segunda-feira, março 11

Vamos conhecer Lisboa à volta de um café? O Palácio da Ajuda.


Cartaz: José Luís Jesus Martins


http://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AAjudaplanta.jpg

  • José Vasco Pina Serrano Muito boa esta imagem. É possível ver-se a mais escuro o que foi construído e a mais claro o que estava projectado (era giro musealizar a história de um projecto inacabado e o modus construtivo de construção de palacios (fazer mesmo um museu com estaleiro na zona da Calcada da Ajuda e assumir a construção) mas estaleiro/museu com dignidade palaciana  boa semana de trabalho

REAL BARRACA DA AJUDA

Ficha Bibliográfica

[1578243]

GALLI BIBIENA,, Giovanni Carlo,, 1717-1760
[Planta da Real Barraca] [Visual gráfico], [entre 1755 e ca 1769?]. - 1 desenho : tinta da china e aguadas ; 131x72,5 cm. - Nota identificativa, adicionada muito posteriormente, depois de 1802 (data do recomeço das obras do novo Palácio da Ajuda, que tinham sido suspensas, dirigidas agora por José da Costa e Silva, substituindo M. Caetano de Sousa ): " Paso Real incendiado edificado depois do Terremoto de 1755 no Alto da Ajuda dicto vulgarmente a Barraca: no mesmo sitio prezentemente se está construindo o novo Palacio comesado pelo Arquitecto Manuel Caetano de Souza Coronel do Real Corpo de Engenheiros" . - Provável planta original à qual terá sido acrescentada (entre 1774-77?), a legenda remissiva identificativa do uso das salas . - Data da legenda remissiva (entre 1774 e 1777?) atribuída conforme a conclusão da análise dos dados da própria legenda, nomeadamente, segundo o n.º 7 ("Coarto do Principe e do S.r Infante q. esta no seu", ref. ao Príncipe D. José e ao Infante D. João, futuro D. João VI) e n.º 2 ("Coarto do Serenissimo S.r Infante D. Pedro", futuro D. Pedro III): D. João terá deixado os aposentos da senhoras com sete anos, à semelhança de D. José, portanto em 1774 e, por outro lado, D. Pedro apenas até 1777 seria referido como Infante. O facto de ser ainda assinalado nas legendas o quarto de "Pedro José Porteiro da Camara" (Pedro José da Silva Botelho, falecido em 1773) poderá corresponder à permanência do nome pelo qual o quarto ficou a ser conhecido mesmo depois do desaparecimento daquele, como aconteceu em outras dependências do palácio (cf. Abecasis, p. 61). - Segundo C. V. Machado, o traçado da Real Barraca e respectiva Capela Real, ficou a dever-se a J. C. Bibiena, falecido em 1760. - Escala: "0-400 Pallmos". - Planta da construção de madeira (no local do actual Palácio da Ajuda), de provável piso térreo , que alojou a Família Real a seguir ao Terramoto, desde finais de Julho de 1756 (cf. Abecasis, p. 18) até 1794 (data em que ardeu excepto a Livraria, a Sala dos Serenins, a Capela, a Sala da Física, cf. Abecasis, p.147 ), com detalhada legenda remissiva identificativa do uso (53 legendas com numeração remissiva e mais seis, na própria planta, sem numeração, : "Pateo que pertence ao Paso Velho", "Pateo" (vários), "Casinha das Senhoras", "Corpo da Guarda", "Transito da portaria particular" e legenda de difícil leitura junto do n.º 52). - Vestígios subjacentes a lápis de uma diferente numeração das salas e de esboços nos pateos junto ao n.