segunda-feira, maio 19

Os presentes de anos que escolhi

E, contudo, nem sempre é fácil resistir!

Arruma tudo o que puderes, com mais um ano a findar.

E depois oferece-te uma flor, nem que seja a mais simples da tua horta!
Gosto ·  · Promover · 

Tabuleiro feito pela minha irmã






Um brinde no Museu de Arqueologia
No Museu Nacional de Arqueologia. Claro que tinhaque ir dizer olá em Dia de Museus.

  1. Parabéns Dª Filomena Barata !
    Muitas ,Muitas Felicidades e que se repitam por muitos ,muitos mais ...Ergam-se os copos e Tchim ,Tchim ,Salute ,Salute ,Salute !! 
    Enormes Beijocas em meu nome e em nome do nosso Club Kamba .
    Aquela Rádº/Tv FANTÁSTICOS !
    Ora vejamos  
    — a ouvir R/Tv FM KAMBA - Club Kwanza Sul.

  1. Já não se fazem pessoas de fibra, resistentes a tudo...Amo aquilo que faço, mas quando olho para alguns exemplares de "Arqueólogos", questiono-me porque continuo a luta! Mas são pessoas como tu que inspiram pessoas como eu, a seguir em frente, de colherim na mão. Por isso, obg por fazeres parte da minha vida, por teres criado o Portugal Romano (com outras pessoas encantadoras ;)), pelas lições que nos dás, da maneira mais simples e que CHEGA a todos.
    Tudo isto para te desejar um dia muito feliz, cheio de luz, alegria e paz, mas não guardes ainda o colherim...PARABÉNS Filomena Barata.....Para ti, Maat 

quinta-feira, abril 24

O Meu testemunho II

F.B.

http://www.incomunidade.com/v22/art12.php?art=12


      EDIÇÃO 22 - ABRIL 2014                                                                                                                                                          INÍCIO                SOBRE                CONTACTOS                     
Filomena Barata



Lisboa, Abril de 2014 (adaptado e actualizado a partir de «Folhas soltas: O Meu Testemunho», in: http://aeppea.wordpress.com/filomena-barata-folhas-soltas-o-meu-testemunho/  e http://www.bubok.pt/livros/4585/Folhas-Soltas--O-meu-testemunho)

Tentei pensar muito fundamentalmente no que representava o 25 de Abril para mim, e julgo que para tantos que o viveram como eu em Angola, país onde nasci. 
Não é fácil, creiam, pois se pudesse assim resumiria que ainda hoje me debato entre a perda da infância e adolescência e a crença, ou seja, os valores em que acredito. Refiro-me à crença profunda na Democracia e numa sociedade mais justa, algo que ainda está por atingir, em Angola e em Portugal.


Gostaria de poder partilhar convosco de experiências anti-regime, mas era tão jovem, pese a consciência já não estar adormecida.
Em surdina ouvira falar da adesão do meu pai ao Humberto Delgado, que distribuíra panfletos, um ano após o meu nascimento, pois a sua candidatura havia mobilizado a oposição em Angola. Apenas sei que, segundo um belíssimo blogue que encontrei sobre o tema, na Província do Congo, em Angola, votaram 100 brancos pela causa, num conjunto em que 2.189 pessoas votaram Américo Tomás.

De referir que, tal como em Portugal, o universo dos recenseáveis era pequeno, pois exigia-se a condição de saber ler e escrever, excluindo assim, quase toda a população negra, motivo pelo que, diga-se que razoavelmente, para essa população, as eleições, eles eram considerados pelos nacionalistas negros de «brancos para brancos». Em Angola, já em 1960, foram referenciados apenas 37.873 pessoas, do Grupo de negros e mestiços, recenseados.
No momento das eleições de Humberto Delgado, na totalidade, o Universo de recenseados foi apenas de 56.298 pessoas, sendo o número de votantes de 32.654 pessoas. O resultado foi de 22.294 votantes em Américo Tomás e 10.360 em Humberto Delgado.

Contudo, à época, em Angola, só Portugueses deveria haver aproximadamente 200.000 residentes e claro está, que nem todos tinham idade de votar.

