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terça-feira, setembro 23
segunda-feira, setembro 15
PORQUE NÃO É A MENTIRA UM PECADO CAPITAL?

Pese a Mentira não constar dos Pecados Capitais, talvez porque ela é, infelizmente recorrente, dedicar-lhe-ei uma pequena reflexão nesta crónica que não pretende senão ser um alerta, ou mesmo um desabafo de uma comum cidadã preocupada com a emergência de “sociedades de imagem” ou do “espectáculo”, como bem as definiu Guy Debords (1931-1994), na década de sessenta do século passado.
Reconhecendo-se genericamente aos políticos um atributo, a mentira, para que, deste modo, exerçam sobre os outros uma forma específica de poder ou de controlo das sociedades, não gosto, contudo, de ver como se pode continuar a interiorizar essa conotação, pois descrer totalmente dos políticos é pernicioso: é desacreditar os fundamentos da Democracia, pois são eles que a representam através da escolha dos Cidadãos.
Pese a miríade de justificações para o uso da mentira nas acções políticas, desde as conhecidas como «razão de Estado» que são entendíveis, ou outras que tenham a ver com medidas impopulares, porque se teme anunciá-las com a antecipação devida, por se recear que as populações entrem em pânico ou se desintegrem equilíbrios sociais, a política pode ser, do meu ponto de vista, feita aproximando-se cada vez mais da Verdade e não o seu contrário.
Ou seja, o conceito de cidadania e de maturidade da Democracia deveria pressupor que ela não se consolidasse na imagem mais “ventável”, na crença em promessas governativas de um dado partido que constantemente acabam por se gorar, mas numa participação mais directa dos cidadãos que implica o conhecimento da realidade.
Para os Gregos, a Polis representa a essência da própria Democracia, e encontramos nos maiores filósofos e pensadores do Século de Péricles, muitas preocupações relativamente às questões éticas que deveriam formar o conceito de Política, sendo Platão com a sua «República» um expoente.
Aliás, a Ética (Ethos) é um dos grandes temas da reflexão humana desde os primórdios da filosofia, na Grécia Antiga, e em íntima ligação com a política, ao ponto de quase se identificarem, naquele momento da Antiguidade. A filosofia política era tratada dentro do grande capítulo da ética que, com a física (e a metafísica) e a lógica, compunham o quadro geral da filosofia na Antiguidade.
Por sua vez, a política, assume dois conceitos diferentes que convivem no tempo, na opinião dos cidadãos e na motivação da acção dos políticos: um é o de que a política, a mais nobre das ocupações humanas, é o empenho na realização do bem colectivo a que se destina, como o defendem Platão e Aristóteles, enquanto o pragmatismo dos sofistas e dos retóricos se empenha a pensá-la como um exercício de linguagem eficaz para manipular ou prender as assembleias e assim exercer as funções políticas.
Este outro conceito baseia-se na ideia de que a política «é a arte e a sabedoria de conquistar e de manter estável o poder; o fazer o bem; nesta visão, não é propriamente um fim, mas um meio de ganhar o apoio dos cidadãos para a conservação e a estabilização do poder, empregado em paralelo com outros meios também válidos, como o marketing, o controle da media, o clientelismo, o populismo e até mesmo a mentira, a violência e a corrupção. Este é o conceito derivado das interpretações mais correntes dos conselhos de Maquiavel e é o que melhor se enquadra nas concepções da ciência política moderna, entendida a ciência como conhecimento neutro, isto é, destacado de qualquer consideração de natureza ética», como define Roberto Saturnino Braga no seu blogue Ética e Política
http://www.portalmedico.org.br/biblioteca_virtual/des_etic/3.htm
Esta visão pragmática é talvez a que mais moldou o conceito de Política do Mundo Ocidental, motivo pelo que a «Mentira» foi, muito provavelmente associada ao exercício do poder, pressupondo que o mesmo fosse enganoso.
O termo grego alethéia significa a verdade ou o caminho para a verdade, ou do esquecimento, pois lethe significa esquecimento. Platão, através da personagem de Sócrates acreditava que conhecer a verdade seria retornar aos conceitos esquecidos para a busca da verdade, pois as verdades estavam em nós esquecidas. O meio para que chegássemos à “verdade absoluta”.