º 43 e 45. - Pela análise desta planta poderá concluir-se que o edifício teria um único piso ligeiramente sobrelevado, sobretudo do lado Poente, para compensar desníveis: algumas das escadas existentes poderiam, também, constituir acessos ao sótão da cobertura . - A planta e alçado da Real Barraca (Acad. Nac. de B. Artes), referidos e reproduzidos por G. de Matos Sequeira (ob. cit.), não são outra versão da planta acima descrita: trata-se, respectivamemnte, de uma sobreposição dos perímetros das duas plantas (Real Barraca e Palácio da Ajuda, com escala) e de uma simples representação do alinhamento da fachada Sul da Real Barraca que, pela desproporção, não se apresenta fiável. - Data da planta interrogada, tribuída segundo o início da construção (1755) e a data (aproximada) da marca de água (ca 1769). - Carimbo da BNP utilizado a partir de 1836 (até 1910). - Marca de água: flor-de-lis dentro de escudo coroado, com borla e nome de fabricante "J. Honig & Zoon[en]", com data aproximada de ca 1769 (cf. Edward Heawood - Watermarks, 1950, n.º 1840) . - Cirilo Volkmar Machado - Collecção de memórias... 1922,, p. 151. - A. Aires de Carvalho - Catálogo da colecção de desenhos. BN, 1977,, n. 631. - Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII- No 2.º Centenário da Morte do Príncipe D. José (1761-1788). Lisboa,, p. 9, p.35. - Maria Isabel Braga Abecasis - A Real Barraca... Lisboa, 2009. - G. de Matos Sequeira - O Palácio Nacional da Ajuda, 1961,, p. 10-16. - Legenda remissiva numérica com ortografia actualizada: 1. Sala dos Archeiros; 2.Quarto do Sereníssimo Senhor Infante D. Pedro; 3. Quarto d¹El-Rei N.S.; 4. Quarto da Rainha N.S.; 5. Quarto da Princesa; 6. Quarto das Senhoras Infantas; 7. Quarto do Príncipe e do Senhor Infante que está no seu; 8. Sala do Porteiro da Cana; 9. Sala dos Viadores; 10. Salas do Donzel d¹El-Rei N.S.; 11. Sala do Donzel da Rainha N.S.; 12. Salas do Donzel da Princesa; 13. Sala de passagem para a Sala do Donzel da Princesa; 14.Oratório; 15. Tribuna; 16. Sala da Mesa de Estado; 17. Camaristas; 18. Viadores; 19.Estêvão Pinto; 20. Tapeçaria; 21. Adro da Capela; 22. Igreja da Capela; 23. Livraria; 24.Tesouro; 25. Casa da Cera; 26. Quartos de Porteiros da Cana, Reposteiros, Varredores; 27. Conselho de Estado; 28. Confessor d¹El-Rei N. S.; 29. Confessor da Rainha N. S.; 30. Confessor da Princesa; 31. Pedro José Porteiro da Camara; 32. Guarda-roupa d¹El-rei N. S.; 33. Domingos Carvalho; 34. Guarda-roupa do serviço do Senhor Infante D. Pedro; 35. Cirurgiões da Camara; 36. Médicos da Camara; 37. Sargento-Mor Francisco [Fernando?] da Cunha; 38. Casa do Porteiro das Damas; 39. Portaria das damas; 40. Portaria Alta; 41. Quarto da Camareira-Mor; 42. Casas para a Marquesa aia que se não fizeram; 43.Casa da Espera da Rainha N. S.; 44. Casa da Música; 45. Guarda-roupas da Rainha N.S. e Princesa com pavimento superior; 46. Guarda-roupas das Senhoras; 47. Guarda-roupas da Princesa; 48. Camareira-mor; 49. Quartos das criadas; 50. Cozinhas; 51. Cozinhas novas; 52. Quarto das damas com pavimento superior; 53. Jardim das Senhoras . - . - Legendas dispersas na própria planta: Pátio [vários]; Pátio que pertence ao Paço Velho; Casinha das Senhoras; Transito da Portaria Particular; Corpo da Guarda; [anotação de difícil leitura junto ao n.º 52]. - A Real Barraca (levantamento da fachada Sul) está assinalada na Vista de Lisboa, 1763,de Bernardo de Caula, n.º 34 da respectiva legenda remissiva [BNP D. 177 R.]
REAL BARRACA DA AJUDA

Ficha Bibliográfica

[1578243]

