sábado, outubro 25

Reflexões



Os poderosos e os ricos, é demais sabido, sempre precisaram de legitimar o seu poder, através de alguém que lhe desse História (ou PEDIGREE): imperadores; reis, magnatas!
Seria sempre tão pequeno o Poder, ou os Bens se não os pudessem consagrar ou projectar para além da estrita e desolada materialidade, pois muitos não encontravam essa dimensão numa Igreja ou Religião também ela sempre demasiado subserviente ao Poder e aos Bens da Matéria.

Muitos constituiam-se Mecenas, fazendo juz ao nome do cidadão romano,Caio Cílnio Mecenas (70 a.C. — 8 a.C.), patrono das letras do tempo de Augusto, , subsidiando os Artistas, para que pudessem contar uma História - através da Pintura, da Escultura, da Escrita ou da Poesia.

Mas era uma espécie de escravatura lixiviada ou "branca", a de alguns cronistas ou artistas, tantas vezes de cama e roupa lavada, ou mesmo com direito a mesa de corte, pois desaparecidos estavam os Escravos Gregos que faziam mestria a médicos e imperadores.

Hoje a Democracia exige que os Intelectuais sejam Homens Livres de quaisquer tipos de poder! E eles são-no!

E, cada vez menos, a sua actividade é suportada ou subsidiada.

Mas resistem estoicamente, continuando a falar de Poesia; de Literatura; de Filosofia; de Artes Plásticas, e, como num reduto de resistência, continuam, continuam ... uma espécie de lugar da POESIS.

Produzem mais, cada vez mais para não morrer como Seres de Pensamento.
Seres Livres para pensar, tentando fazer os outros reflectir.

Mas o que lhes acontece? Morrem à Fome, pensando!
Não são Homens do Ócio, como a Grécia os consagrou, esses ou eram ricos, ou apoiados, mas SERES da Luta para resistir e fazer lembrar o BELO e O BEM de Platão.

E ainda lhes dizem: "têm que procurar a via e não ser subsidio-dependentes". Ou pior ainda, em algumas conjecturas mais elaboradas, ouve-se duzer «não é trabalho, porque dá prazer».

Vivam Eles, os resistentes que continuam a falar de História, de Música, de Cinema, de Filofofia e de POESIA!
E também de uma sociedade melhor!



quarta-feira, outubro 15

terça-feira, outubro 14

A Mariana já terminou de fazer os seus convites ... (reeditado)




















E quase não dorme a pensar na festinha que não tardará!

lindos, não são?

(2008)

À minha filha. Porque não são os filhos as desculpas dos pais, mas apenas a sua força mais (reed. Maio 2008)





Quando cheguei a Évora, há uns anos atrás, experiência para viver, sem amigos, sem família e sem alojamento , tive de presente, para culminar, ficar prenhe de um ser.
Primeiro pensei, são apenas uns "espenicões" na barriga (como se diz naquele lugar)... ou, quem sabe, a idade me está já a atraiçoar!
Na mão tinha um livro emprestado da minha mãe «Chocolate»;
No saber e no querer tinha tantas ilusões!...
Nasceu uma criança, o meu «princípe sapo» que, por sinal, e tal como seria de seria de imaginar numa casa de tantas mulheres como era a minha, era fêmea também.
Mariana de seu nome, Alcoforado, não será! (espero-o eu, pese a sua bela escrita que algumas Feministas como eu ainda conseguem manipular. Porque Mariana Alcoforado foi mulher e de desejo. Mas o vilão, o cavaleiro francês toda a vida a fez esperar ...).

Pensei ... desistir? Vou à base retornar... vou fugir do que me tinha proposto fazer?
Mas não, continuei a ler e a trabalhar.
Mariana comigo e eu com ela a refilar e aprender a ser mãe e filha, mãos dadas com a alegria.
Viu os barros de Beja e os campos onde o Sol ainda se põe. Assistiu à solidão de dias e à comunhão de bairros. Viu-me amar muito, rir e chorar.
Sem temor, ela e eu aprendemos que nenhum sentimento ou emoção são de esconder, de fingir ou de evitar. Há apenas que os encarar.
E assim aprendeu ela a escrever e a cantar, correndo campos fora e amigos a acompanhar.
Mochos de ciência e de sorte ainda conseguiu encontrar e chamou os bombeiros para um gato assustado árvore acima poder arregimentar.

Ela e eu acreditámos que a seara semeada de tempo podia ser o nosso lugar.

Não ... o Alentejo é grande, mas não era o nosso espaço de habitar.
Tão longe, tão longe tudo, que, quando agremiadas as gentes, em alguns lugares, pouco mais fazem do que tentar controlar o que de cada um pertença é, perdendo o essencial!

Vamos partir, está na hora, de outros lugares conhecer, filha minha, o sapinho transformado em princesa e que se tornou o ente encantado do meu ser.
E assim foi, fomos acampar noutro lugar. O mesmo onde estamos agora, mesmo que para ela ainda hoje não tenha sido grande solução, pois deixara amigos e tanto espaço para brincar.

Para mim sem searas, mas sem medos da solidão, pois esta é a cidade que desde cedo aprendi a amar!

Sítios grandes estes, cheios de gentes, mas com espaços para outros lugares.

Sim, livro na mão, ela e eu fomos outro sítio espreitar. Trazia novos sonhos e uma vontade enorme de ser feliz, pois a mudança vinha de mãos dadas a tantas outras ilusões.


Ainda ao meu Museu da Memória, à minha filha, micróbio meu, sapo encantado dos dias a desvendar, aos milagres do ser ... SIM, A TUDO ISSO, o melhor do meu ser.

Porque, se filhos nossos são, nada que lhes seja atribuível poderá servir de desculpa para não tomarmos decisões, isso aprendi eu com o meu sapo tranformado em princesa. Só se esconde nos filhos quem com eles não soube crescer!
Nem um dia me fez desistir, apenas continuar, esta "infecção" de que, para sorte minha, nunca me vou livrar:

Mariana
Nascida em Outubro 1999
Olhos cor de azeitona
"Peste" de cognome e convicção

Micróbio na minha pele
menina que a tudo diz não.