Mas goradas as expectativas que alguns acalentavam, desejando mudanças, pois acreditava-se que com a sua vitória traria maior autonomia e desenvolvimento para as “colónias”, embora o seu programa pouco mais protagonizasse nessa matéria do que «actualizar praticamente a integridade tradicional ultramarina, cujos fundamentos são: a unidade espiritual, política e económica da população portuguesa de aquém e além-mar, e a igualdade de direitos de todos os seus constituintes», pouco acrescentando no que se refere ao relacionamento com o mundo colonial, para além do que respeita à sentida falta de política para os vários territórios portugueses, à ausência de um plano de fomento e autonomia, baseado nas potencialidades energéticas, técnicas, demográficas e económicas sem o que, era impossível estruturar solidamente a unidade nacional dos territórios portugueses”, usando as palavras do autor do blogue. Humberto Delgado - As eleições de 1958 em Angola e no Quitexe.

Certamente pelo que aconteceu em Portugal, com a vitória esmagadora de Américo Tomás e o malogrado destino de Humberto Delgado, silenciados ficaram os anseios de alguns dos que acreditaram que algo poderia melhorar sem recurso à guerra. Mas o Governo Central, sediado em Lisboa, manteve-se alheio aos sinais do mundo, designadamente em Goa, e nem a pressão das elites dominantes em Angola, no sentido de tentar uma maior autonomização das colónias não conduziu a qualquer resultado.
E assim, logo em 1961, começa a luta armada pela Independência, a partir do ataque frustrado do Movimento Popular para Libertação de Angola (MPLA), de orientação marxista, a três prisões de Luanda, na tentativa de libertar líderes nacionalistas. Entretanto, em 1962, diferenças culturais e políticas dividem o movimento pela Independência, dando origem a que Rebeldes do Norte formem a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), anticomunista. Foi exactamente na zona onde fora concebida, hoje N’Zeto, outrora Ambrizete, a guerra contra a potência colonial rebentou nesse mesmo ano, deixando desprevenidas as populações brancas que lá viviam, a tal ponto, que recordo as noites de recolher obrigatório, em que homens guardavam em armazéns mulheres e crianças, as armas que conheciam eram das usadas na caça.
Foi depois dessa altura que os meus pais se deslocaram para Malanje, onde vivi toda a minha adolescência, cidade planáltica e onde da guerra pouco se ouvia falar, à excepção das que os soldados regressados do mato acabavam por contar.

Poderia tentar contar-vos que a minha adolescência tinha sido passada entre jogos de aprendiz de menina e de mulher, pois Angola deixei  já com 17 anos feitos e que oiço ainda, por vezes, os sons da infância! Barimbaus, batuques, marimbas e noites de rebita, semeando-se no ar. Ou o barulho das imensas quedas de água do Duque de Bragança, hoje Kalandula, das Quedas do Kuanza ou dos Fortins da Rainha Ginga. Mas não, não é este o lugar e nunca correria o risco de dizer que por lá, por aquelas partes do Império, o mundo estava bem. E não, nem tudo estava bem, todos o sabemos!

Em Angola, sabíamos também, embora o palco de guerra fosse no mato e tantos o quisessem ignorar, que desde 1961, a morte podia ali, nas mãos de angolanos revoltados com a situação colonial, nos movimentos já organizados e em luta contra os Portugueses.

E foi em Malanje, nessa cidade aberta e vivida mais na rua do que em casa, que já adolescente, tive a sorte de conhecer um jovem militar que jamais esquecerei, mas que a vida infelizmente ainda não me permitiu reencontrar, o António Martinho, que me ajudou a canalizar a revolta que sentia adolescente, quando via camiões cheios de homens contratados e que, como gado, atravessavam empilhados a cidade. Eram conduzidos para as Grandes Fazendas da Baixa do Kazange, onde o algodão em grandes extensões fazia lembrar a neve a muitos, uma realidade muito dura para quem era quase pertença dos fazendeiros.

Ele ensinou-me que em Portugal havia, na clandestinidade, pessoas que se opunham ao regime e chamou-me a atenção, de uma forma mais sistematizada do que a forma intuitiva como já me revoltava, para os soldados, tão jovens como ele, que iam para África combater. Aprendi ainda o que era a revista «Seara Nova», o movimento de «Largo do Rato» e despertou-me para as lutas travadas nas Universidades em que participara, nomeadamente no Instituto Superior Técnico. Aprendi assim também o que queria dizer falar de convicções!

E ainda hoje recordo as vezes que com ele ouvi «O Soldadinho não volta do outro lado do mar».