GALLI BIBIENA,, Giovanni Carlo,, 1717-1760
[Planta da Real Barraca] [Visual gráfico], [entre 1755 e ca 1769?]. - 1 desenho : tinta da china e aguadas ; 131x72,5 cm. - Nota identificativa, adicionada muito posteriormente, depois de 1802 (data do recomeço das obras do novo Palácio da Ajuda, que tinham sido suspensas, dirigidas agora por José da Costa e Silva, substituindo M. Caetano de Sousa ): " Paso Real incendiado edificado depois do Terremoto de 1755 no Alto da Ajuda dicto vulgarmente a Barraca: no mesmo sitio prezentemente se está construindo o novo Palacio comesado pelo Arquitecto Manuel Caetano de Souza Coronel do Real Corpo de Engenheiros" . - Provável planta original à qual terá sido acrescentada (entre 1774-77?), a legenda remissiva identificativa do uso das salas . - Data da legenda remissiva (entre 1774 e 1777?) atribuída conforme a conclusão da análise dos dados da própria legenda, nomeadamente, segundo o n.º 7 ("Coarto do Principe e do S.r Infante q. esta no seu", ref. ao Príncipe D. José e ao Infante D. João, futuro D. João VI) e n.º 2 ("Coarto do Serenissimo S.r Infante D. Pedro", futuro D. Pedro III): D. João terá deixado os aposentos da senhoras com sete anos, à semelhança de D. José, portanto em 1774 e, por outro lado, D. Pedro apenas até 1777 seria referido como Infante. O facto de ser ainda assinalado nas legendas o quarto de "Pedro José Porteiro da Camara" (Pedro José da Silva Botelho, falecido em 1773) poderá corresponder à permanência do nome pelo qual o quarto ficou a ser conhecido mesmo depois do desaparecimento daquele, como aconteceu em outras dependências do palácio (cf. Abecasis, p. 61). - Segundo C. V. Machado, o traçado da Real Barraca e respectiva Capela Real, ficou a dever-se a J. C. Bibiena, falecido em 1760. - Escala: "0-400 Pallmos". - Planta da construção de madeira (no local do actual Palácio da Ajuda), de provável piso térreo , que alojou a Família Real a seguir ao Terramoto, desde finais de Julho de 1756 (cf. Abecasis, p. 18) até 1794 (data em que ardeu excepto a Livraria, a Sala dos Serenins, a Capela, a Sala da Física, cf. Abecasis, p.147 ), com detalhada legenda remissiva identificativa do uso (53 legendas com numeração remissiva e mais seis, na própria planta, sem numeração, : "Pateo que pertence ao Paso Velho", "Pateo" (vários), "Casinha das Senhoras", "Corpo da Guarda", "Transito da portaria particular" e legenda de difícil leitura junto do n.º 52). - Vestígios subjacentes a lápis de uma diferente numeração das salas e de esboços nos pateos junto ao n.º 43 e 45. - Pela análise desta planta poderá concluir-se que o edifício teria um único piso ligeiramente sobrelevado, sobretudo do lado Poente, para compensar desníveis: algumas das escadas existentes poderiam, também, constituir acessos ao sótão da cobertura . - A planta e alçado da Real Barraca (Acad. Nac. de B. Artes), referidos e reproduzidos por G. de Matos Sequeira (ob. cit.), não são outra versão da planta acima descrita: trata-se, respectivamemnte, de