Contudo, é também Platão que admite que a mentira seja permitida excepcionalmente na organização da Polis Justa, se fosse usada para enganar os inimigos ou a própria comunidade, desde que trouxesse vantagens para a mesma, ressalvando, contudo, que a MENTIRA só fosse permitida aos governantes por eles possuírem a Sabedoria necessária, pressuposto que, obviamente, não se pode transpor para os nossos dias. Também os médicos tinham direito, segundo o filósofo grego, ao uso da "mentira útil", aquela capaz de agir como um fármaco sobre os indivíduos e sobre a pólis em estado de doença.
Platão admitia, portanto, para sociedade perfeita uma estratificação social que deveria, como explicita na sua obra com “República”, ter um governo ideal, o do filósofo-rei (Correspondendo ao Ouro, à Sabedoria, Coragem e Temperança). A esse patamar – o da Contemplação e da Exposição das ideias que o Estado devia seguir – só se poderia ascender após décadas de preparação para o efeito, de forma a garantir que fossem escolhidos entre os mais dotados dos guerreiros e que tivessem sido submetidos a particular educação. Depois de terem passado a fase de Guardiães (Simbolicamente associados à Prata, à Coragem e à Temperança) fase em que se deveriam dedicar ao estudo e de trabalho em altos cargos públicos, Abaixo disso, encontrar-se-ia o Bronze, ou a fase de produtores.
Ora, a “verdade absoluta” não existe, pois não se trata de um “Ente” e todos a interpretação da realidade é sempre moldada pelos olhares próprios ou dos nossos conceitos e crenças, já a Mentira como exercício de poder e de manipulação pode tornar-se uma constante perniciosa que envenena relacionamentos e a própria sociabilidade.
Mas como infelizmente a Mentira é tão presente na vida do comum dos mortais, usada como sustentáculo da maioria das relações, aproveito o período do pós-férias, onde tantos simulacros de paraíso e de prestígio social ou de bem-estar se projectam, para fazer um repto: pensar a mentira, como mais um exercício de prepotência de alguns que sobre os outros (os que acreditam e os que, mentindo também, num processo de mimético, fazem crer que acreditam).
Porque poderia a Mentira ser um pecado capital? Porque, efectivamente, pode moldar todos os outros "Pecados Capitais", transmutando-se de forma substantiva em forma adjectival de todos eles?
Porque é que a Soberba, a Luxúria, a Ira, ou mesmo a Gula são tantas vezes meras subsidiárias da «Mentira»? Ou talvez sejam a sua consequência.
E, contudo, nada pode envenenar mais a vida do que a «Mentira» ou a «Não Palavra». Não digo a Palavra Não Dita, ou a omissão, mas, a «não Palavra», enquanto isso mesmo, enquanto o contrário do que é.
A mentira é o pecado por excelência, tendo sempre por companheira a cobardia, a desonestidade, a vaidade de se querer ser o que não se é, ou pânico do confronto de nós para nós e do sentir a pele e a Alma!
E a dúvida, mãe da descrença, não será também ela senão filha da ausência da "Palavra" ou da "Mentira"? E com ela, da ausência do gesto?
A mentira pode fazer elouquecer!
Deveria ser punível como outra coisa qualquer - é o roubo da alma de quem nela crê.
Não obstante, ao mentir, é a nós próprios que estamos a enganar. É a nós que estamos a falsear.
E, apesar de tudo, há quem se disponha sempre a acreditar na mentira, porque dela lhe advém algum prazer especial, algum proveito ou, pura e simplesmente, porque gosta de ser enganado e assim poderá enganar também.
Por isso, até o Senhor, O Senhor da Palavra e da Crença, precisou do valor da palavra e do gesto e disse «Por que estais aflitos e por que se levantam dúvidas em vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, porque um espírito não tem carne e ossos assim como observais que eu tenho. (e dizendo isto mostrou-lhes as suas mãos e seus pés). (...) Disse-lhes então: "Estas são as minhas palavras de que vos falei enquanto ainda estava convosco, que todas as coisas escritas na lei de Moisés, e nos profetas, e nos Salmos, a respeito de mim, têm de se cumprir" (...) haveis de ser testemunhas destas coisas.
(Lucas 24:39). Sagradas Escrituras.
Que o retorno das férias nos traga uma depuração especial
quinta-feira, agosto 14
quarta-feira, julho 16
sexta-feira, junho 20
Cris, para ti, finalmente, a cabeça de S. João Baptista, pois não tarda está o dia do Santo a chegar (actualizado de Maio 2008)
Hoje, abrindo o site do Museu Nacional de Arte Antiga, a propósito da nota anteriormente feita, encontrei como uma das "peças" notáveis deste Museu a pintura intitulada "Salomé" de Lucas Cranach e outra de S. João Evangelista.

