sexta-feira, abril 12

In Comunidade

Filomena Barata

AS RELIGIÕES MISTÉRICAS NA ANTIGUIDADE - II

Retomo hoje o tema abordado na última crónica, as Religiões Mistéricas na Antiguidade, relembrando, porque voltaremos a falar de Deméter/Ceres e Perséfone/Proserpina, a oração já aqui citada em crónica anterior e que o escritor Apuleio do século II d.C. põe na boca do “asno” no seu «Burro de Ouro» que, em estado desesperado, faz uma prece à Lua, simbolizando todo um conjunto de deusas, entre elas as duas mencionadas.

E é exactamente porque estando nós na altura em que em Roma se havia acabado de festejar a Cerealia, ou seja os grandes festivais dedicados a Ceres, essa deusa das colheitas de que já falámos, que os romanos enquadravam no período da regeneração do equinócio da Primavera, simbolizando o renascer da Natureza e a chegada do período de fertilidade, que iniciarei novamente esta reflexão, pois a sua importância ao longo do tempo tornou-se bastante visível, acabando por esta festividade ser adoptada pela cristandade, coincidindo com o período que vivemos, ou seja da Páscoa.

Este festival, a Cerealia, onde mulheres vestidas de branco, procuravam pelas ruas de Roma Proserpina com espigas de trigo na mão, pois é ela que facilita a germinação dos cereais e as suas colheitas, pode filiar-se num outro que se realizava na Grécia Antiga, em Elêusis, dedicado a Deméter, denominado como as Tesmofórias que o comediante Aristófanes, no século V, jocosamente descreveu na sua obra «As Mulheres que celebram as Tesmofórias».

O mito de Proserpina e da sua descida aos infernos constituía o núcleo da celebração ritual desse festival, conhecida como o “mistério” de Elêusis.

Os aspirantes a ser iniciados nesses mistérios, na noite de 19 de Setembro, ou seja, no momento aproximado em que se dá o Equinócio do Outono, deslocavam-se de Atenas para Elêusis em procissão, com a cara tapada (“mistos” em grego).

Uma vez introduzidos no santuário ("telesterion"), tomavam uma poção sagrada ("kikeon"), uma espécie de droga obtida de um parasita do grão de cevada que também havia sido transportada processionalmente, num cálice ou "kratera", e sob o efeito da sua "euforia extática", ao amanhecer, era aberta uma cortina por onde entrava luz na sala.

Nesse momento os "mustoi" retiravam a venda e viam o sacerdote sair de um local oculto no templo, junto de uma sacerdotisa que nos braços levava um bebé, ao mesmo tempo que gritava “A divina Brimo deu à luz Brimos".

E, deste modo os "mustoi" (tapados) convertiam-se em "epoptai"

(ou seja, os que tinham visto). Quem pudesse participar ritualmente dessa “visão” viveria tranquilamente, esperando a morte de forma igualmente serena, pois sabiam que poderiam ascender com Perséfone e o seu filho Brimos, nascido nas profundezas, à vida imortal de Deméter.


É assim que Homero na “Ilíada” se refere a esta obtenção do “Eterno” através dos Mistérios de Elêusis: "Afortunado entre os homens terrestres o que os viu; pois o não iniciado nestes mistérios, o que deles não participa, jamais gozará da mesma sorte daquele, quando depois da morte, desça à obscuridade tenebrosa» (vv. 470-480).

Em Atenas, nesta mesma altura, celebravam-se outros festivais, as Anthesterias, um outro "culto mistérico" e suas celebrações orgíacas, cujo protagonista era Dionisos-Baco e as Bacantes, as sacerdotisas, mas que trataremos em próxima crónica, pois hoje recordaremos uma outra divindade que foi figura fundamental do Panteão Romano, o deus da Saúde, Esculápio, que se relaciona ainda com o mito de Deméter de Perséfone.

Escupálio, na designação latinizada, foi uma divindade solar, da medicina e da cura, herdado directamente da mitologia grega, onde tinha os mesmos atributos.

Filho de um casamento entre o deus Apolo e uma mortal, Coronis, segundo nos descreve o poeta Píndaro (522-443 a.C.) parece ter sido retirado do ventre de sua mãe à hora da sua morte, representando assim a vitória da vida sobre a morte.

Tendo nascido como um mortal, aprendeu a medicina, tratando-se de conhecimentos mágicos, com o centauro Chirón e uma serpente ensinou-lhe como usar espécies vegetais para dar vida aos mortos.

Assim Esculápio, adquire do centauro todo o ensinamento sobre o corpo e de seu pai Apolo as leis do Espírito.


Os templos/santuários de Esculápio tinham no seu interior uma espécie de labirinto, onde era guardada a serpente, símbolo telúrico e da vida que renasce e se renova, ou seja da Transformação, motivo porque ela se enrosca no bastão de Esculápio, pois é o bastão que dá à divindade a capacidade de curar.

(Cont.)

Mas a serpente é também o símbolo da Sabedoria, se entendermos a Vida como um processo ou caminho de provações onde aprendemos, mas que também se pode perder se não a aceitarmos, desse modo transformando-se num veneno mortal.

Por todos estes atributos, as serpentes são marcantes dos mitos gregos muito arcaicos: o mito-elemento de Laocoonte, a antiga Hidra de Lerna, que lutou com Hércules, a serpente do mais velho oráculo de Delfos, entre outros, sendo também um dos animais associados ao culto de Mitra de que falaremos em próxima crónica.