uma sobreposição dos perímetros das duas plantas (Real Barraca e Palácio da Ajuda, com escala) e de uma simples representação do alinhamento da fachada Sul da Real Barraca que, pela desproporção, não se apresenta fiável. - Data da planta interrogada, tribuída segundo o início da construção (1755) e a data (aproximada) da marca de água (ca 1769). - Carimbo da BNP utilizado a partir de 1836 (até 1910). - Marca de água: flor-de-lis dentro de escudo coroado, com borla e nome de fabricante "J. Honig & Zoon[en]", com data aproximada de ca 1769 (cf. Edward Heawood - Watermarks, 1950, n.º 1840) . - Cirilo Volkmar Machado - Collecção de memórias... 1922,, p. 151. - A. Aires de Carvalho - Catálogo da colecção de desenhos. BN, 1977,, n. 631. - Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII- No 2.º Centenário da Morte do Príncipe D. José (1761-1788). Lisboa,, p. 9, p.35. - Maria Isabel Braga Abecasis - A Real Barraca... Lisboa, 2009. - G. de Matos Sequeira - O Palácio Nacional da Ajuda, 1961,, p. 10-16. - Legenda remissiva numérica com ortografia actualizada: 1. Sala dos Archeiros; 2.Quarto do Sereníssimo Senhor Infante D. Pedro; 3. Quarto d¹El-Rei N.S.; 4. Quarto da Rainha N.S.; 5. Quarto da Princesa; 6. Quarto das Senhoras Infantas; 7. Quarto do Príncipe e do Senhor Infante que está no seu; 8. Sala do Porteiro da Cana; 9. Sala dos Viadores; 10. Salas do Donzel d¹El-Rei N.S.; 11. Sala do Donzel da Rainha N.S.; 12. Salas do Donzel da Princesa; 13. Sala de passagem para a Sala do Donzel da Princesa; 14.Oratório; 15. Tribuna; 16. Sala da Mesa de Estado; 17. Camaristas; 18. Viadores; 19.Estêvão Pinto; 20. Tapeçaria; 21. Adro da Capela; 22. Igreja da Capela; 23. Livraria; 24.Tesouro; 25. Casa da Cera; 26. Quartos de Porteiros da Cana, Reposteiros, Varredores; 27. Conselho de Estado; 28. Confessor d¹El-Rei N. S.; 29. Confessor da Rainha N. S.; 30. Confessor da Princesa; 31. Pedro José Porteiro da Camara; 32. Guarda-roupa d¹El-rei N. S.; 33. Domingos Carvalho; 34. Guarda-roupa do serviço do Senhor Infante D. Pedro; 35. Cirurgiões da Camara; 36. Médicos da Camara; 37. Sargento-Mor Francisco [Fernando?] da Cunha; 38. Casa do Porteiro das Damas; 39. Portaria das damas; 40. Portaria Alta; 41. Quarto da Camareira-Mor; 42. Casas para a Marquesa aia que se não fizeram; 43.Casa da Espera da Rainha N. S.; 44. Casa da Música; 45. Guarda-roupas da Rainha N.S. e Princesa com pavimento superior; 46. Guarda-roupas das Senhoras; 47. Guarda-roupas da Princesa; 48. Camareira-mor; 49. Quartos das criadas; 50. Cozinhas; 51. Cozinhas novas; 52. Quarto das damas com pavimento superior; 53. Jardim das Senhoras . - . - Legendas dispersas na própria planta: Pátio [vários]; Pátio que pertence ao Paço Velho; Casinha das Senhoras; Transito da Portaria Particular; Corpo da Guarda; [anotação de difícil leitura junto ao n.º 52]. - A Real Barraca (levantamento da fachada Sul) está assinalada na Vista de Lisboa, 1763,de Bernardo de Caula, n.º 34 da respectiva legenda remissiva [BNP D. 177 R.]