Pintura: Salomé, Lucas Cranach, MNAA, IMC
http://mnaa.imc-ip.pt/
E recordei o que aqui já tinha dedicado a esta personagem.
«Nem sei porquê, lembrei-me de um dia em que, no Porto, assisti serenamente às festas de S. João, no último andar de um Hotel, e que as gaivotas assustadas com o fogo de artifício se dirigiam para terra, para o lugar onde me encontrava a ver a cidade que se estendia até ao Douro.
Por esse dia de S. João, por tudo o que representa o Solstício de Verão, decidi-me retomar a história do Santo e da mítica Salomé.

Imagem: Oscar Wilde como Salomé.WIKIPÉDIA
«Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, e ele disse aos seus cortesãos: "Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos, e, por isso, tais poderes miraculosos se manifestam n'Ele". Herodes, com efeito, depois de prender João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, pois João dizia-lhe "Não a podes ter contigo". Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Heroíade dançou em público e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: "Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Baptista". O rei ficou penalizado, mas devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Batista na prisão. Trouxeram num prato a cabeça e deram-na à jovem, que a levou à mãe. Os discípulos vieram buscar o cadáver e sepultaram-no, depois foram dar a notícia a Jesus». Envangelho Segundo S. Mateus, Execução do Baptista
A história de Salomé, como é mais divulgada, é uma história de luxúria e perversidade, e Salomé foi sempre tida como o abismo da sensualidade.
Salomé foi, depois de Eva, considerada a mulher mais malvada da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido por parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais a atenção que mereceu a jovem Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
À partida, pela sua beleza e sendo de estirpe real, Salomé teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, é possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus intentos. A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos - um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus - e foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista. (in Wikipédia).
Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande, a quem o imperador romano Calígula dera o governo da Galileia e de Pereia.
Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias (ou Herodíades) sua cunhada, tendo com ela casado, violando a lei que o interditava.
Herodes e Herodias viviam um idílio que era denunciado pela voz de um estranho homem, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a sua recente esposa. Esse homem vivia numa pobreza assumida, como forma de despojamento dos bens terrenos, e tinha como indumantária apenas uma pele de camelo, apertada com um cinto, alimentando-se no deserto da água da chuva, frutos silvestres, gafanhotos e mel, como conta a tradição.
João tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo como viviam, ao ponto de ser odiada por Herodias. Era conhecido por João Baptista, porque baptizava nas águas do Jordão todos aqueles que acreditavam que um dia a lei dos homens seria alterada com a chegada de um "messias", anunciando a chegada do Salvador - Jesus Cristo - a quem acabou por baptizar.
Por sua vez, a bela Salomé, filha de Herodias, fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso pelo irmão, passeando-se, segundo reza a lenda, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio.
Flaubert, Oscar Wilde, Mallarmé e Eugénio de Castro, Carlos Saura, para só citarmos alguns criadores, vestiram e despiram Salomé como o símbolo da perfídia e da sensualidade.
Deram-lhe e tiraram-lhe ingenuidade e candura ou carregaram-na com paixões mórbidas e a mais repugnante perfídia, conforme a veia criativa os inspirou.
É certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real.
Para lá dos mitos criados nos 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista.
No Evangelho de Mateus, aparece apenas com uma simples referência (...) O historiador hebreu Flávio Josefo também se refere a ela, dizendo: Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente" (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico - do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785). Bailarinas e escravas, não eram consideradas convivas e estavam ali para o prazer dos convidados (in Wikipedia).
Herodes era um homem pouco culto, medroso, ignorante, pouco mais do que um nómada, e tinha medo do profeta. O tetrarca mandou que o trouxessem à sua presença, pois queria ouvi-lo. João repetiu-lhe o que já dissera antes, que o casamento dele com a cunhada era "sacrílego" segundo as leis. E mais, disse-lhe que a repudiasse e que voltasse para a mulher legítima, que expulsara injustamente, e que, se não o fizesse, cairia a maldição sobre Israel. Herodes, sob pressão de Herodias, mandou-o encarcerar numa prisão-cisterna.
(...) Herodes (...) vivia torturado entre o prazer e o dever. Era fraco. Não resistia às artimanhas da cunhada, agora sua mulher, que se dizia ter casado com ele apenas por interesse. Ora Herodes nada tinha que se comparasse com o pai, Herodes, "o Grande", que, na religião católica, ficou conhecido por ter ordenado a "matança dos inocentes", isto é, ter mandado executar todas as crianças com menos de dois anos, quando ouviu dizer que um novo rei viria. Esse rei era afinal e apenas "o menino de Nazaré" e o seu reino não seria deste mundo.