Falou-me da sua experiência no "mato", em Zala, no Norte de Angola, e que havia muita gente a morrer para que a paz morna dos meios urbanos se mantivesse e para que pudesse florescer a riquíssima arquitectura moderna que enxameou as "restingas litorais" de Angola ou dos fabulosos edifícios e espaços públicos de lazer com que me habituei a conviver desde menina, como cinemas, piscinas e tantos outros lugares.

O que me foi contado era de arrepiar de tal forma, que nos fazia pensar se seria efectivamente assim ou não, pois homens fechados em acampamentos militares eram entregues ao que o medo e a guerra conseguem fazer.

Mas de tal forma devia ser a violência do vivido, que cheguei a conhecer soldados, que de tal modo, alucinados pela prolongada estada no "mato", passeavam camaleões a quem davam estatuto de confidentes e companheiros de infortúnio. Um deles que tão bem conheci acabou por suicidar-se um dia, porque não aguentou as memórias da guerra e a ausência de cartas da namorada que havia deixado na "Metrópole" e que o acabara por esquecer.

Com essa idade aprendi tanto, que me julguei quase mulher. Aprendi o que era a guerra, mas soube também o que queria dizer o amor; o que era perder pessoas e ganhar outras mais.

Um dia, célebre dia de 24 de Abril de 1974, uma amiga, um pouco mais velha e também atenta às notícias de Portugal, desceu a minha a rua apitando e gritando: houve um golpe de Estado! Lembro-me de ter saltado de alegria, ainda sem saber o que tinha acontecido.

Mas acreditei, não me perguntem porquê, que algo de bom ia passar-se. Sei que festejámos, mesmo assim sem saber bem porquê.

Mas, um outro dia, nem um ano depois da festa que todos julgámos poder também pertencer-nos, a guerra bateu-nos mesmo à porta, pois nem os Acordos de Alvor que o governo português promovera, em Janeiro de 1975, abrindo negociações com os três principais movimentos de libertação (MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola e UNITA – União Nacional para a Independência Total de Angola), que visava criar um governo de transição e o processo de implantação de um regime democrático em Angola (Acordos de Alvor, 31 de Janeiro de 1975) lhe puderam valer. Em Fevereiro de 1975 iniciaram-se os ataques, a guerra, em Luanda, onde na altura me encontrava a estudar com a minha irmã. E em Fevereiro o MPLA iniciou a luta contra os outros movimentos e, em meados de Julho, já tinha conseguido expulsar a UNITA e a FNLA de Luanda.

Revoltavam-se assim agora irmãos, uns contra os outros. Todos desavindos. E aquilo que se rebelara contra a guerra colonial, tornava-se agora, infelizmente, numa espécie de vingança étnica, claro que com conotações políticas, tendo as várias facções o apoio de potências internacionais: a União Soviética e principalmente Cuba apoiavam o MPLA, que controlava a cidade de Luanda e algumas outras regiões da costa, nomeadamente o Lobito e Benguela. E, em 5 de Outubro de 1975, os cubanos acabaram por desembarcar em Angola.

A África do Sul, por seu lado, apoiava a UNITA, União Nacional para Independência Total de Angola, criada em 1966, formada por rebeldes nacionalistas do Sul. A princípio maoísta (o líder, Jonas Savimbi, fora treinado na China), a UNITA torna-se anticomunista e recebe apoio do regime sul-africano do apartheid, que desde Agosto de 1975, passou a ter forças em Angola. O Zaire, que apoiava a FNLA, invadiu também este país, em Julho de 1975. Os EUA, que inicialmente apoiaram apenas a FNLA, não tardaram a apoiar também a UNITA.

Contudo, pese estes apoios, no dia de 11 de Novembro de 1975, Angola a declaração unilateral da Independência e uma Nação de um partido único: o MPLA.

Soube um dia, por meados de 1975, que Malanje, onde continuaram a viver os meus pais, também estava sob fogo. Ouvia rumores e rumores.

Desta feita, digladiavam-se ali, a UNITA e o MPLA.
A cidade onde vivera parte da infância e da adolescência, Malanje, foi totalmente evacuada e com os restantes habitantes, a minha família, depois de dias passados no Quartel, foi deslocalizada por coluna militar para Nova Lisboa/Huambo. Foi um dos períodos mais difíceis da minha vida, pois as comunicações foram totalmente cortadas e só um mês e meio depois, através de um Radioamador, consegui saber deles.
Foi tal a mágoa e apreensão desse silêncio sepulcral, que ainda hoje me dói quem silencia, sem saber o efeito que isso tem.

