homenagem ao deus Baco, conhecidas por bacanais eram nocturnas, secretas e frequentadas exclusivamente por mulheres durante três dias no ano (...). Ao invadirem as ruas de Roma, dançando, soltando gritos estridentes e atraindo adeptos do sexo oposto em número crescente, os bacanais tornaram-se factor de desordem e de escândalo, o que levou à publicação de um decreto por parte do Senado, em 186 a.C., proibindo as bacanais em toda a Itália. Contudo, mesmo com a proibição, o culto não desapareceu naquele tempo».

Ao que nos refere a Mitologia, Saturno, deus das Sementeiras e dos Grãos, parece ter sido o responsável por ter ensinado aos habitantes da Itália a cultura da vinha e, por isso, a divindade é representada com a foice do ceifeiro e a podoa do vinhateiro.

Os Antigos viam na vinha e em Dionísio - deus do vinho, rodeado por um conjunto de divindades alegres e ébrias - a imagem simbólica da força da natureza cheia de seiva. Baco é a divindade romana que herda dos Gregos a protecção do Vinho e da Vinha, mas também do Deboche e da Licenciosidade que lhes aparecem associadas.

Segundo informação de Plínio-o-Velho 23 d.C. a 25 de agosto de 79 d.C., o pintor grego Zeuxis ou Zeuxippos (464 a.C. - 398 a.C), natural de Heráclea, mas que viveu grande parte da sua vida em Atenas, considerado um dos principais pintores da Grécia Antiga terá disputado com outro pintor, Parraso.

Assim nos relata Plínio «Para a disputa, Zeuxis pintou um cacho de uvas. Quando mostrou o quadro, dois passarinhos imediatamente tentaram bicar as frutas. Zeuxis então pediu que Parraso desembrulhasse seu quadro. Este então revelou que na verdade era a pintura que simulava a embalagem do quadro. Zeuxis imediatamente reconheceu a superioridade de Parraso, pois se tinha enganado os olhos dos passarinhos, este tinha enganado os olhos de um artista». (Plínio, o Velho, História Natural, Livro XXXV, IV).

Diz-nos ainda o poeta romano Virgílio, nas suas Geórgicas «Mas, antes de tudo, venera os deuses e oferece à magna Ceres os sacrifícios anuais devidos, celebrando-os nos prados ridentes, quando o inverno chegou ao seu termo e a primavera serena já se anuncia. Nessa ocasião, estão nédios os cordeiros e os vinhos têm o melhor sabor».

Segundo Estrabão, que viveu entre os séculos I a.C e I d.C., grande parte da costa mediterrânica e atlântica estava coberta de arvoredo, oliveira, vinha, figueira e a região entre o Tejo e o Cantábrico «era rica em frutos e gado» (3,3,5). Plínio, por sua vez, informa-nos sobre a qualidade da vide «coccolobis» na Hispânia, cujo vinho «sobe à cabeça» e que existem duas variedades, uma de bago alargado e outra de bago redondo. «Dizem que beber vinho destas uvas é um bom remédio para as "dolencias de vejida"» (Plínio, XIV, 29-30). Informa ainda que quando da vitória de César sobre a Hispânia «consta que pela primeira vez se beberam quatro qualidades de vinho» Plínio, XIV, 97

Talvez porque o culto das divindades relacionadas com o Vinho tenha tido em Roma grande expansão, é comum que este apareça vulgarmente representado na iconografia.

No Museu Nacional de Arqueologia existem vários bustos de Diónisio ou Baco, com o cabelo ornado de uma grinalda de cachos de uvas e parras, provenientes respectivamente da villa romana de Milreu, datável do século II, e de Mértola (MATOS, 1995: 5659). Mas ainda podemos referir o belo «sarcófago da vindima», proveniente de Castanheira do Ribatejo, que tem forma de cuba de vinificação, onde o retrato de uma jovem, inscrito num medalhão, se centra na peça.

O medalhão está assente sobre um vaso com duas asas, de onde saem ramos de oliveira, parras e cachos de uvas e, entre as ramagens, aparecem pequenos cupidos, cestas de vindima, aves e animais campestres, como coelhos, cobras, escorpiões, lagartos, caracóis e gafanhotos. Os temas báquicos eram muito comuns na decoração das lucernas ou candeias romanas, como se pode verificar, apenas a título de exemplo, nos exemplares provenientes de Balsa, datáveis dos séculos I e II e em Santa Bárbara de Padrões, Castro Verde. Deste último local provêm duas lucernas com a representação de Sileno.

Recordo ainda que existem vários exemplares de mosaicos com cenas báquicas, como é o caso de um, proveniente de Egitania e ainda um outro, de Torre de Palma, que é considerado uma obra de arte de referência entre os mosaicos dionisíacos na Lusitânia (Lancha, 2000, 197-205).

Como acima referia, são inúmeras, as referências ao vinho nos escritores da Antiguidade, a exemplo de Estrabão que nos diz, «Da Turdetânia exporta-se trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não só em quantidade, como de qualidade insuperável», bem como cera, mel, pez,(Estrabão III, 2, 613).

São estas as palavras de Virgílio n' «As Geórgicas»: "Deitai-vos pois ao trabalho, ó lavradores, e aprendei a arte de cultivar de modo apropriado, amansando à fora do engenho, os frutos bravios. Não deixeis as terras maninhas: é obra deleitosa plantar vinhas no Ismaro e vestir de oliveiras o grande Taburno». (Sá da Costa: p. 63).

E ainda mais: "As oliveiras respondem melhor à esperança do agricultor quando provêm de tanchoeiras, as vinhas quando procedem de alporques, a murta de Pafos quando se planta um tronco inteiro".

Segundo este autor latino «Terra que exala um vapor ténue e neblinas fugazes, que absorve a humidade, mas, quando quer, a lança para fora de si; terra que sempre verdejante, se reveste de ervagem que ela própria cria, que não ataca o ferro com sal ou ferrugem, eis a que te convém para entretecer com os olmos as ridentes videiras; será, também fértil para a oliveira: amanha-a bem, e verás como é propícia para os gados, e como é dócil para a curva relha» (Sá da Costa, 1948: 75).

«A árvore que nasceu de sementeira cresce lentamente; não dará sombra senão aos nossos netos remotos. Os frutos degeneram, esquecem os primitivos sucos; a vinha, essa acaba por só dar míseros cachos que se deixam ás aves. Assim, a todas as árvores se tem que dispensar cuidados; todas se tem de alinhar em valas e de tratar sem fugir a despesas. As oliveiras respondem melhor à esperança do agricultor quando provêm de tanchoeiras, as vinhas quando se planta um tronco inteiro» (Sá da Costa, 1948: 75, ver ainda pp: 67; 73, 79; 81)».

Proveniente da Villa Romana de Vale de Mouro é um mosaico de Baco, um tema com pouco exemplares em território nacional, que foi encontrado num pequeno compartimento de planta quadrangular com cerca de 9 metros quadrados.

Ali, Dionísio (o romano Baco) é representado, «ostentando os seus atributos clássicos: um triso (thyrsus) na mão esquerda, um Kantharus na mão direita, uma coroa de cachos de uva na cabeça. Conduz um carro de duas rodas, parcialmente conservado no mosaico, puxado por dois leopardos, dos quais apenas se conserva parte de um. À esquerda do Deus, uma figura feminina, uma ménade ou bacante, completa a representação iconográfica».
Ver: 
http://www.cm-meda.pt/turismo/Paginas/SitioArqueologicodeValeMouros.aspx#.UgJhbtLFWzk

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