Resposta rápida,
mas com a mentira bem escondida debaixo do colchão
porque viu, desde cedo, que a palavra
é a única força que temos na mão.

Para a mentira pede licença
como já não pede para me invadir,
mas quero, quero sim, este meu tão único luar.

Não sendo de Maio, a Mariana é a rosa do meu quintal. É Mulher de Maio meu.

Para ela fica a reedição de um episódio que quase me cortou o ar.


"Estou mais exausta do que é costume. Fui a Santiago... tentei ainda acabar os textos de madrugada, mas não consegui todos ... tentei, mas não consegui acabar todos os textos que tinha em mente, nas minhas madrugadas.
Não tenho parado de tremer estes dias, de novo, outra vez assim!!! Cansaço, demais, cansaço.
Mas nada se compara ao que hoje senti ao chegar ao colégio.
15 min atrasada ... apanhámos um desastre na estrada, talvez numa estrada do sul ... Santiago, será?; houve que pedir uma ambulância ... eu, como sempre, com os minutos contados para chegar ao outro lado do espaço ... ao lado interior do Alentejo ... ao ponto de quase me apetecer deixar o homem na valeta; bêbado .... partiu um carro, mas parecia estar consciente ... os minutos contados ... aquele stress de não me atrasar ... de não pedir à Ângela; à Alexandra ... ou a outra qualquer, a quem mais poderia pedir??? Não, vou eu ... mesmo que com 15 min de atraso.
Chego, finalmente ... com os tais minutos de atraso ... a Mariana, onde está ... e a Tété que hoje vinha com ela cá para casa???? pátio ... não ... pavilhão de ginástica .... não estão .... entrada ... não ... quem as viu afinal??? há pouco estavam mesmo aqui ... mesmo há uns minutos atrás .... diziam. Um telefonema do Segurança do meu trabalho ... eu tinha ficado sem bateria num dos telemóveis para chatear .... uns minutos, uns quilómetros antes ...A senhora, onde está ... estou aqui no colégio ... porquê??? É que a sua filha está aqui no trabalho .... com uma amiga ...
Amaldiçoei possíveis transportadores imaginários que lhes tivesses dado boleia ... sem me avisar ....angústia, porque o telemóvel tinha ficado sem rede ... se calhar tentaram ligar esses "beneméritos" ... gaita e eu sem bateria .... porque me hei-se atrasar??? O homem na valeta??? Não, tu que não páras de te atrasar ....
Afinal não, elas foram lá ter ... as duas sozinhas ... lembraram-se assim de me fazer uma surpresa ...No trabalho, atravessando as circulares à cidade ...de mochilas às costas, ruas fora ... as duas...
Mãe não chegavas ... viemos fazer-te uma surpresa ... mãe .... atrasaste-te .... mãe estamos aqui, que pena não estares antes ... queria mostrar a tua sala à Tété
Eu ... sei ... lá ... tremuras ... pernas ... mãos ... coração ... revoltas ... e elas as duas sorridentes!!!Não parei ainda de ter vontade de chorar ... ela não saiu de castigo hoje ... nem um minuto ... mas o castigo merecia-o eu que me atrasei ... sei lá.... um homem quase morto na estrada ... mas quem se atrasou fui eu que sou mãe ... chorei ... choro ainda ... muito ... choro e se pudesse chorava mais ainda mais ... já não sou capaz de mais nada... apenas de dormir ... depois de uma vela acesa .... de uma Mariana aqui; felizmente aqui .... castigo, sim ... mas aqui.
Que eu já me castiguei a mim ....
Vou dormir com ela; pois ... quero-o sim ... para ver se sossego o choro ... se o acalmo ... que amanhã será outro dia. O que foi que fizeste Mariana? Mãe, atrasaste-te ... e eu quis fazer uma surpresa!!!
Senti-me tão sozinha ... vou dormir ... hoje não consigo esperar por nada mais ... só dormir ...Outro dia será amanhã ... mãe ... vamos dormir ... que bom é afinal, ouvi-lo!


Sim, vou tentar dormir sem pesadelos ... amanhã é outro dia e a Mariana está aqui hoje perto de mim!



E ela é a melhor coisa que a vida me pôde dar!

quarta-feira, outubro 8

PORQUE SOU REPUBLICANA?

PORQUE SOU REPUBLICANA?

Filomena Barata







Editado em:




Filomena Barata

PORQUE SOU REPUBLICANA?
Tendo-se comemorado o 104º ano da implantação da República, e porque lamentavelmente este já não é assinalado entre os feriados oficiais, mais me faz recordar os motivos porque sou efectivamente republicana.

Poderia resumi-lo assim: 
É muito simples: porque acredito que a Sabedoria; a Força e a Beleza não são hereditárias mas uma Construção. 
Todos nós podemos ser sábios, belos e fortes!

Não posso esquecer ainda que, para além de muitas outras questões em que, do meu ponto de vista, o novo regime permitiu a consolidação de valores universais como a Igualdade, Liberdade e Fraternidade, gostaria hoje de relembrar o fomento do ensino e da formação como um dos mais fortes investimentos feitos pela República, em prole da Cidadania e das Mulheres.

Mas o que, particularmente, desejo salientar é o papel que as mulheres desempenharam na implantação da I República e o que, posteriormente, puderam desempenhar, se bem que exigindo grande empenho e luta, pois muitas das medidas que preconizaram acabaram por não se concretizar totalmente, nomeadamente o Sufrágio Universal que algumas acalentaram como esperança na República.

Assim, servindo-me da obra «Mulheres e Republicanismo» passo a citar Ana de Castro Osório, fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas:

«Foi a mulher republicana quem educou muitos dos republicanos de hoje, foi a mulher que detestava a monarquia corrupta quem mais seguramente preparou este surdo estado de revolta, em que a sociedade portuguesa tem vivido …(…).

A revolta da mulher levou anos a explodir, mas nem por isso foi menos firme, nem por isso menos nociva ao velho estado de coisas.