Mas vivos os soubemos no Huambo, até que a belicosidade não permitiu novamente que se restabelecessem totalmente e, contrariados, pois acreditavam que era possível ficar em Angola, acabaram por ser evacuados para Portugal, tendo aterrado em Lisboa, por tramas que só aos deuses cabe fazer, no mesmo dia que eu, que partira de Luanda, pois na sua mensagem me haviam recomendado que abalasse também, deixando em Angola todos os seus bens, LITERALMENTE TODOS, e muitas saudades, claro está.
Não vos falarei da enorme diferença de condições entre os que o fizeram num primeiro momento e os últimos, pois como eu e meus pais, muitos ficaram até quase final de 1975. Nem do desembarque de Cubanos ou de Sul-africanos que vieram dar apoio a forças belicosas em confronto, dividindo mui8tos de nós que em Angola queriam ficar. Ou do som dos morteiros ou das Kalashnikov.
Ou dos insultos e ameaças que espíritos mais vingativos, acalorados num racismo que a revolta alimentara, nos faziam diariamente na rua.

Foi a tudo isso, acrescido a um célebre julgamento popular, efectuado em Luanda em Agosto de 1975, supostamente para servir de exemplo a violadores ou chacinadores que me fez não aguentar mais e seguir as recomendações dadas pelo meu pai. Caía por terra tanta da esperança que ainda tinha no MPLA.

Deste êxodo ou diáspora, segundo dados obtidos através do Jornal Público desta semana, intitulado «Os últimos Filhos do Império» assinado por São José Almeida, terão sido cerca de meio milhão de Portugueses que foram integradas na sociedade entre o Verão de 1974 e o Verão de 1975, a última geração de nacionais que viveram na África Colonial Portuguesa.
Nem tão pouco das mágoas, dificuldades ou mesmo injustiças, mas poderei, como a autora deste artigo, concluir que genericamente foi uma integração sucedida, pois de outro modo não seria a pessoa que sou. Pacificada com esses momentos tão duros, embora o Presente, nos faça, fruto das actuais dificuldades, reviver muitas das memórias mais doridas.
Em 2010, pude finalmente regressar a Angola, onde pude voltar ao N’Zeto que me concebeu. Hoje sem guerra, voltei, após 8 horas de viagem por terra batida, com uma certidão na mão e, no peito, um terço que me ofereceu o missionário polaco que ali encontrei, o segundo branco que o Nzeto nos nossos dias tem. Ou outro, mais velho, assistira já à guerra colonial e a todas as que lhe seguiram, pois por ali dominou a UPA/FNLA, a UNITA até que, finalmente, se instalou definitivamente o MPLA.

Nos caminhos que ali vão dar, o terreno pode estar ainda minado aqui e ali, mas já não se houve contar que cabeças de homens foram decepadas, seja por colonos, ou por tribos ou partidos diferentes.

Recordarei sempre o cheiro forte e quente que inalava da terra, assim molhada da chuva torrencial. Das gretas que se abriam por debaixo dos pés após o vendaval, bem como daquelas estranhas "formigas" com asas, que invadiam depois o céu, até que cansadas se tornavam seres da terra, perdendo as asas que se acumulavam nas ruas e quintais. Não sei se por forças divinas, reconheci em 2010 a missão, ou se a vivi como quando fui baptizada, sei apenas que senti que pertencia também tanto àquele lugar.
Finalmente soube ali desabar a chorar, agarrando a terra, como há muito não me lembrava!

25 de Abril, SEMPRE!

E partilho um poema que resumiria o que sinto que foi esta caminhada até hoje.