(...)
Herodes Antipas quis esquecer que as palavras de João o torturavam e não o deixavam dormir. Era o seu aniversário e quis festejá-lo com toda a pompa (...)Foram convidados todos os príncipes, que acorreram da Judeia e da Galileia e trouxeram os seus séquitos. Bailarinas de longes paragens vieram com a sua graça animar o banquete. Foram preparadas as melhores iguarias.
Entre cada prato servido, tocava-se música e as bailarinas núbias e egípcias, ao som de alaúdes e flautas esvoaçavam entre os convivas. Os vinhos de Chipre e da Grécia enchiam taças de metais preciosos e reinava a alegria. Na sala do banquete só era permitida a entrada a elementos do sexo masculino (in Wikipedia), pois bailarinas e escravas não eram consideradas convivas e estavam ali apenas para o prazer dos convidados.
Reza a lenda, que a meio da festa, para surpresa de todos, aparece uma bailarina desconhecida, de beleza sem rival, acompanhada de escravas - era Salomé - que foi dançar. Perfumada com sândalo e outras essências tinha nos braços e nos tornozelos pulseiras. Eram as suas vestes tules e finas musselines transparentes ... e então Salomé começou a dançar.
Eugénio de Castro, no seu poema lírico, descreve-a assim:
"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..."
Quando Salomé termina a dança, os convidados de Herodes entusiasmados querem mais. E Herodes, louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez!" Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: "Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!" Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata." Herodes Antlpas fica branco, quase petrificado, não acredita no que ouve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é a bondade que o faz agir assim, ou talvez, lá no fundo, pense que aquele homem não merece a morte, porque não é um criminoso, não atentou contra a vida de ninguém, embora nesse tempo mandar matar fosse quase uma banalidade.
Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: "Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Baptista." E Herodes cede. Tem de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. (...)
Um pouco mais tarde, a cabeça de João Baptlsta é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada. A partir daquele momento, João Baptista é um mártir, é o santo que tantos séculos depois a humanidade não esqueceu.
(...)
Para Oscar Wilde (1854-1900), o autor da mais famosa peça sobre Salomé, escrita para o teatro e para a actriz francesa Sarah Bernhardt, Salomé é a encarnação da perfídia, porque ela amara João, que a não desejou, por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada. A peça é tão impressionante e tão contra os cânones da época que foi proibida em Inglaterra, na Áustria, na Suécia e noutros países. Só em França foi representada, com sucesso, em 1896.
Depois da peça de Oscar Wilde, Richard Strauss fez a música da ópera do drama de Salomé e João Baptista. Houve quem compusesse bailados sobre o tema, mas é na iconografia sobre Salomé que encontramos o maior e mais diversificado número de interpretações: gravuras, desenhos, telas de pequenas e grandes dimensões, esculturas. Quase todos os grandes museus do mundo têm quadros com João Baptista e Salomé. Há representações remotas, sendo conhecidas obras de toda a Idade Média. De referir, em particular, um belíssimo quadro de Filippo Lippi (1406-1469), uma gravura de 1583 da Bíblia Sacra de Antuérpia e outra, também de Antuérpia, de 1715.
Portugal tem no Museu de Arte Antiga quadros sobre o tema e o museu de Tomar alberga, da Escola de Gregório Lopes, do século XVI, um exemplar belíssimo sobre o tema da mulher má e do santo degolado.
Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luini, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns vêem uma Salomé sanguinária, a completa encarnação da maldade, outros uma Salomé ingénua, que terá apenas obedecido à mãe, que lhe sugere o tenebroso pedido. Fosse como fosse, nenhuma mulher foi ou será considerada tão pérfida como Salomé. O grande, o maior pintor de Salomé foi Gustavo Moreau, que, entre esboços, desenhos e telas, terá dado vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões (in Wikipédia)
Pois é amiga, o que terá sido afinal Salomé?
Para mim Salomé não é senão uma vingativa mulher que prefere ver degolado o seu amor, quem o saberá, pois João Baptista não teria sido sempre e tão somente o bondoso homem que o Envangelho retrata, mas também belo e sedudor, tendo, ainda por cima, invadido a intimidade do Palácio a que não pertencia... porque a Santidade é uma longa caminhada.
Talvez o desejo impossível, provavelmente o único que não estava ao alcance da sua perfídia, tenha deixado a infanta enlouquecida e vingativa.