Mas quando em Portugal a mulher, que é atavicamente modesta e presa a preconceitos, pôde reunir-se numa agremiação, como a nossa, ostensivamente política e de propaganda social, é que o regimen se devia ter considerado morto. Não era pelo mal que nós lhe podíamos fazer, mas era pelo que representava de sintomático para a monarquia em descalabro. Que eles avaliaram bem a força moral que a liga representava, prova-o o ódio que lhes votaram os reaccionários, o ridículo que sobre ela quiseram lançar, a guerra desleal e ignóbil que nos moveram individual e colectivamente. (…)

A República precisa de nós; não lhe regatearemos o nosso apoio. Defendamo-la dos seus inimigos, defendamo-la dela própria se alguma vez fraquejar no seu caminho rasgadamente progressivo e libertador.(…)
Não o esqueçamos! O povo português precisa de nós, que somos as suas mulheres, as mães dos cidadãos de amanhã, as educadoras, as companheiras livres numa sociedade libertada».

 “Eu (…) quero a República como libertação e felicidade para as mulheres, visto que a humanidade é composta dum só grupo de animais, indiferentemente masculinos ou femininos”.

Citação a partir de: Mulheres e Republicanismo (1908-1928), João Gomes Esteves


E repetiria eu, “a República ainda precisa de nós”.


Não me prenderei, portanto, aos inúmeros estudos felizmente já existentes e publicados sobre este tema a que, entre tantos outros investigadores, se têm dedicado acerrimamente Natividade Monteiro, quer com a sua obraMemórias de Maria Veleda, quer outros trabalhos desta especialista em Estudos sobre as Mulheres; de João Gomes Esteves com o seu notável trabalho sobre «Mulheres e republicanismo (1908-1928)» também entre muitos outros; ou de Maria Alice Samara; Isabel Baltazar, designadamente no trabalho «Operárias e Burguesas. As Mulheres no tempo da República», editado em Faces de Eva, nº19; de Isabel Losada de que destaco a obra Perfil de uma pioneira: Adelaide Cabete (1867-1935), Livros República, Associação Cedro/Fonte da Palavra, 2011 e cuja obra também se espelha no belíssimo blogue da autora Mulheres, Poesia, Literatura http://lousadaisabel.wordpress.com/
ou ainda o notável trabalho desenvolvido pelo Projecto Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a Mulher, uma unidade de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, bem como a sua revista, não esquecendo o trabalho de Zília Osório de Castro e mesmo o empenho de divulgação sistemático desenvolvido por Cristina Duarte de Duarte no seu blogue «Cidade das Mulheres»,http://acidadedasmulheres.blogspot.pt, mas tentarei fazer somente através da vida de algumas dessas mulheres o espelho do que representa para mim a República no feminino.

Num belíssimo artigo intitulado «Quando as feministas influenciaram o poder», publicado em 2010 no Jornal Público, datado de 27/08/2010, http://www.publico.pt/temas/jornal/quando--as-feministas-influenciaram--o-poder-19991625, a jornalistaSão José Almeida faz uma belíssima resenha sobre o papel da Mulher na transição do século XIX para o XX e ainda sobre os primeiros anos da República. Apoiar-me-ei nesse texto para, em conjunto com todos os trabalhos que tive a possibilidade de consultar acima referidos, poder manifestar o apreço pela luta dessas mulheres que contribuíram também, pelo seu exemplo, para que eu seja republicana.

Refere a autora do artigo mencionado que, em 18 de Maio de 1906, é criada a Secção Feminista da Liga Portuguesa da Paz em sessão realizada na Sociedade de Geografia, em Lisboa que consistiu na «Conferência sobre o Problema feminista, proferida por Olga de Morais Sarmento, feminista monárquica, que dirigiu esta associação ao lado de figuras como Emília Patacho, Domitília de Carvalho e Virgínia Quaresma.

Em Dezembro desse ano, nasce uma segunda associação feminista que ainda junta monárquicas e republicanas. (…) Reúne figuras como Magalhães de Lima, Alice Pestana, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Jeanne Paula Nogueira e Olga Morais Sarmento. E também Carolina Ângelo e Adelaide Cabete, que deixarão a organização em 1909.

Em 1907 é fundado o Grupo Português de Estudos Feministas, por Ana de Castro Osório, para doutrinar as mulheres. É ainda uma organização pacifista, mas já maçónica e republicana. No ano seguinte, o Grupo de Estudos dissipa-se e integra a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP) fundada em 1909 e que dura até 1919. A Liga é apadrinhada por figuras maiores do Partido Republicano e do Grande Oriente Lusitano Unido (GOLU): António José de Almeida, Bernardino Machado e Magalhães Lima, que será grão-mestre entre 1907 e 1928».

De cariz claramente republicano, a Liga empenha-se em defender a Lei do Divórcio, a revisão do Código Civil e Direito da Família e direitos sociais.

Fundada pelas quatro grandes feministas (Carolina Ângelo, Adelaide Cabete, Castro Osório e Maria Veleda), torna-se, como bem refere São José Almeida no seu artigo, a maior e mais influente organização feminista, acrescentando que a «sua abrangência manteve no seu seio tensões entre mulheres com concepções opostas sobre a questão religiosa e sobre o sufragismo. Essa tensão foi personalizada por Ana de Castro Osório, mais moderada, não revolucionária, sufragista, partidária do voto só para as mulheres da elite e seguidora da tolerância religiosa, e Maria Veleda, que defendia a revolução antes do 5 de Outubro, o voto igualitário e que era anticlerical».

Da vida de todas estas mulheres de condições socio-económicas diferentes; de profissões diferenciadas, ou mesmo com posicionamentos políticos que, por vezes, as acabaram por distanciar, saliento, contudo a comum determinação pelos ideais que abraçaram, a vontade de fazer vingar os direitos iguais e uma maior equidistância social, o papel que tiveram como professoras, formadoras, jornalistas, panfletárias, escritoras ou médicas.
Carolina Beatriz Ângelo afirmaria em 1911, em entrevista dada a O Tempo

"Reclamaria todas as medidas que considero necessárias para modificar a situação deprimente em que se encontra a mulher, (...) [entre elas] conseguir a igualdade de salários, quando a mulher produza tanto como o homem."