Vivo numa ilha no meio do Atlântico,
ou que talvez ainda não lhe tenha chegado, apesar de há tanto tempo nadar.
E já arrumei memórias, tantas e tantas mais
já pari e, por isso, plantei uma árvore feita de esperança
já chorei insónias longas,
mas também muito sorri
fiz os livros que ditam os mandamentos
tentando dar sentido às palavras que se foram cozendo entre si
já passeei por jardins de luz, por entre silêncios e multidões
já vi morrer e matar, guerras da vida que nem sempre são as naturais
enterrei mortos meus, cerrando as portas à descrença
e esqueci dores, transformando-as em lembranças
aprendendo a dizer-lhes até sempre, até já
já viajei, dentro e fora de mim
sonhando prazeres que nem sempre encontrei
e, contudo, cruzei montes, vales e oceanos daqui e dali
julgando que os ia poder abraçar
já tive amores e desamores
mas crente sou ainda que o último é sempre o maior
sei que o será
já fui rica e pobre; faço contas de somar e diminuir
saldando as que havia a pagar
cigarro aceso noite fora, sem saber como o ia fazer
já avaliei e fui avaliada
testes mais não poderia haver, porque poucos humanos os conseguiriam passar
já me preparei para morrer,
encomendando aos Céus os testemunhos meus
por isso, por isso e tudo o mais, agora quero e sem medo o direito a viver!

E viverei sem esperar a licença de ninguém, porque não a pedirei,
pois seguirei caminho, cruzando os mares da minha fé.



Filomena Barata

domingo, abril 20

Abril, Sempre!




Já arrumei memórias, tantas e tantas mais
já pari e, por isso, plantei uma árvore feita de esperança
já chorei insónias longas,
mas também muito sorri
fiz os livros que ditam os mandamentos
tentando dar sentido às palavras que se foram cozendo entre si
já passeei por jardins de luz, por entre silêncios e multidões
já vi morrer e matar, guerras da vida que nem sempre são as naturais
enterrei mortos meus, cerrando as portas à descrença
e esqueci dores, transformando-as em lembranças
aprendendo a dizer-lhes até sempre, até já
já viajei, dentro e fora de mim
sonhando prazeres que nem sempre encontrei
e, contudo, cruzei montes, vales e oceanos daqui e dali
julgando que os ia poder abraçar
já tive amores e desamores
mas crente sou ainda que o último é sempre o maior
sei que o será
já fui rica e pobre; faço contas de somar e diminuir
saldando as que havia a pagar
cigarro aceso noite fora, sem saber como o ia fazer
já avaliei e fui avaliada
testes mais não poderia haver, porque poucos humanos os conseguiriam passar
já me preparei para morrer,
encomendando aos Céus os testemunhos meus
por isso, por isso e tudo o mais, agora quero e sem medo o direito a viver!
E viverei sem esperar a licença de ninguém, porque não a pedirei,
pois seguirei caminho, cruzando os mares da minha fé.

terça-feira, abril 8

De como eram mesmo trágicas as Tragédias: Medeia, Eurípedes

Medeia, Eurípedes

Aia:
«A infortunada, a ultrajada Medeia declara em altos brados os juramentos, apela para a união das mãos, o mais forte dos penhores; toma os deuses como testemunhas do reconhecimento que recebe de Jasão. Deprimida, sem se alimentar, abandona o corpo às suas dores; consome dias inteiros em pranto desde que conheceu a perfídia do marido; já não alça a vista nem desprende do chão o olhar; parece uma rocha ou uma onda do mar, quando ouve a consolação dos amigos. Todavia, às vezes desvia a cara deslumbrante de alvura e, sozinha, chora o pai amado, a pátria, o palácio que renegou e deixou para seguir o homem que a mantém hoje desprezada.
Sabe, essa infeliz, para seu próprio infortúnio, o que se ganha em renunciar ao solo natal.
(...)
Receio que intente qualquer vingança inesperada. É uma alma violenta, não suporta as afrontas».

terça-feira, março 25

quarta-feira, março 12

MARÇO, O MÊS DA MULHER E DO EQUINÓCIO DA PRIMAVERA



Filomena Barata

MARÇO, O MÊS DA MULHER E DO EQUINÓCIO DA PRIMAVERA
"Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos."
Jorge de Sena

Março é o mês que, a oito, ficou fortemente ligado à mulher, homenageando aquelas operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, que fizeram uma grande greve, ocupando a fábrica e reivindicando melhores condições de trabalho, tais como a redução do número de horas de trabalho para dez (as fábricas exigiam cerca 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens e tratamento digno.

Essa manifestação foi reprimida com brutal violência, tendo sido as mulheres trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada.
Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas.