Não gosto ·  ·  · 23/2 às 8:07



Aqui a corte acampou um dia, no “barracão da Ajuda” … quando Lisboa estava engolida pelo mar; fendida a terra, a cidade … não pôde mais … e mudou de lugar.

No alto, alcantilada, nasceu um outro centro do poder que, já decandente, mesmo assim, teimava em criar o seu novo lugar.








José Luis Jesus Martins adicionou fotos ao álbum IGREJA DA MEMÓRIA | 10 de Março de 2013.

























Ou vamos visitar ali mesmo na Ajuda a Igreja da Memória, ou, mais propriamente, da triste memória, cuja construção se deve a D. José, em lembrança de se ter salvo da tentativa de assassínio de que fora alvo neste local, tendo-se iniciado as obras por volta de Maio de 1760, e a primeira pedra lançada em 3 de Setembro desse mesmo ano.  Lembra a história, irónica tantas vezes, que regressava D. José de um encontro secreto com uma dama da família Távora quando a carruagem onde se deslocava foi atacada, tendo sido atingido um braço.  O facto deu a Pombal o pretexto de que ele precisava para dizimar a família Távora, sendo a sua tortura e execução, em 1759, um dos momentos mais cruéis da História Portuguesa. 
Ainda hoje no Beco do Chão Salgado, junto da Rua de Belém, se pode ver o pilar que lembra esse trágico momento.
Lá em baixo, na cidade devastada, pontuava o Marquês de Pombal, Sebastião de nome, que, inteligente e perspicaz, ditava a nova cidade das Luzes, debaixo dos seus caracóis ... (escamoteando assim a dor de não pertencer a essa corte secular, mas a uma pequena nobreza sem direito por nascença aos "manás" reais).
Mas dele, das suas mãos e determinação, nasceu a Lisboa rejuvenescida ... e de saber ... de «Luzes» enriquecida, enquanto, lá em cima, cresceu o palácio dos reis, da nobreza cortesã, numa cidade outra, encimesmada e servil..., mas, ainda assim, remoçada pela adversidade que adveio da terra tremer sob os pés reais e, com esse fenómeno sobrenatural, uma onda enorme tudo poder engolir ...
O Palácio da Ajuda, ainda hoje curvado sobre si mesmo, tem, contudo, a capacidade de nos fazer sentir no nosso lugar .... mesmo que, por companhia, apenas tenhamos a corte a resistir!!!.






Porque em cada corredor, ... em cada uma das reminiscências dos seus roubados tapetes, em todas as arquitecturas efémeras que aí ainda se instalam, ou soalhos de liós ... o Palácio continua a fazer parte dos meus lugares.



Antigo Palácio Real, é hoje em grande parte um magnífico Museu, estando instalados no restante edifício a Biblioteca da Ajuda, o Ministério da Cultura, e vários Institutos desse Ministério.
Edifício neoclássico da primeira metade do séc. XIX, sob traçado de Francisco Xavier Fabri e José da Costa Silva, foi residência oficial da família real portuguesa, desde o reinado de D. Luís I (1861-1889) até 1910, ano da proclamação da República, quando foi encerrado.


E, ao fim da tarde, atravessados os pátios, e coando-se quase já a luz, dê um passeio pelos jardins que envolvem o Palácio e espreite o Tejo entre o casario da Ajuda.


E a corte acampou no "barracão da Ajuda" ... quando Lisboa estava engolida pelo mar; fendida a terra, a cidade ... não pôde mais ... e mudou de lugar. Lá em cima, alcantilada, nasceu a urbs do poder que, já decandente, mesmo assim, teimava em criar o seu novo lugar.

  




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  1.  No Jardim das Damas

 

Lá em baixo, na cidade devastada, pontuava o Marquês de Pombal, Sebastião de nome, que, inteligente e sagaz, ditava a nova cidade das Luzes, debaixo dos seus caracóis … (escamoteando assim, dizem os malidicentes os piolhos que não o largavam, ou, quem sabe, a dôr de não pertencer a essa corte secular, mas a uma pequena nobreza sem direito por nascença aos “manás” reais).

Mas dele, das suas mãos e determinação, nasceu a Lisboa rejuvenescida … e de saber … de «Luzes» enriquecida, enquanto, lá em cima, cresceu o palácio dos reis, da nobreza cortesã, numa cidade outra, encimesmada e servil…, mas, ainda assim, remoçada pela adversidade que adveio da terra tremer sob os pés reais e, com esse fenómeno sobrenatural, uma onda enorme tudo poder engolir …

O Palácio da Ajuda, ainda hoje curvado sobre si mesmo, tem, contudo, a capacidade de nos fazer sentir no nosso lugar …. mesmo que, por companhia, apenas tenhamos a corte que ainda quer resistir!!!

Porque em cada canto, … em cada uma das reminiscências dos seus roubados tapetes, em todas as arquitecturas efémeras que aí ainda se instalam, ou nos corredores de liós … o Palácio continua a fazer parte dos meus lugares.