Notável é o exemplo de Carolina Beatriz Ângelo que desafiou o poder político sendo a primeira mulher a votar por se sentir nesse direito, pois era letrada e “chefe de família” por ser viúva.


Persistentemente não desistiu das dificuldades que lhe foram colocadas e acabou por conseguir exercer o direito ao voto na Assembleia Eleitoral de Arroios, a 28 de Maio de 1911.

Além de ser sido a única participar no escrutínio, salientou-se por ter sido também a única que defendeu o serviço militar obrigatório para as mulheres, defendendo que estas desempenhassem funções administrativas, enfermagem, em serviço de ambulâncias, nas cozinhas, entre outras.

Na sua carreira médica destaca-se o facto de ter sido a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, sob a direcção de Sabino Maria Teixeira Coelho. Exerceu funções como médica no Hospital de Rilhafoles, sob a orientação de Miguel Bombarda, e dedicou-se à Ginecologia.

Mas a atividade profissional de Beatriz Ângelo nunca deixou de se compaginar com uma intervenção política e social intensa e marcante, pois foi uma das principais activistas da sua época, defensora dos direitos das mulheres, da sua emancipação e do sufrágio feminino, tornando-se uma figura central no feminismo português ligado ao pensamento republicano que teve outras grandes referências como a médica ginecologista Adelaide Cabete (1867-1935); a escritora Ana Castro Osório (1872-1935) e a professora Maria Carolina Frederico Crispim (1871-1955), que ficou conhecida como Maria Veleda.

A vida desta última que, por contingências várias, foi de particular dificuldade é um exemplo de coragem e persistência e um exemplo para a República.

Sobre esta extraordinária mulher, afirma Maria José Franca:
«Há 104 anos, Maria Veleda já tinha começado a sua luta (desde 1905) em prol da República e dos ideais de «Liberdade, Igualdade, Fraternidade». Participou no «5 de outubro de 1910». Sofreu, chorou, também foi feliz. Viveu com intensidade todos os momentos da sua vida»

Empenhou-se pelo direito das mulheres ao sufrágio universal, efectuando petições, discursos e chefiando delegações junto dos Órgãos de Soberania.

Foi dirigente da " Liga Republicana das Mulheres Portuguesas", entre 1910 e 1915. Era anti -clericalista, o que lhe casou muitos dissabores, quer pela facção mais conservadora da Igreja, quer pelos adeptos da Monarquia e por se sentir próxima das classes mais desfavorecidas fazia palestras para as mulheres operárias.

Após a revolução republicana fez parte de um grupo chamado " Pró-Pátria" que percorreu o país em defesa do regime implantado.

Eu tinha uma ardente esperança no futuro; e a minha propaganda era iluminada pelo clarão abençoado na fé num mundo novo, liberto de injustiças – um mundo sobre que a Fraternidade desdobrasse o seu manto protector.” (na defesa dos ideais da República)

Maria Veleda, cit. in «Memórias de Maria Veleda» de Natividade Monteiro


Na fotografia:

Grupo das Treze, fundado por Maria Veleda, em Maio de 1911, para combater a superstição. Em 1.º plano, sentadas a partir da direita: Judite Pontes Rodrigues, Carolina Amado, Ernestina Pereira Santos, Lídia de Oliveira, Maria Veleda, Antónia Silva e Adelina Marreiros. Em 2.º plano, em pé: Honorata de Carvalho, Mariana Silva, Filipa de Oliveira, Berta Vilar Coelho, Lénia Loyo Pequito e Carolina Rocha da Silva. (Foto legendada por Natividade Monteiro in «Memórias de Maria Veleda»

Por sua vez, Adelaide Cabede, de origem bastante humilde e órfã começou a trabalhar muito nova na apanha da ameixa e trabalho de serviço doméstico em casas ricas de Elvas.
Tendo contraído matrimónio com o Sargento Manuel Fernandes Cabete, que era republicano, este torna-se uma figura central na sua vida, tendo-a lançado na militância republicana e feminista e a incentivado a estudar. E é em 1889, com vinte e dois anos que faz o exame da instrução primária tendo, em 1894, finalizado o curso liceal.

Em 1895, mudam-se para Lisboa, onde se matriculou no ano seguinte na Escola Médico-Cirúgica, concluindo o curso em 1900 com a tese dedicada à Protecção às Mulheres como meio de promover o desenvolvimento físico das novas gerações, tornando acabado por ser obstetra e ginecologista.

Adelaide Cabede participou activamente na propaganda que antecedeu a mudança de regime em 5 de Outubro de 1910, escrevendo contra a Monarquia e os Jesuítas, sendo notórios os seus ideais republicanos, também aplicados no interior da Liga Republicana das Mulheres, a que esteve ligada.


Foi uma das principais feministas portuguesas do século XX e, durante mais de vinte anos, presidiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo reivindicado para as mulheres o direito a um mês de descanso antes do parto, e, em 1912, o direito ao voto feminino, sendo em 1933  a primeira e única mulher a votar, em Luanda, a Constituição Portuguesa. Desempenhou um notável papel como pacifista, abolicionista e humanista.