Mas Salomé (terá algum dia perdão?) continuará a seduzir-nos por detrás dos seus olhos belos e provocantes, inscitos na Arte Universal.
Que Salomé reescreverias tu?.

Pintura: Salomé, Lucas Cranach, MNAA, IMC
http://mnaa.imc-ip.pt/
E recordei o que aqui já tinha dedicado a esta personagem.
«Nem sei porquê, lembrei-me de um dia em que, no Porto, assisti serenamente às festas de S. João, no último andar de um Hotel, e que as gaivotas assustadas com o fogo de artifício se dirigiam para terra, para o lugar onde me encontrava a ver a cidade que se estendia até ao Douro.
Por esse dia de S. João, por tudo o que representa o Solstício de Verão, decidi-me retomar a história do Santo e da mítica Salomé.

Imagem: Oscar Wilde como Salomé.WIKIPÉDIA
«Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, e ele disse aos seus cortesãos: "Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos, e, por isso, tais poderes miraculosos se manifestam n'Ele". Herodes, com efeito, depois de prender João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de Filipe, seu irmão, pois João dizia-lhe "Não a podes ter contigo". Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo que o considerava um profeta. Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Heroíade dançou em público e agradou a Herodes, pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. Induzida pela mãe, respondeu: "Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Baptista". O rei ficou penalizado, mas devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem e mandou decapitar João Batista na prisão. Trouxeram num prato a cabeça e deram-na à jovem, que a levou à mãe. Os discípulos vieram buscar o cadáver e sepultaram-no, depois foram dar a notícia a Jesus». Envangelho Segundo S. Mateus, Execução do Baptista
A história de Salomé, como é mais divulgada, é uma história de luxúria e perversidade, e Salomé foi sempre tida como o abismo da sensualidade.
Salomé foi, depois de Eva, considerada a mulher mais malvada da história judaico-cristã. Há poucas figuras femininas no Antigo Testamento que tenham merecido por parte de escritores, autores de teatro, gravadores, pintores e compositores musicais a atenção que mereceu a jovem Salomé, filha de Herodias e sobrinha do tetrarca da Galileia - Herodes Antipas.
À partida, pela sua beleza e sendo de estirpe real, Salomé teria nascido para fazer feliz qualquer mortal, mas o capricho de exigir a cabeça de João Baptista, transformou-a numa proscrita: a jovem que, sob um ar angelical, é possuidora da pior das perfídias, por usar o dom da sedução e o erotismo para conseguir os seus intentos. A Natureza, rezam os historiadores e a lenda, dera-lhe dons magníficos - um corpo escultural, cabelos negros sedosos, olhos de pantera, boca, braços e pernas perfeitos, como os de uma Vénus - e foi todos estes atributos que usou para mandar executar João Baptista. (in Wikipédia).
Herodes Antipas, nascido no ano 10 a. C., era filho de Herodes o Grande, a quem o imperador romano Calígula dera o governo da Galileia e de Pereia.
Herodes Antipas repudiara a mulher legítima e passara a viver com Herodias (ou Herodíades) sua cunhada, tendo com ela casado, violando a lei que o interditava.
Herodes e Herodias viviam um idílio que era denunciado pela voz de um estranho homem, de nome João, que, vindo do deserto, parecia disposto a perturbar o tetrarca e a sua recente esposa. Esse homem vivia numa pobreza assumida, como forma de despojamento dos bens terrenos, e tinha como indumantária apenas uma pele de camelo, apertada com um cinto, alimentando-se no deserto da água da chuva, frutos silvestres, gafanhotos e mel, como conta a tradição.
João tinha uma imensa multidão que o seguia, que ouvia as suas palavras e não deixava de clamar contra Herodes e Herodias, pelo modo como viviam, ao ponto de ser odiada por Herodias. Era conhecido por João Baptista, porque baptizava nas águas do Jordão todos aqueles que acreditavam que um dia a lei dos homens seria alterada com a chegada de um "messias", anunciando a chegada do Salvador - Jesus Cristo - a quem acabou por baptizar.
Por sua vez, a bela Salomé, filha de Herodias, fora viver com a mãe para o novo palácio, depois de o pai ter sido preso pelo irmão, passeando-se, segundo reza a lenda, com vestes finas, deixando tudo e todos envoltos no poder da sua sensualidade, a que não ficavam alheios os olhos do tio, dos guardas e de todos os servidores do palácio.