Assim, o Dia da Mulher, dia em que termino esta crónica, não é para mim um dia qualquer. É uma data através da qual se faz, rememorando esse triste evento, apelo à solução de tanta coisa que ainda está por solver, pois, no Mundo, ainda há tantas mulheres que não sabem o que é o direito ao Trabalho, o direito à sua independência financeira, o direito à autonomia emocional, para não falar já do direito ao seu corpo e à sua sexualidade.

E por isso, o dia tem como objectivo principal, discutir o papel da mulher na sociedade actual.

Aproveitando, portanto, o facto de estarmos na primeira quinzena do mês, que para o calendário romano foi durante séculos o primeiro do ano, o Mês de Marte, o Deus da Guerra que, curiosamente nutriu uma grande paixão por Vénus, a deusa da Beleza e do Amor, esposa de Vulcano.

Assim, apesar de ser um mês dedicado ao masculino, será às Mulheres e às Divindades Femininas que dedicarei esta crónica.

E se, o poeta Ovídio (43 a.C. – 17/18 d.C.), na «Arte de Amar» lhe dedica um notável texto, espelhando o conceito que a maioria dos cidadãos tinha sobre a mulher, nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas, para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. O mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é a mulher, que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, mas caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.

É um facto que a Mulher em Roma, sociedade ancestralmente patriarcal, dependia de um pater famílias, que exercia o seu poder até à morte, podendo decidir da vida ou morte dos seus filhos.

Pelo casamento, a mulher passava a depender da família do marido, ficando submetida a um poder familiar, semelhante ao que tinha em casa antes do matrimónio, pois o esposo podia também decidir da sua vida. Quando casada, era, de facto “dona da casa”, não sendo reclusa nos aposentos das mulheres, Geniceu, como acontecia na Grécia Antiga. Tomava conta dos escravos, participando das refeições com o marido, como se pode verificar no banquete relatado na obra Satyricon de Petrónio (27-66 d.C), saía à rua (usando a stola matronalis) e participava nos espectáculos públicos, sendo por isso criticada por Juvenal e pelo cristão e moralista Tertuliano, e tinha acesso aos tribunais.

Por casamento — justum matrimonium —, sancionado pela lei e pela religião, processava-se a transferência da mulher do controle (potestas) do pai, para o de seu marido (manus).

No entanto, em Roma as mulheres ocupavam uma posição de maior destaque do que aquele que acontecia na Grécia Antiga. Com o crescimento de Roma, a mulher foi gradualmente adquirindo autonomia, podendo inclusivamente participar da herança dos bens paternos, sendo sabido que, a partir do século II a.C., é notório um processo de emancipação.

Foram-se abandonando gradualmente as formas mais antigas de casamento e adoptou-se uma na qual a mulher permanecia sob a tutela de seu pai, e retinha na prática o direito à gestão de seus bens, havendo muitas mulheres ricas, disfrutando do seu património e dedicando-se aos negócios.

O divórcio era aceite na sociedade romana e o casamento chegou a ser até impopular na Época Imperial, sendo estas as palavras de Cecílio Metelo “Se pudéssemos passar sem uma esposa, romanos, todos evitaríamos os inconvenientes, mas como a natureza dispôs que não podemos viver confortavelmente sem ela, devemos ter em vista nosso bem-estar permanente e não o prazer de um momento” (Suetônio, Vida dos Doze Césares, “Augusto”, 89).

Mas, se analisarmos o papel das divindades greco-romanas, o universo feminino sempre foi agente de toda a trama mitológica e as mulheres foram activas em toda a lendária com que a Civilização Mediterrânica narrou e moldou a História.

Com o Equinócio da Primavera rememoravam o regresso de Proserpina à terra, para junto de sua mãe Deméter, a deusa mãe da Agricultura, Ceres para os Romanos, honrando-a esse regresso do Mundo Subterrâneo onde vivia um metade do ano – representa-se assim o Inverno - com Hades, seu esposo, com festivais, como aqui já falámos em crónica anterior.

Mas muitas outras divindades rememoram em Roma a relação íntima com que os povos da Antiguidade se relacionavam com os ciclos da Natureza.

Ísis, a deusa egípcia da fertilidade, adoptada por Gregos e Romanos, sintetiza essa relação, consumando ainda a relação do Mundo Mediterrânico.