Mas não posso esquecer, tanto mais que a História não lhe deu tanta relevância, Alda Guerreiro, oriunda de uma família com tradição no campo das artes e letras (seu pai era pintor), nascida em Santiago do Cacém, em 1878. 
O seu ambiente familiar favoreceu o desenvolvimento de uma grande sensibilidade e espírito crítico social, tornando-se uma notável poetisa. 
A sua obra não foi ainda compilada e publicada em livro, encontrando-se, por isso, ainda dispersa por jornais e revistas da época, pese o trabalho que o historiador João Madeira lhe tem vindo a dedicar.
Alda Guerreiro que conviveu com a época de uma enorme agitação política, na sequência das lutas partidárias – desde o regicídio do rei D. Carlos, passando pela implantação da República até ao período conturbado que se seguiu - pertenceu à geração dos intelectuais do séc. XIX e, tal como eles, aderiu à causa republicana. O seu nome ficou também ligado ao ensino, tendo fundado inclusivamente uma escola primária em sua casa. Desempenhou assim um papel fundamental na educação, tendo-se pautado por reconhecer a necessidade de formação das mulheres e do ensino popular.
Republicana convicta, desenvolveu uma actividade notável como escritora, jornalista e pedagoga a bem dos valores que defendia.
E porque urge cumprir a República, partilho um dos seus poemas, terminando.


terça-feira, outubro 7

Sobre o Bem e o Belo



A estética nas atitudes - a velha questão do Bem e do Belo de Platão - dá um trabalho sem fim !!!
Mas "Os fenómenos da verdade, do bem e do belo são questões fundamentais do pensamento"
E é assim que Platão, no livro III de "A República" se dedica a analisá-las, bem como no célebre diálogo inicial de Hipias Maior.
Voltar-lhes-ei um dia destes, bem como ao seu «Banquete» e à noção de Amor que se inscreve também no Belo, pois é a junção de duas partes que se completam, constituindo um ser andrógino como o primordial.
Agora não é o tempo, nem o momento .

segunda-feira, setembro 15

PORQUE NÃO É A MENTIRA UM PECADO CAPITAL?

    ANO 3                                 Edição 26 - Setembro 2014                                                                                                                                                                         INÍCIO                    contactos                  
Filomena Barata

PORQUE NÃO É A MENTIRA UM PECADO CAPITAL?

Pese a Mentira não constar dos Pecados Capitais, talvez porque ela é, infelizmente recorrente, dedicar-lhe-ei uma pequena reflexão nesta crónica que não pretende senão ser um alerta, ou mesmo um desabafo de uma comum cidadã preocupada com a emergência de “sociedades de imagem” ou do “espectáculo”, como bem as definiu Guy Debords (1931-1994), na década de sessenta do século passado.

Reconhecendo-se genericamente aos políticos um atributo, a mentira, para que, deste modo, exerçam sobre os outros uma forma específica de poder ou de controlo das sociedades, não gosto, contudo, de ver como se pode continuar a interiorizar essa conotação, pois descrer totalmente dos políticos é pernicioso: é desacreditar os fundamentos da Democracia, pois são eles que a representam através da escolha dos Cidadãos.

Pese a miríade de justificações para o uso da mentira nas acções políticas, desde as conhecidas como «razão de Estado» que são entendíveis, ou outras que tenham a ver com medidas impopulares, porque se teme anunciá-las com a antecipação devida, por se recear que as populações entrem em pânico ou se desintegrem equilíbrios sociais, a política pode ser, do meu ponto de vista, feita aproximando-se cada vez mais da Verdade e não o seu contrário.

Ou seja, o conceito de cidadania e de maturidade da Democracia deveria pressupor que ela não se consolidasse na imagem mais “ventável”, na crença em promessas governativas de um dado partido que constantemente acabam por se gorar, mas numa participação mais directa dos cidadãos que implica o conhecimento da realidade.

Para os Gregos, a Polis representa a essência da própria Democracia, e encontramos nos maiores filósofos e pensadores do Século de Péricles, muitas preocupações relativamente às questões éticas que deveriam formar o conceito de Política, sendo Platão com a sua «República» um expoente.

Aliás, a Ética (Ethos) é um dos grandes temas da reflexão humana desde os primórdios da filosofia, na Grécia Antiga, e em íntima ligação com a política, ao ponto de quase se identificarem, naquele momento da Antiguidade. A filosofia política era tratada dentro do grande capítulo da ética que, com a física (e a metafísica) e a lógica, compunham o quadro geral da filosofia na Antiguidade.

Por sua vez, a política, assume dois conceitos diferentes que convivem no tempo, na opinião dos cidadãos e na motivação da acção dos políticos: um é o de que a política, a mais nobre das ocupações humanas, é o empenho na realização do bem colectivo a que se destina, como o defendem Platão e Aristóteles, enquanto o pragmatismo dos sofistas e dos retóricos se empenha a pensá-la como um exercício de linguagem eficaz para manipular ou prender as assembleias e assim exercer as funções políticas.

Este outro conceito baseia-se na ideia de que a política «é a arte e a sabedoria de conquistar e de manter estável o poder; o fazer o bem; nesta visão, não é propriamente um fim, mas um meio de ganhar o apoio dos cidadãos para a conservação e a estabilização do poder, empregado em paralelo com outros meios também válidos, como o marketing, o controle da media, o clientelismo, o populismo e até mesmo a mentira, a violência e a corrupção. Este é o conceito derivado das interpretações mais correntes dos conselhos de Maquiavel e é o que melhor se enquadra nas concepções da ciência política moderna, entendida a ciência como conhecimento neutro, isto é, destacado de qualquer consideração de natureza ética», como define Roberto Saturnino Braga no seu blogue Ética e Política

http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/3.htm

Esta visão pragmática é talvez a que mais moldou o conceito de Política do Mundo Ocidental, motivo pelo que a «Mentira» foi, muito provavelmente associada ao exercício do poder, pressupondo que o mesmo fosse enganoso.

O termo grego alethéia significa a verdade ou o caminho para a verdade, ou do esquecimento, pois lethe significa esquecimento. Platão, através da personagem de Sócrates acreditava que conhecer a verdade seria retornar aos conceitos esquecidos para a busca da verdade, pois as verdades estavam em nós esquecidas. O meio para que chegássemos à “verdade absoluta”.

Contudo, é também Platão que admite que a mentira seja permitida excepcionalmente na organização da Polis Justa, se fosse usada para enganar os inimigos ou a própria comunidade, desde que trouxesse vantagens para a mesma, ressalvando, contudo, que a MENTIRA só fosse permitida aos governantes por eles possuírem a Sabedoria necessária, pressuposto que, obviamente, não se pode transpor para os nossos dias. Também os médicos tinham direito, segundo o filósofo grego, ao uso da "mentira útil", aquela capaz de agir como um fármaco sobre os indivíduos e sobre a pólis em estado de doença.