Flaubert, Oscar Wilde, Mallarmé e Eugénio de Castro, Carlos Saura, para só citarmos alguns criadores, vestiram e despiram Salomé como o símbolo da perfídia e da sensualidade.
Deram-lhe e tiraram-lhe ingenuidade e candura ou carregaram-na com paixões mórbidas e a mais repugnante perfídia, conforme a veia criativa os inspirou.
É certo que esta bela jovem da Galileia teve existência real.
Para lá dos mitos criados nos 20 séculos passados sobre a sua morte, Salomé mantém-se uma figura histórica inesquecível e para sempre ligada ao nome de João Baptista.
No Evangelho de Mateus, aparece apenas com uma simples referência (...) O historiador hebreu Flávio Josefo também se refere a ela, dizendo: Aquela que pediu, por conselho da mãe, Herodias, a cabeça de S. João Baptista, por ter dançado airosamente" (Tesouro Bíblico ou Dicionário Histórico - do Antigo e Novo Testamento, p. 263, Lisboa, 1785). Bailarinas e escravas, não eram consideradas convivas e estavam ali para o prazer dos convidados (in Wikipedia).
Herodes era um homem pouco culto, medroso, ignorante, pouco mais do que um nómada, e tinha medo do profeta. O tetrarca mandou que o trouxessem à sua presença, pois queria ouvi-lo. João repetiu-lhe o que já dissera antes, que o casamento dele com a cunhada era "sacrílego" segundo as leis. E mais, disse-lhe que a repudiasse e que voltasse para a mulher legítima, que expulsara injustamente, e que, se não o fizesse, cairia a maldição sobre Israel. Herodes, sob pressão de Herodias, mandou-o encarcerar numa prisão-cisterna.
(...) Herodes (...) vivia torturado entre o prazer e o dever. Era fraco. Não resistia às artimanhas da cunhada, agora sua mulher, que se dizia ter casado com ele apenas por interesse. Ora Herodes nada tinha que se comparasse com o pai, Herodes, "o Grande", que, na religião católica, ficou conhecido por ter ordenado a "matança dos inocentes", isto é, ter mandado executar todas as crianças com menos de dois anos, quando ouviu dizer que um novo rei viria. Esse rei era afinal e apenas "o menino de Nazaré" e o seu reino não seria deste mundo.
(...)
Herodes Antipas quis esquecer que as palavras de João o torturavam e não o deixavam dormir. Era o seu aniversário e quis festejá-lo com toda a pompa (...)Foram convidados todos os príncipes, que acorreram da Judeia e da Galileia e trouxeram os seus séquitos. Bailarinas de longes paragens vieram com a sua graça animar o banquete. Foram preparadas as melhores iguarias.
Entre cada prato servido, tocava-se música e as bailarinas núbias e egípcias, ao som de alaúdes e flautas esvoaçavam entre os convivas. Os vinhos de Chipre e da Grécia enchiam taças de metais preciosos e reinava a alegria. Na sala do banquete só era permitida a entrada a elementos do sexo masculino (in Wikipedia), pois bailarinas e escravas não eram consideradas convivas e estavam ali apenas para o prazer dos convidados.
Reza a lenda, que a meio da festa, para surpresa de todos, aparece uma bailarina desconhecida, de beleza sem rival, acompanhada de escravas - era Salomé - que foi dançar. Perfumada com sândalo e outras essências tinha nos braços e nos tornozelos pulseiras. Eram as suas vestes tules e finas musselines transparentes ... e então Salomé começou a dançar.
Eugénio de Castro, no seu poema lírico, descreve-a assim:
"Radioso véu, mais leve que um perfume,
Cinge-a, deixando ver sua nudez morena,
Dos seus dedos flameja o precioso lume
E em cada mão traz uma pálida açucena.
E a infanta avança. ao som dos burcelins...
Como sonâmbula perdida
Em encantos, místicos jardins,
Dir-se-ia que dança desmaiando
Ao perfume das flores que estão em roda...
Dir-se-ia que dança e está sonhando...
Dir-se-ia que a estão beijando toda..."
Quando Salomé termina a dança, os convidados de Herodes entusiasmados querem mais. E Herodes, louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez!" Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca seu tio insiste: "Dança para mim outra vez! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu!" Salomé hesita, mas depois, num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Baptista numa bandeja de prata." Herodes Antlpas fica branco, quase petrificado, não acredita no que ouve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é a bondade que o faz agir assim, ou talvez, lá no fundo, pense que aquele homem não merece a morte, porque não é um criminoso, não atentou contra a vida de ninguém, embora nesse tempo mandar matar fosse quase uma banalidade.
Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: "Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Baptista." E Herodes cede. Tem de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. (...)
Um pouco mais tarde, a cabeça de João Baptlsta é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada. A partir daquele momento, João Baptista é um mártir, é o santo que tantos séculos depois a humanidade não esqueceu.
(...)
Para Oscar Wilde (1854-1900), o autor da mais famosa peça sobre Salomé, escrita para o teatro e para a actriz francesa Sarah Bernhardt, Salomé é a encarnação da perfídia, porque ela amara João, que a não desejou, por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada. A peça é tão impressionante e tão contra os cânones da época que foi proibida em Inglaterra, na Áustria, na Suécia e noutros países. Só em França foi representada, com sucesso, em 1896.
Depois da peça de Oscar Wilde, Richard Strauss fez a música da ópera do drama de Salomé e João Baptista. Houve quem compusesse bailados sobre o tema, mas é na iconografia sobre Salomé que encontramos o maior e mais diversificado número de interpretações: gravuras, desenhos, telas de pequenas e grandes dimensões, esculturas. Quase todos os grandes museus do mundo têm quadros com João Baptista e Salomé. Há representações remotas, sendo conhecidas obras de toda a Idade Média. De referir, em particular, um belíssimo quadro de Filippo Lippi (1406-1469), uma gravura de 1583 da Bíblia Sacra de Antuérpia e outra, também de Antuérpia, de 1715.
Portugal tem no Museu de Arte Antiga quadros sobre o tema e o museu de Tomar alberga, da Escola de Gregório Lopes, do século XVI, um exemplar belíssimo sobre o tema da mulher má e do santo degolado.
Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luini, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns vêem uma Salomé sanguinária, a completa encarnação da maldade, outros uma Salomé ingénua, que terá apenas obedecido à mãe, que lhe sugere o tenebroso pedido. Fosse como fosse, nenhuma mulher foi ou será considerada tão pérfida como Salomé. O grande, o maior pintor de Salomé foi Gustavo Moreau, que, entre esboços, desenhos e telas, terá dado vida a uma única Salomé em mais de uma centena de versões (in Wikipédia)
Pois é amiga, o que terá sido afinal Salomé?
Para mim Salomé não é senão uma vingativa mulher que prefere ver degolado o seu amor, quem o saberá, pois João Baptista não teria sido sempre e tão somente o bondoso homem que o Envangelho retrata, mas também belo e sedudor, tendo, ainda por cima, invadido a intimidade do Palácio a que não pertencia... porque a Santidade é uma longa caminhada.
Talvez o desejo impossível, provavelmente o único que não estava ao alcance da sua perfídia, tenha deixado a infanta enlouquecida e vingativa.
Mas Salomé (terá algum dia perdão?) continuará a seduzir-nos por detrás dos seus olhos belos e provocantes, inscitos na Arte Universal.
Que Salomé reescreverias tu?.
terça-feira, junho 10
À Natália Correia, de novo, a elegia do amor. Também para ti o meu Dia de Portugal, contraponto às belas "Cartas Portuguesas" (reeditado de JUN 08).

Felicidade?
Será pôr lençóis de flores na cama,
esperando no leito o macho manchado,
com o cheiro acre a outras mulheres?
Ou ter televisão a cores, no quarto onde vamos dormir?
Será a toalha de nylon, gasta, de tanto lavar ...?
pratos de pyrex leitosos, em Domingos, todos iguais?
e mesmo assim dizer ... sou feliz, com marido meu, pois está bem guardado,
no meu lar!
Continuando a dizer que sempre a mim vai regressar.
Doa o que doer, pois é esse o meu e o seu lugar.
E continuar a fingir, fingir mais, que se está a acreditar.
Sem frustação!?
Acordar amanhã para limpar o que ele fez, ou o não fez?
Limpar, lixiviar tudo, para continuar a não ver?
Será isso o meu Lar?
Deglutindo os restos do que os outros deitaram fora, e mesmo assim dizer
Júbilo o meu, orgulho este de Mulher.
A humilhação que seja a dos outros... pois é comigo que vai acordar!!!!
E, de novo, recorrente, "perdoar", "perdoar",
aquilo que até é vexame fazer. Pois não somos deuses nem tribunais, mas apenas mulheres.
Não, isso não, antes o copo de vinho bem bebido,
a insónia em pano de linho, mas bebida num copo de cristal
num segredo fino que cheira a morte, mas vivida
e na minha mão! Antes a solidão!
