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segunda-feira, junho 17

Solstício de Verão




«(…)
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com a tua vida e o teu divino fado.

(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico.
Eu a julgar-te até católico
E sais-me maçom.»


Fernando Pessoa.

In Jorge de Matos, O Pensamento Maçónico de Fernando Pessoa, p.101





Tinha passado toda a noite
ele mesmo se sentia perdido
diante dessa presença sem palavras
que lança trevas nos símbolos
e torna os argumentos
insustentáveis

é possível que resida nisto
sua parte mais importante
a partir deste ponto desaparece


José Tolentino Mendonça, Baldios, cit in Diário 2008, Assírio &Alvim




O Solstício de Verão marca o apogeu do percurso solar, como o Sol no zénite, no ponto mais alto do céu. Trata-se do dia da festa do Sol.

Dá-se a entrada do Sol no signo de Caranguejo.

O nascimento de S. João Baptista, a 24 de Junho, assinala, no mundo cristão, o solstício de Verão, enquanto o de Cristo corresponde ao solstício de Inverno. "Na tradição hindu, o solstício de Inverno abre a devayana, a via dos deuses, o solstício estival abre a otriyana, a via dos antepassados, que corresponde (...) às portas dos deuses e dos homens» (Chevalier, et alii, Diccionário dos Símbolos).


As festas de S. João são celebradas entre várias religiões e mesmo entre várias organizações iniciáticas, pois, para além da sua associação à água e ao Baptismo é também simbolicamente conotado com o fogo,  e o Sol, porque é através dele que tudo se vivifica, se reinicia um ciclo, integrando o anterior, mas passado pelas chamas purificadoras e regeneradoras.

São estas as palavras de São João Evangelista:  


“No começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava, no começo, com Deus. Tudo era feito por ele e, sem ele, nada se fez de tudo o que foi feito. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas, e as trevas não o receberam.”



É demais evidente através das suas palavras a ideia de uma passagem do Mundo das Trevas ao Mundo da Luz, motivo pelo que ainda nas festas populares também se salta à fogueira, queimando ervas de cheiro purificadoras.


O Fogo, esse Elemento que permitiu ao Homem evoluir enquanto espécie, fonte de energia que faz brotar a vida, renascendo diariamente, é considerado Sagrado desde a Antiguidade Remota e, quer na Antiga Grécia, quer em Roma,  guardado e transportado para as novas fundações, motivo pelo que, ainda hoje, os Jogos Olímpicos se iniciam com a entrega da tocha acesa. Os Solstícios que ocorrem quer no Inverno, quer no Verão, marcam mudanças fundamentais: são novos ciclos, tornando-se com cada um deles os dias mais longos e mais curtos, abrindo o Solstício der Inverno uma fase ascendente e o de Verão uma fase descendente.

Para as primeiras sociedades , a época das colheitas era  celebrada no dia mais longo do ano - O Solstício de verão, pois a sobrevivência durante o período invernal delas. Por seu lado, o Solstício de Inverno marcava a viragem para uma época de maior calor. Em Roma, os dois Solstícios são figurados através das duas faces de Janus, divindade das passagens, dos princípios e dos fins: uma face era de um jovem, símbolo do Futuro, e a outra a de um velho, símbolo do Passado e do ano que se prepara para o terminus a partir do Verão. Uma das faces dirige-se para a Luz e outra olha as Trevas, motivo pelo que a divindade era celebrada duas vezes por ano.

Não admira, portanto, que João, embora nascido em Israel, tenha também essa feição do romano Janus, que aqui se espelha em S. João Envangelista e em S. João Baptista.




E porque se aproxima o Solstício de Verão, o maior dia do ano, vou ver a luz serenamente poisar, pois a Lusitânia é, na Europa, o sítio onde ele se deitará mais tarde, não sei se rugindo como diziam os autores clássicos a propósito do Promontório Sagrado!





De acordo com certas variações do calendário grego – que diferiam amplamente por região e época – o solstício de verão era considerado o primeiro dia do ano. 
Vários festivais se realizavam nessa altura, designadamente o Cronia, que celebrava o deus da agricultura Cronos. 
O rigoroso código social era temporariamente suspenso durante o período de duração do Cronia, e até os escravos podiam participar das festividades em total igualdade, ou mesmo sendo servidos por seus senhores. O solstício de verão também marcava o início da contagem regressiva de um mês para o início dos jogos olímpicos.

Os Romanos nos dias que precediam o solstício de verão celebravam o festival de Vestália, que honrava Vesta, a deusa da família (conjuntamente com Juno zelava pelo casamento) e que protegia as mulheres e a virgindade. Os rituais incluíam o sacrifício de um bezerro não nascido retirado, portanto. do útero de sua mãe. Esta era a única altura do ano em que era permitido às mulheres casadas entrar no templo das virgens vestais que guardavam a chama sagrada e lá fazer suas oferendas.

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