Platão admitia, portanto, para sociedade perfeita uma estratificação social que deveria, como explicita na sua obra com “República”, ter um governo ideal, o do filósofo-rei (Correspondendo ao Ouro, à Sabedoria, Coragem e Temperança). A esse patamar – o da Contemplação e da Exposição das ideias que o Estado devia seguir – só se poderia ascender após décadas de preparação para o efeito, de forma a garantir que fossem escolhidos entre os mais dotados dos guerreiros e que tivessem sido submetidos a particular educação. Depois de terem passado a fase de Guardiães (Simbolicamente associados à Prata, à Coragem e à Temperança) fase em que se deveriam dedicar ao estudo e de trabalho em altos cargos públicos, Abaixo disso, encontrar-se-ia o Bronze, ou a fase de produtores.

Ora, a “verdade absoluta” não existe, pois não se trata de um “Ente” e todos a interpretação da realidade é sempre moldada pelos olhares próprios ou dos nossos conceitos e crenças, já a Mentira como exercício de poder e de manipulação pode tornar-se uma constante perniciosa que envenena relacionamentos e a própria sociabilidade.

Mas como infelizmente a Mentira é tão presente na vida do comum dos mortais, usada como sustentáculo da maioria das relações, aproveito o período do pós-férias, onde tantos simulacros de paraíso e de prestígio social ou de bem-estar se projectam, para fazer um repto: pensar a mentira, como mais um exercício de prepotência de alguns que sobre os outros (os que acreditam e os que, mentindo também, num processo de mimético, fazem crer que acreditam).

Porque poderia a Mentira ser um pecado capital? Porque, efectivamente, pode moldar todos os outros "Pecados Capitais", transmutando-se de forma substantiva em forma adjectival de todos eles?

Porque é que a Soberba, a Luxúria, a Ira, ou mesmo a Gula são tantas vezes meras subsidiárias da «Mentira»? Ou talvez sejam a sua consequência.

E, contudo, nada pode envenenar mais a vida do que a «Mentira» ou a «Não Palavra». Não digo a Palavra Não Dita, ou a omissão, mas, a «não Palavra», enquanto isso mesmo, enquanto o contrário do que é.

A mentira é o pecado por excelência, tendo sempre por companheira a cobardia, a desonestidade, a vaidade de se querer ser o que não se é, ou pânico do confronto de nós para nós e do sentir a pele e a Alma!

E a dúvida, mãe da descrença, não será também ela senão filha da ausência da "Palavra" ou da "Mentira"? E com ela, da ausência do gesto?

A mentira pode fazer elouquecer!

Deveria ser punível como outra coisa qualquer - é o roubo da alma de quem nela crê.

Não obstante, ao mentir, é a nós próprios que estamos a enganar. É a nós que estamos a falsear.

E, apesar de tudo, há quem se disponha sempre a acreditar na mentira, porque dela lhe advém algum prazer especial, algum proveito ou, pura e simplesmente, porque gosta de ser enganado e assim poderá enganar também.

Por isso, até o Senhor, O Senhor da Palavra e da Crença, precisou do valor da palavra e do gesto e disse «Por que estais aflitos e por que se levantam dúvidas em vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, porque um espírito não tem carne e ossos assim como observais que eu tenho. (e dizendo isto mostrou-lhes as suas mãos e seus pés). (...) Disse-lhes então: "Estas são as minhas palavras de que vos falei enquanto ainda estava convosco, que todas as coisas escritas na lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos, a respeito de mim, têm de se cumprir" (...) haveis de ser testemunhas destas coisas.
(Lucas 24:39). Sagradas Escrituras.


Que o retorno das férias nos traga uma depuração especial

sexta-feira, junho 20

Cris, para ti, finalmente, a cabeça de S. João Baptista, pois não tarda está o dia do Santo a chegar (actualizado de Maio 2008)

Hoje, abrindo o site do Museu Nacional de Arte Antiga, a propósito da nota anteriormente feita, encontrei como uma das "peças" notáveis deste Museu a pintura intitulada "Salomé" de Lucas Cranach e outra de S. João Evangelista.


Pintura: Salomé, Lucas Cranach, MNAA, IMC
http://mnaa.imc-ip.pt/
E recordei o que aqui já tinha dedicado a esta personagem.
«Nem sei porquê, lembrei-me de um dia em que, no Porto, assisti serenamente às festas de S. João, no último andar de um Hotel, e que as gaivotas assustadas com o fogo de artifício se dirigiam para terra, para o lugar onde me encontrava a ver a cidade que se estendia até ao Douro.

Por esse dia de S. João, por tudo o que representa o Solstício de Verão, decidi-me retomar a história do Santo e da mítica Salomé.


Imagem: Oscar Wilde como Salomé.WIKIPÉDIA
«Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, e ele disse aos seus cortesãos: "Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos, e, por isso, tais poderes miraculosos se manifestam n'Ele". Herodes, com efeito, depois de prender João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, pois João dizia-lhe "Não a podes ter contigo". Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Heroíade dançou em público e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: "Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Baptista". O rei ficou penalizado, mas devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Batista na prisão. Trouxeram num prato a cabeça e deram-na à jovem, que a levou à mãe. Os discípulos vieram buscar o cadáver e sepultaram-no, depois foram dar a notícia a Jesus». Envangelho Segundo S. Mateus, Execução do Baptista

A história de Salomé, como é mais divulgada, é uma história de luxúria e perversidade, e Salomé foi sempre tida como o abismo da sensualidade.

Salomé foi, depois de Eva, considerada a mulher mais malvada da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido por parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais a atenção que mereceu a jovem Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
À partida, pela sua beleza e sendo de estirpe real, Salomé teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, é possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus intentos. A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos - um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus - e foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista.
(in Wikipédia).

Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande, a quem o imperador romano Calígula dera o governo da Galileia e de Pereia.
Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias (ou Herodíades) sua cunhada, tendo com ela casado, violando a lei que o interditava.