Esta divindade a que eram dedicados cultos iniciáticos, tinha ainda fortes conotações com a saúde, aparecendo associada a algumas termas medicinais romanas, sendo mesmo denominada com alguns epítetos correlacionados com essa qualidade, como se pode verificar numa inscrição de Óstia que a designa Salutaris. Por isso também acontece ser invocada conjuntamente com Serápis e Esculápio, o deus da Saúde.

Mas muitas outras divindades femininas do panteão greco-romano nos fazem essa relação com a Natureza, salientando Fauna, esposa de Fauno, deus dos bosques e planícies que protegia os rebanhos e culturas, cujos oráculos se conhecem através dos murmúrios das árvores.

Fauna é a protectora das mulheres contra a esterilidade, sendo considerada pelos Romanos como a mãe do deus Latino, um dos reis lendários do Lácio, divinizado como Jupiter Latiaris. Nos lugares onde se faziam os oráculos de Fauno, os ritos observados foram minuciosamente descritos pelo escritor Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.): um sacerdote oferecia uma ovelha e outros sacrifícios e a pessoa que consultava o oráculo, tinha que dormir uma noite sobre a pele da vítima, dando então o deus uma resposta através de um sonho ou mediante vozes sobrenaturais. O escritor Ovídio descreve ritos parecidos celebrados sobre o Aventino.

O escritor cristão Justino Mártir identificou Fauno com Luperco (‘o que protege do lobo’), o protector do gado, seguindo o autor romano Tito Lívio (59 a.C. – 17 a.C), originalmente adorado na Lupercalia, celebrada no aniversário da fundação de seu templo (15 de Fevereiro), quando seus sacerdotes (Luperci) levavam peles de cabra e golpeavam os espectadores com cintos de pele desse animal.

Março é, pois, o mês em que se consagra o Equinócio da Primavera, essa que todos gostaríamos de ver florir dentro de nós, sendo Marte não o garante da vitória na guerra, mas da Paz.


Filomena Barata, Licenciatura em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestrado em Arqueologia pela Universidade de Letras do Porto. Técnica Superior da DGPC, Secretaria de estado da Cultura. Corpos Gerentes da Liga de Amigos da Miróbriga e da VITRIOL, Associação para a Lusofonia.

sexta-feira, março 7

24 horas na vida de uma mulher (reed de 13 JUN 2010)









Fotografia de tatuagem:
Eduarda Abbondanza



cheirar bem, cheirar mal
não, que se não se pode ter mau odor
nem as mãos sujar do vil metal
ou desatinar do acre amor

tem que se ser tudo
o pudor, o saber, mas pouco ter
pouco desejar e tudo querer
tem que se ser
tudo um pouco, tudo ou nada parecer
nem do ter, do ser
e do que antes de nós outros deixaram, o saber

tem que se cheirar bem
dançar como ninguém
escrever ainda assim e, perfumada, desejar
sem nunca o parecer demais

a sorte de quem, mesmo tendo, nada pode ter
nada pode mostrar
suar de prazer
mas fazer de conta
que o prazer nada mais é do que o amar

não trajar como ninfas brancas
não vestir como se Channel tivesse existido
e muito menos dizer que é bom ter corpo
e ainda assim poder trabalhar

tem que se ser, tudo, sim para se ser poder ser mulher
e para se amar, em Portugal

na hora certa, gritar, gemer
e, no minuto que resta, chorar
escondendo lágrimas entre os lençóis
chorar pouco, nunca muito
que ainda assim não enjoe o rio a transbordar

ou não se pode ser, nem mulher,
nem poder, nem amor em Portugal
tem que se desejar
sem nunca se mostrar
e ainda acreditar
que o igual um dia será
sem nunca invejar
o que os outros possam ser

aguentar as invectivas de uns
os insultos dos pares
e dos que, não o sendo, se querem mostrar iguais
e ainda assim cheirar bem
e melhor dançar, dançar, como ninguém

escolher a naifa, o fio da navalha
e, contudo, sangrar
como jamais corpo algum viu o sangue jorrar
mas nunca a lamúria cultivar
apenas sorrir e cantar

Continuar, continuar ...
a imaginar o mundo como se fosse do ar
sonhando-o azul ou esmeralda da cor do mar
pois as nossas filhas e Irmãs também nos estão a espreitar.

E nunca dizer : Ah, como detesto o cinismo nacional!

(Mas, claro, que o direi)






quinta-feira, março 6

A todas as Mulheres este poema de Jorge de Sena

 


"Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos."

Jorge de Sena