No Antigo Palácio Real, hoje em grande ainda ocupado como Museu, acolhe no restante edifício a fabulosa Biblioteca da Ajuda, o emagrecido Ministério da Cultura, hoje apenas Secretaria de Estado. 
Sob o traçado de Francisco Xavier Fabri e José da Costa Silva, este edifício neoclássico da primeira metade do séc. XIX foi residência oficial da família real portuguesa, desde o reinado de D. Luís I (1861-1889) até 1910, ano da proclamação da República, quando foi encerrado, passando a funcionar como museu em 1968, pelo que se pode reviver ambientes oitocentistas , viajando entre importantes colecções de artes decorativas dos séculos XVIII e XIX: dos têxteis ao mobiliário passando pela ourivesaria, e cerâmica, bem como de pintura, escultura e fotografia.
Para não peder a sua vocação, o Palácio alberga ainda os lautos festins que a Presidência da República realiza para celebrar as mais importantes cerimónias de Estado.

E, ao fim da tarde, coando-se quase já a luz, darei um passeio pelos jardins que envolvem o Palácio,  espreitando o Tejo entre o casario da Ajuda.


Do Alto da Ajuda. Fotografia Filomena Barata

































Lá em baixo esperam-nos os Jerónimos, o Museu de Arqueologia a torre e o padrão, e, de regresso a casa, quero que comigo tenha vindo tão bela essa sua Luz.

quinta-feira, março 7

Do grito feminista ou 30 dias na vida de uma mulher: o meu manifesto (reed.)


Se fosse daquelas ladainhas de mau gosto que nos pedem para reencaminhar que aqui vos acabasse por deixar que diriam?
Daquelas cheias de slides feitos a metro na internet com senhoras de bom coração e com rosas na mão oferecidaspor todas as instituições?
Diriam, bolas ... as mulheres são assim: todas sãs, lutadoras, belas, sábias, compreensivas, boas esposas e mães e ainda lhes sobra vagar?

Mesmo quem não gosta de ladainhas, como é o meu caso, encolheria os ombros ... ou, quem sabe, em dia de menor inspiração, quase se sentisse tentada a mandar uma delas, apenas como forma de dizer «olá, estou aqui».



E que tal uma ladainha deste tipo «Que faz uma mulher em trinta dias»?:

- Vai trabalhar ao mesmo tempo que paga as contas, penando como se resolve só e sem um a um o Euro do subsídio de Natal que não recebeu?
- Não se esquece que há o empréstimo da casa que não pode ficar sem saldar?
- Lembra-se que é o mês dos seguros e da inspecção e que tem que ir à revisão do carro com gastos acrescidos para pagar?
- Visita o namorado, o amor, o amante, mesmo sabendo que coisa fácil poderá não ser, pois exige árdua preparação?
- Acaba o artigo que tem para acabar, ainda antes de o ir visitar, como se fora o prémio dos céus que a si própria se dá, e inventa tempo para pensar como se vestirá, porque um acontecimento de tal natureza merece fatos de ocasião?
- Presta as provas que tinha para fazer e trata de sacos de filhos que havia que preparar?
- Relembra a nova escola que há que decidir e vai às reuniões, assumindo-se como encarregado de educação?
- Mantém os escritos em dia, as cartas respondidas e as amigas e amigos com os mimos devidos a quem lhes quer bem?
- Sorri, mas não em demasia, porque chorar, nem pensar: é assunto praticado debaixo da almofada, porque com crianças, dizem, há que o saber evitar?
- Guarda saldo no telemóvel para não faltar para os cumprimentos de mãe ou para algum trabalho que ficou, sem querer, por acabar?
- Pensa no mar como sossego e a partir dele histórias ainda consegue tecer?

Faz tudo isso e muito mais do que está nesta "ladainha", apenas uma daquelas que pode ser reencaminhada, porque das mulheres tudo se espera, menos que vá alucinar; nem ser inteligente de mais, pode parecer "iluminada" e isso cai mal; não refilar nem ser acertiva em demasia, pois incomoda qualquer um, e, principalmente, a elas se exige que tudo guardem no mais íntimo do seu ser, porque há coisas de que "não se pode falar", que não se podem dizer, muito menos sem ser no recato e intimidade do lar.