Herodes e Herodias viviam um idílio que era denunciado pela voz de um estranho homem, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a sua recente esposa. Esse homem vivia numa pobreza assumida, como forma de despojamento dos bens terrenos, e tinha como indumantária apenas uma pele de camelo, apertada com um cinto, alimentando-se no deserto da água da chuva, frutos silvestres, gafanhotos e mel, como conta a tradição.
João tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo como viviam, ao ponto de ser odiada por Herodias. Era conhecido por João Baptista, porque baptizava nas águas do Jordão todos aqueles que acreditavam que um dia a lei dos homens seria alterada com a chegada de um "messias", anunciando a chegada do Salvador - Jesus Cristo - a quem acabou por baptizar.

Por sua vez, a bela Salomé, filha de Herodias, fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso pelo irmão, passeando-se, segundo reza a lenda, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio.

Flaubert, Oscar Wilde, Mallarmé e Eugénio de Castro, Carlos Saura, para só citarmos alguns criadores, vestiram e despiram Salomé como o símbolo da perfídia e da sensualidade.

Deram-lhe e tiraram-lhe ingenuidade e candura ou carregaram-na com paixões mórbidas e a mais repugnante perfídia, conforme a veia criativa os inspirou.
É certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real.
Para lá dos mitos criados nos 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista.
No Evangelho de Mateus, aparece apenas com uma simples referência (...) O historiador hebreu Flávio Josefo também se refere a ela, dizendo: Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente" (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico - do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785).
Bailarinas e escravas, não eram consideradas convivas e estavam ali para o prazer dos convidados (in Wikipedia).

Herodes era um homem pouco culto, medroso, ignorante, pouco mais do que um nómada, e tinha medo do profeta. O tetrarca mandou que o trouxessem à sua presença, pois queria ouvi-lo. João repetiu-lhe o que já dissera antes, que o casamento dele com a cunhada era "sacrílego" segundo as leis. E mais, disse-lhe que a repudiasse e que voltasse para a mulher legítima, que expulsara injustamente, e que, se não o fizesse, cairia a maldição sobre Israel. Herodes, sob pressão de Herodias, mandou-o encarcerar numa prisão-cisterna.
(...) Herodes (...) vivia torturado entre o prazer e o dever. Era fraco. Não resistia às artimanhas da cunhada, agora sua mulher, que se dizia ter casado com ele apenas por interesse. Ora Herodes nada tinha que se comparasse com o pai, Herodes, "o Grande", que, na religião católica, ficou conhecido por ter ordenado a "matança dos inocentes", isto é, ter mandado executar todas as crianças com menos de dois anos, quando ouviu dizer que um novo rei viria. Esse rei era afinal e apenas "o menino de Nazaré" e o seu reino não seria deste mundo.
(...)
Herodes Antipas quis esquecer que as palavras de João o torturavam e não o deixavam dormir. Era o seu aniversário e quis festejá-lo com toda a pompa (...)Foram convidados todos os príncipes, que acorreram da Judeia e da Galileia e trouxeram os seus séquitos. Bailarinas de longes paragens vieram com a sua graça animar o banquete. Foram preparadas as melhores iguarias.
Entre cada prato servido, tocava-se música e as bailarinas núbias e egípcias, ao som de alaúdes e flautas esvoaçavam entre os convivas. Os vinhos de Chipre e da Grécia enchiam taças de metais preciosos e reinava a alegria. Na sala do banquete só era permitida a entrada a elementos do sexo masculino
(in Wikipedia), pois bailarinas e escravas não eram consideradas convivas e estavam ali apenas para o prazer dos convidados.

Reza a lenda, que a meio da festa, para surpresa de todos, aparece uma bailarina desconhecida, de beleza sem rival, acompanhada de escravas - era Salomé - que foi dançar. Perfumada com sândalo e outras essências tinha nos braços e nos tornozelos pulseiras. Eram as suas vestes tules e finas musselines transparentes ... e então Salomé começou a dançar.

Eugénio de Castro, no seu poema lírico, descreve-a assim:

"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..."

Quando Salomé termina a dança, os convidados de Herodes entusiasmados querem mais. E Herodes, louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez!" Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: "Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!" Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata." Herodes Antlpas fica branco, quase petrificado, não acredita no que ouve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é a bondade que o faz agir assim, ou talvez, lá no fundo, pense que aquele homem não merece a morte, porque não é um criminoso, não atentou contra a vida de ninguém, embora nesse tempo mandar matar fosse quase uma banalidade.
Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: "Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Baptista." E Herodes cede. Tem de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. (...)
Um pouco mais tarde, a cabeça de João Baptlsta é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada. A partir daquele momento, João Baptista é um mártir, é o santo que tantos séculos depois a humanidade não esqueceu.

(...)
Para Oscar Wilde (1854-1900), o autor da mais famosa peça sobre Salomé, escrita para o teatro e para a actriz francesa Sarah Bernhardt, Salomé é a encarnação da perfídia, porque ela amara João, que a não desejou, por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada. A peça é tão impressionante e tão contra os cânones da época que foi proibida em Inglaterra, na Áustria, na Suécia e noutros países. Só em França foi representada, com sucesso, em 1896.
Depois da peça de Oscar Wilde, Richard Strauss fez a música da ópera do drama de Salomé e João Baptista. Houve quem compusesse bailados sobre o tema, mas é na iconografia sobre Salomé que encontramos o maior e mais diversificado número de interpretações: gravuras, desenhos, telas de pequenas e grandes dimensões, esculturas. Quase todos os grandes museus do mundo têm quadros com João Baptista e Salomé. Há representações remotas, sendo conhecidas obras de toda a Idade Média. De referir, em particular, um belíssimo quadro de Filippo Lippi (1406-1469), uma gravura de 1583 da Bíblia Sacra de Antuérpia e outra, também de Antuérpia, de 1715.
Portugal tem no Museu de Arte Antiga quadros sobre o tema e o museu de Tomar alberga, da Escola de Gregório Lopes, do século XVI, um exemplar belíssimo sobre o tema da mulher má e do santo degolado.
Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luini, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns vêem uma Salomé sanguinária, a completa encarnação da maldade, outros uma Salomé ingénua, que terá apenas obedecido à mãe, que lhe sugere o tenebroso pedido. Fosse como fosse, nenhuma mulher foi ou será considerada tão pérfida como Salomé. O grande, o maior pintor de Salomé foi Gustavo Moreau, que, entre esboços, desenhos e telas, terá dado vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões
(in Wikipédia)