Ou um amante de ocasião...
Maio, Maio meu, que não desisti de viver
que não consegui apenas ser o que os outros esperam de mim!
As minhas mãos têm sentido sem quaisquer outras mãos.
O último golo sorvido?
com gosto a cicuta, a minha morte, mas é o meu.
Antes isso do que morrer nas tuas mãos!
E, de resto, amuralhar, amuralhar! Empurrar.
A tua ilha, emprestada, Natália, de aliança de brilhantes na mão?
Não isso não!
Mais depressa me afundaria nas ondas grandes do teu mar do que na loucura que os outros querem que eu seja
Afinal, se não te sentisses Circe, se não me sentisse eu, que também sou filha de boa gente, que seríamos nós então?
Porque não se retalha a pele dos outros nas rochas sem saber que as marés nos podem engolir também a nós.
Uma coisa é certa, o Sol não brilha agora na tua Ilha.
Porque sem Palavra haverá apenas lugar à penumbra, onde estás.
Por isso me socorro das palavras tuas Natália:
Eram nas Furnas, caldeiras
guelras que o vulcão abria.
Mas se enxofradas as sombras
em chumbo e cachão ferviam,
a luz por vales e lombas
em hortênsias de aspergia,
que não se ganham os deuses
sem demos por mais valia.
Por isso ali o inferno
com o céu não contendia.
Vai ´daí que me ficasse
esta concórdia sadia
de não frequentar negrumes
sem numes por companhia.
Ou o contrário se quiserem
que se Deus dá flor e fera
eu sou por esta harmonia.
Natália Correia, Singelinha, in Poesia Toda.
segunda-feira, maio 26
A minha rua saiu à rua 40 anos depois ...
Na minha rua havia sempre gente, bicicletas, braços partidos, gritos das mães a chamar pelos filhos que não queriam voltar para casa; trotinetas feitas com rolamentos; bicicletas sem travões; festas de anos de mais ricos e mais pobres... havia mangueiradas e bolos feitos de terra nos quintais, onde também se dançava nos carnavais e com o ano a findar.
Na minha rua havia uns "cientistas loucos"; outros atinados já com óculos grossos para observar e, na minha rua, subia-se e descia-se a dizer «supercalifragilixticexpoi lidoce» ... estará mal escrito? Não importa!
Na minha rua houve os primeiros amores e desamores ... as zangas de ocasião e o fumo da paz.
Na minha rua ia-se a caminho da piscina, para tristeza de alguns que, tanta malandrice feita, os viam passar, pois os castigos obrigavam a uma ausência temporária dos feitos de mergulhos em pranchas altas e outros alabarismos mais.
Na minha rua combinavam-se piqueniques, idas ao cinema e os jogos e acampamentos usuais.
Havia as meninas sempre à moda, as mais refilonas e as mais pacatas; havia os sossegados e os dos desacatos.
A minha rua era um mundo que não acabava mais.
Apenas sei que a minha rua saiu hoje à rua e um abraço enorme nos fez cantar «Parabéns», mesmo sem ser dia de anos de ninguém. Porque um dia a rua foi desmembrada e viram-se mortos nos passeios onde costumávanos brincar ...
Hoje não foi a nossa rua o mundo, mas o mundo inteiro que ali se reuniu para nos podermos finalmente abraçar.
Na minha rua havia uns "cientistas loucos"; outros atinados já com óculos grossos para observar e, na minha rua, subia-se e descia-se a dizer «supercalifragilixticexpoi
Na minha rua houve os primeiros amores e desamores ... as zangas de ocasião e o fumo da paz.
Na minha rua ia-se a caminho da piscina, para tristeza de alguns que, tanta malandrice feita, os viam passar, pois os castigos obrigavam a uma ausência temporária dos feitos de mergulhos em pranchas altas e outros alabarismos mais.
Na minha rua combinavam-se piqueniques, idas ao cinema e os jogos e acampamentos usuais.
Havia as meninas sempre à moda, as mais refilonas e as mais pacatas; havia os sossegados e os dos desacatos.
A minha rua era um mundo que não acabava mais.
Apenas sei que a minha rua saiu hoje à rua e um abraço enorme nos fez cantar «Parabéns», mesmo sem ser dia de anos de ninguém. Porque um dia a rua foi desmembrada e viram-se mortos nos passeios onde costumávanos brincar ...
Hoje não foi a nossa rua o mundo, mas o mundo inteiro que ali se reuniu para nos podermos finalmente abraçar.
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