Que achariam leitores?

Mas não, não é uma ladainha que vos quero deixar, porque delas me destaco veementemente e estamos todos fartos, mas um Manisfesto ou Grito feminista. O meu:

1 - Descarreguem o fardo, porque quem pariu certamente não concebeu só, e ser mãe é uma alegria e não apenas uma "obrigação";

2 - Façam apenas os deveres que vos cabem, mas com toda a convicção;
3 - Amem e desejem, sim, e sem vergonha, desde que seja por vossa livre vontade e convicção e quem com isso se atrapalhar é porque não vos soube querer ou mesmo entender;
4 - Calem apenas o que não vos aprouver falar;
5 - Não se preocupem em agradar, senão porque vos faz bem;

6 - Gritem, chorem ou dancem, pois faz parte de viver;
7 - Não temam a inteligência, mas antes cerrem fileiras à arrogância e à estupidez;
8 - Lutem por tudo que vos assume como livres e iguais;
9 - Inventem histórias, também, porque isso faz sonhar.
10 - Nunca temam estar sós, porque faz parte de viver.





E vão ver o mar, levando o MP4 com a gravação da Joana Bagulho, quando o cansaço vos visitar ... porque a vida é só uma e há que a pegar bem nas mãos! Afinal somos MULHERES e não robots!

quarta-feira, março 6

Mulheres ao luar, a propósito da poesia de Ruy Belo




O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra ve a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida


Ruy Belo, Orla Marítima, in Todos os Poemas


terça-feira, março 5

Poemas, Victor Hugo


«Vi um anjo branco que sobre mim passava;
O seu voo luminoso a tormenta acalmava,
E fazia calar ao longe o mar ruidoso.
- Que vens fazer, anjo, neste lugar tenebroso?
Respondeu: - A tua alma eu venho buscar.
Tive medo porque ouvi uma mulher a falar;
E disse-lhe, estendendo os braços a tremer:
- Que me restará? pois tu vais desaparecer.
Calou-se; o céu onde a sombra leva a palma


Escurecia ... Disse: Se levares a minha alma,
Aonde a levarás? mostra-me pra que lugar.
Continuava calado. - Ó viajante do celeste lar,
Serás tu a morte? perguntei, ou és a vida?
Senti sobre a minha alma a noite estendida,
E o anjo tornou-se negro, dizendo: Sou o amor.
A fronte era mais clara que o dia em seu esplendor,
E eu via, na sombra onde luzia o seu olhar,
Os astros, através das asas, a brilhar».


                                                                        Victor Hugo, in Poemário, Assírio &Alvim, 2008

Recuerdos (Grândola, 1985)


segunda-feira, março 4

À Luísa Amaral



 Para a Luísa Amaral, pela carta que gostaria de lhe ter escrito hoje e que não consegui. 
Mas sei que esta é para ela, de Grândola, em 1985. Embora um pouco elegível, ela entenderá.
E sei que nem o Tempo nos afastou.

«Quero acordar! Preciso acordar.
Um café tomado à pressa.
- Tenho que reagir a esta tremura, não posso deixar que os sonhos da noite me continuem a habitar o dia.
Decididamente tenho que acordar.
A rádio informa com um tom distante "Hoje é dia da Mulher". Poderia dizer dia do deficiente, da música, do pai ou dos namorados. Tanto faz. E eu fico a pensar - de que mulher estão a falar? ...
Mas calo. Afinal o dia está de Primavera e se pudesse cobrir-me-ia de vestidos cor do dia e faria uma festa de grinaldas de flores frescas no cabelo e nas mãos. Mulher, sim. Hoje e amanhã».



sábado, março 2

Rosa do Mundo


Da concepção o crescimento

Do crescimento a tumefaccção

Da tumefacção o pensamento

Do pensamento a recordação

Da recordação o desejo.


in Rosa do Mundo - 2001, Assírio & Alvim