Bom renascer, bom borrego sagrado servido à mesa.
Ou imaginado, para quem o não puder provar.
Restos tragados em dia de Pascoela, em barragens ou rios para bem sagrar.
Bons ovos da Páscoa, esses símbolos genésicos, para tudo conter.
O ovo cósmico que, identificando-se com o Andrógino, representando a plenitude da unidade fundamental e genésica, onde se confundem os opostos.
Círculo que contém o princípio e o fim.
Seja génese do Mundo fecundado pelo Sol, ou criação das águas primordiais que, ao separar-se, origina o Céu e a Terra. É através da partição, da divisão do ovo, desse círculo inicial, e do Andrógino primordial, que cosmicamente se cria, ou se diferencia a noite e o dia, o macho e a fêmea.
Por isso, para agraciar os Lares, era comum em Roma enterrarem-se ovos ou taças com ossos de aves, cuja significação, na essência, era a mesma.
Nos seus elementos decorativos, sagravam os Latinos esse ovo matricial.
Friso-cornija: Museu Monográfico de Conimbriga
Já Platão na sua obra «Banquete» relembra o mito do Andrógino, afirmando que o Homem original tinha a forma esférica, integrando os dois corpos e os dois sexos. São estas as suas palavras:
«... naquele tempo, o andrógino era um género distinto que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea».
O ovo da Páscoa contendo assim tudo: a Primavera com tudo a nascer! É o Ovo Filosófico, "germe da vida espiritual".
A própria Bíblia, segundo o Génesis, ao assumir que Eva foi tirada de uma costela de Adão aceita que, na origem, todo o humano era indiferenciado e que o nascimento de Eva mais não teria sido do que a cisão do Andrógino primordial em dois seres: macho e fêmea. O retorno ao estado primordial, à unicidade primeira, em que se inclui a ideia de fusão do divino e humano, é para a maioria das religiões o grande objectivo da vida.
E recordo com saudades que, no Alentejo, no dias seguinte ao Renascer ainda se comem os restos do Borrego, junto à água, fazendo-se libações até ao sol pôr.
Assam-se silarcas e cantam-se modas aquecidas com vinho acre.
Quem me dera a Graça do Divor, mas contigo pela mão, pois dela não me sei separar, tal Andrógino inicial ...
Mas até lá ainda há que as provações passar, porque hoje qinda é Quinta, véspera do dia em que se cerram as portas apenas para pensar.
E lembro ainda velhos textos escritos para a Revista Setúbal na Rede, em 2015:
Aproveito este espaço que me é dado, para, em primeiro
lugar, desejar a todos vós uma BOA PÁSCOA, neste período em que a vida renasce.
Agora que no Alentejo se prepara a Pascoela,
esse dia em que junto aos ribeiros ou barragens se reúnem ainda as famílias
para comer os restos do borrego pascal, celebrando as fontes de vida, como a
água e o sacrifício depurador do animal, é época para tentarmos também dentro
de nós fazer renascer um sentido de vida melhor, numa época em que diariamente
a crise nos testa.
Esse mesmo cordeiro pascal, imolado na Bíblia,
e que segundo na Mitologia Clássica era reportado a Ganimedes, que era
guardador de rebanhos nas montanhas de Tróia quando o pai dos deuses Zeus, em
pessoa ou em forma de águia, o raptou ou levou para o Olimpo, onde passou a
desempenhar o papel de escanção do néctar dos deuses, o vinho. Também o vinho,
a par do borrego e do pão faz parte da ceia pascal, pois dessa refeição sagrada fazem parte o borrego,
significando aqui o próprio Jesus, o vinho e o pão, o seu sangue e o seu corpo.
Esse borrego que o Cristianismo consagrou como
alimento divino e que, para além de fornecer a lã que pasmará os romanos em Salacia (Alcácer do Sal), quase
substituiu o porco alimentado a bolota, no período islâmico, é ainda um dos
alimentos mais presentes na dieta alimentar do Alentejo.
Poucos dias passaram do Equinócio, essa
palavra latina que aglutina dois termos
Aequus, que significa "igual"
e "nox", noite.
Isto é, inaugura-se a Primavera,
altura que a noite e o dia passam a ter
sensivelmente a mesma duração.
O Equinócio ou a chegada da Primavera é um momento celebrado em todo o mundo, desde tempos imemoriais, exaltando-se a natureza e a abundância, sendo-lhe
dedicados festivais ao longo dos séculos.
A Cerealia
era exactamente uma festividade em honra de Ceres, deusa das colheitas, que
os romanos enquadravam no período da regeneração
do equinócio da
Primavera, simbolizando o renascer da Natureza
e a chegada período de fertilidade. A sua
importância ao longo do tempo tornou-se bastante
visível, acabando por esta festividade ser adoptada pelos cristãos,
coincidindo com o período que vivemos, ou sejam da Páscoa.