Pois é amiga, o que terá sido afinal Salomé?
Para mim Salomé não é senão uma vingativa mulher que prefere ver degolado o seu amor, quem o saberá, pois João Baptista não teria sido sempre e tão somente o bondoso homem que o Envangelho retrata, mas também belo e sedudor, tendo, ainda por cima, invadido a intimidade do Palácio a que não pertencia... porque a Santidade é uma longa caminhada.
Talvez o desejo impossível, provavelmente o único que não estava ao alcance da sua perfídia, tenha deixado a infanta enlouquecida e vingativa.

Mas Salomé (terá algum dia perdão?) continuará a seduzir-nos por detrás dos seus olhos belos e provocantes, inscitos na Arte Universal.

Que Salomé reescreverias tu?.

terça-feira, junho 10

À Natália Correia, de novo, a elegia do amor. Também para ti o meu Dia de Portugal, contraponto às belas "Cartas Portuguesas" (reeditado de JUN 08).





Felicidade?

Será pôr lençóis de flores na cama,
esperando no leito o macho manchado,
com o cheiro acre a outras mulheres?

Ou ter televisão a cores, no quarto onde vamos dormir?
Será a toalha de nylon, gasta, de tanto lavar ...?
pratos de pyrex leitosos, em Domingos, todos iguais?
e mesmo assim dizer ... sou feliz, com marido meu, pois está bem guardado,
no meu lar!

Continuando a dizer que sempre a mim vai regressar.
Doa o que doer, pois é esse o meu e o seu lugar.

E continuar a fingir, fingir mais, que se está a acreditar.
Sem frustação!?
Acordar amanhã para limpar o que ele fez, ou o não fez?
Limpar, lixiviar tudo, para continuar a não ver?

Será isso o meu Lar?
Deglutindo os restos do que os outros deitaram fora, e mesmo assim dizer
Júbilo o meu, orgulho este de Mulher.
A humilhação que seja a dos outros... pois é comigo que vai acordar!!!!

E, de novo, recorrente, "perdoar", "perdoar",
aquilo que até é vexame fazer. Pois não somos deuses nem tribunais, mas apenas mulheres.

Não, isso não, antes o copo de vinho bem bebido,
a insónia em pano de linho, mas bebida num copo de cristal
num segredo fino que cheira a morte, mas vivida
e na minha mão! Antes a solidão!
Ou um amante de ocasião...

Maio, Maio meu, que não desisti de viver
que não consegui apenas ser o que os outros esperam de mim!
As minhas mãos têm sentido sem quaisquer outras mãos.

O último golo sorvido?

com gosto a cicuta, a minha morte, mas é o meu.
Antes isso do que morrer nas tuas mãos!

E, de resto, amuralhar, amuralhar! Empurrar.
A tua ilha, emprestada, Natália, de aliança de brilhantes na mão?

Não isso não!
Mais depressa me afundaria nas ondas grandes do teu mar do que na loucura que os outros querem que eu seja

Afinal, se não te sentisses Circe, se não me sentisse eu, que também sou filha de boa gente, que seríamos nós então?

Porque não se retalha a pele dos outros nas rochas sem saber que as marés nos podem engolir também a nós.

Uma coisa é certa, o Sol não brilha agora na tua Ilha.
Porque sem Palavra haverá apenas lugar à penumbra, onde estás.


Por isso me socorro das palavras tuas Natália:


Eram nas Furnas, caldeiras
guelras que o vulcão abria.
Mas se enxofradas as sombras
em chumbo e cachão ferviam,
a luz por vales e lombas
em hortênsias de aspergia,
que não se ganham os deuses
sem demos por mais valia.
Por isso ali o inferno
com o céu não contendia.
Vai ´daí que me ficasse
esta concórdia sadia
de não frequentar negrumes
sem numes por companhia.
Ou o contrário se quiserem
que se Deus dá flor e fera
eu sou por esta harmonia.

Natália Correia, Singelinha, in Poesia Toda.

segunda-feira, maio 26

A minha rua saiu à rua 40 anos depois ...


Na minha rua havia sempre gente, bicicletas, braços partidos, gritos das mães a chamar pelos filhos que não queriam voltar para casa; trotinetas feitas com rolamentos; bicicletas sem travões; festas de anos de mais ricos e mais pobres... havia mangueiradas e bolos feitos de terra nos quintais, onde também se dançava nos carnavais e com o ano a findar.

Na minha rua havia uns "cientistas loucos"; outros atinados já com óculos grossos para observar e, na minha rua, subia-se e descia-se a dizer «supercalifragilixticexpoilidoce» ... estará mal escrito? Não importa!

Na minha rua houve os primeiros amores e desamores ... as zangas de ocasião e o fumo da paz.

Na minha rua ia-se a caminho da piscina, para tristeza de alguns que, tanta malandrice feita, os viam passar, pois os castigos obrigavam a uma ausência temporária dos feitos de mergulhos em pranchas altas e outros alabarismos mais.

Na minha rua combinavam-se piqueniques, idas ao cinema e os jogos e acampamentos usuais.

Havia as meninas sempre à moda, as mais refilonas e as mais pacatas; havia os sossegados e os dos desacatos.

A minha rua era um mundo que não acabava mais.
Apenas sei que a minha rua saiu hoje à rua e um abraço enorme nos fez cantar «Parabéns», mesmo sem ser dia de anos de ninguém. Porque um dia a rua foi desmembrada e viram-se mortos nos passeios onde costumávanos brincar ...

Hoje não foi a nossa rua o mundo, mas o mundo inteiro que ali se reuniu para nos podermos finalmente abraçar.