Ao que diz a Mitologia, Prosérpina, filha de
Ceres e de Júpiter, era uma das mais
belas deusas de Roma e, enquanto
Prosérpina apanhava flores no campo, surgiu
Plutão que a rapta e a leva para as profundezas da Terra,
tornando-a sua esposa.
Ceres, sua mãe, procura-a desesperadamente, mas,
no entanto, porque ela havia comido
sementes de romã, acabou por ficar
definitivamente cativa, e foi mantida debaixo
e terra durante seis meses, até à Primavera,
época de fertilidade e colheita, quando
ela renasce e regressa para junto da mãe até ao fim
do verão.
Durante a Cerealia, eram famosos os jogos de
Ceres (ludi cereales), que consistiam na procura de Prosérpina e eram
representados por mulheres de branco que
corriam com tochas acesas. Os jogos apresentavam
atividades variadas nas quais os cidadãos poderiam participar.
Relacionados com a Páscoa cristã estão vários
símbolos, desde o cordeiro pascal, a outros símbolos de filiação distante, como
são o coelho e os ovos.
O coelho é um
símbolo da fertilidade pela sua enorme capacidade de reprodução. Tal como a
ideia da Páscoa é vida, ressurreição, é renascimento.
Já em período
romano são conhecidas inúmeras referências a essa sua capacidade, ao ponto de
ser considerada uma praga, como nos refere Plínio, « ... Ao género
das lebres pertencem também os animais a que na Hispânia se chamam «cunuculi»,
de fecundidade inesgotável (...) Plínio, N.H., VIII, 217 ou mesmo Estrabão que
se refere às como «animais daninhos» :
«Estes animais, como se alimentam de raízes, destroem plantas e sementes».
(...) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções
habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de
ratos campestres» Estr. III, 2, 69.
Os
ovos, (ou óvulos) representam o nascimento, a fecundidade ou a força genésica
primordial, portanto, a própria ideia da vida, da eternidade ou da ressurreição, acabam por
pertencer a um dos mais comuns motivos decorativos quer de bens de utilidade
doméstica quer de elementos arquitectónicos: frisos; capitéis.
Ao que se sabe
já era comum presentear as pessoas com ovos ornamentados na Antiguidade.
Os egípcios e
persas costumavam tingir ovos com as cores primaveris e os davam a seus amigos.
Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante, tal como na
Mitologia Clássica onde se considera que o Universo surgiu a partir de um ovo Cósmico
semelhante ao de um pássaro.
Ao que se sabe, os primitivos
cristãos da Mesopotâmia foram os primeiros a usar ovos coloridos na Páscoa,
representando a alegria da ressurreição.
Na Grã-Bretanha, costumava-se
escrever mensagens e datas nos ovos dados aos amigos e em muitos países
europeus, os ovos são oferecidos às crianças como presentes de Páscoa. Também
eram decorados ovos ocos na Arménia com retratos de Cristo, da Virgem Maria e
de outras imagens religiosas.
Mas muitos
outros povos, como os chineses, os indus, finlandeses, japoneses, índios
americanos, e mesmo povos africanos têm a sua cosmogonia derivada do ovo, a que
se associa a ideia de fertilidade, nascimento e ressurreição, como se pode
confirmar nos tradicionais ovos de Páscoa.
Por sua vez
as aves e pássaros são considerados mensageiros dos deuses ou símbolo de
verdades ocultas só ao alcance dos iniciados, motivo pelo que o deus dos
viajantes, Mercúrio, na mitologia romana,(associado ao deus Grego Hermes)tem um
capacete e pés alados. Esta divindade era mensageiro de Júpiter e deus da
venda, lucro e comércio, pelo que é notória a associação do seu nome à palavra
Mercadoria ("merx"), mas também dos ladrões. É também a
personificação da eloquência e da inteligência. O planeta Mercúrio deve-lhe o
nome muito possivelmente porque se move como a divindade rapidamente no céu.
Também
entre os Gregos, da Noite, esfera imensa e oca, separam-se, como o desabrochar
de um ovo, duas metades: O Céu e a Terra (Urano e Geia), de cuja união nascem
os Titãs.
O mito do Andrógino, ou signo de totalidade inicial, é muitas
vezes concebido como ovo cósmico, representa a plenitude da unidade fundamental
e primordial onde se confundem os opostos, círculo que contém o princípio e o
fim.
E é por esse motivo que há o hábito de oferecer ovos na Páscoa ou de os
colocar sobre os bolos confeccionados nesta altura, pois a Primavera e o
Equinócio são esse ciclo do RENASCER.
Fragmento escultórico em estuque com friso de óvulos. Conimbriga
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Nas fotografias:
1 - No mosaico emeritense que
se encontra actualmente a ser restaurado pelo Museo Nacional de Arte Romano
está representado um coelho.
2 – Capitel com decoração
com óvulos.
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