Diz ainda a mitologia que o facto de Esculápio não ser um deus, mas detentor de profundos conhecimentos em medicina que lhe permitiam dar vida aos mortos causou algumas perturbações no Olimpo, ao ponto de enfurecer Zeus, o pai dos deuses, que não via com bons olhos o facto de Plutão perder os seus mortos. A sua atitude era encarada por Zeus como sobranceria, pois tomava-a como uma vontade de se tornar um deus, motivo porque o fulminou com um raio.

Apolo, seu pai, inconformado, atacou os Ciclopes, ferreiros que segundo a mitologia só tinham um olho, pois haviam sido eles a executar o raio usado por Zeus.

Perante este facto, Zeus decidiu admiti-lo entre os deuses, mas como punição transformou-o na constelação Ofiúco.

Ao que consta, o seu culto terá começado em Epidauro, mas espalhou-se em muitos outros santuários, a exemplo de Kos, Knidos e Pérgamo, onde os sacerdotes que se dedicavam à cura diziam-se ser seus descendentes.

Deve ter-se introduzido em Roma por volta do final do século III a.C., tendo acabado por tornar-se uma divindade de grande veneração em muitas das províncias do Império.

Os seus santuários passaram a ser locais de cura e tratamento, obtido através da interpretação dos sonhos e da incubatio, ou seja, da indução do sono com a ingestão de ervas.

Ao que parece em todos os santuários haveria um templo, uma fonte purificadora, uma zona de termas, jardins, um teatro, ginásio, uma biblioteca, pois parece que a cura implicava aspectos físicos, mas também espirituais.

O processo de cura, processava-se assim através da purificação na fonte do santuário e através de sacrifícios, sendo feitas oferendas à divindade, como bolos de mel, bolos de queijo e figos. Mas também eram feitas preces, praticando-se o canto de hinos sacros, banhos medicinais, exposição à luz do sol, caminhadas de pés descalços e outros exercícios, bem como uma dieta especial, abstinência de sexo e exercícios físicos. À noite o paciente era dirigido para o seu compartimento “abaton”, onde dormia e se produzia a “enkoimesis”, ou "incubatio", ou seja, a revelação do deus em sonhos. O sonho era então revelado aos sacerdotes, que o interpretavam. Caso a cura fosse efectiva, deveria agradecer-se com um novo sacrifício, então geralmente era oferecido um galo ou mesmo dinheiro. Também podia ser um ex-voto, uma obra de arte, a exemplo de uma estátua, ou mesmo uma obra literária, como um poema que homenageasse a divindade.

Em Miróbriga, Santiago do Cacém, há uma base de estátua onde há uma inscrição dedicada a Esculápio por um «Medicus Pacensis», não havendo, contudo prova de que ali tenha existido um Santuário, propriamente dito, pois as estruturas arqueológicas conhecidas fazem crer a existência de uma cidade com as características comuns às provinciais romanas.

Pelos efeitos curativos de que era dotado, Esculápio tornou-se o patrono dos médicos, fazendo-se representar como um homem barbudo, apoiado por um cajado envolto numa serpente, o caduceu, como acima se referiu e que se tornou também o símbolo da medicina.

Segundo outras lendas do mesmo mito, terá sido Esculápio a relatar a Hades o facto de Proserpina ter ingerido sementes de romã, quando Zeus lhe havia permitido regressar a terra, mas na condição de nada ter comido, motivo pelo que teria que voltar parte do ano, para junto de Hades.

Curiosamente, na Mitologia Grega, a romã foi usada para simbolizar a alegoria das estações do ano e do ciclo anual das colheitas, motivo desta associação a Perséfone que se assume como Koré, a eterna adolescente, regressando na Primavera depois de ter passado metade do ano e o com Hades.

Mas também Hera, esposa de Zeus, ostentava na sua mão uma romã, simbolizando a fertilidade, o sangue e morte.

O seu sumo é considerado o sangue do deus Dionísio e segundo a mitologia havia sido Afrodite, a deusa do amor, a plantá-la na terra.

Contam-se ainda outras versões do mito e o escritor Apolodoro refere que Deméter não terá gostado muito disso, pelo que foi punido, transformado em lagarto manchado ou “askalabos” e sido enterrado sob uma enorme pedra, até que Heracles a terá removido e a mãe de Perséfone/Proserpina, o volta a transformar, mas desta feita, em coruja ou mocho, “askalaphos”, animal também associado à sabedoria.

Podemos assim relembrar que a ideia de “cultos mistéricos” pressupõe aspectos iniciáticos ou mágicos do culto e mesmo de elementos adjuvantes do mesmo culto que intercedem ou auxiliam as divindades nos atributos que lhes são conferidos, motivo pelo que, pela época do ano em que nos encontramos, desejo que Ceres e todas as divindades associadas ao Renascer tragam uma Primavera com mais Luz e Fertilidade para todos nós, num momento de grandes dificuldades que atravessamos.

Para maior aprofundamento sobre os tema tratado, recomendo a leitura de:

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quinta-feira, abril 11

Bom dia Primavera: a Quinta da Regaleira, Sintra (reeditado de 2011)


















E que tal ir melhor conhecer a Sintra Romântica de Lord Byron ... do Castelo dos Mouros, do Palácio de D. Fernando II, o princípe e rei consorte que tão bem recordava a Baviera de Luís II com a corte alcantilada no castelo de Neuschwanstein, ou a Sintra da Quinta da Regaleira.
Ou a Sintra dos jardins e parques de Monserrate e da Pena?

Mas também a Sintra de Eça de Queirós e de Ortigão no seu intrigante «Mistério da Estrada de Sintra»?

Amanhã aqui voltarei.

 







Amanhã a Beleza e a poesia juntar-se-ão a dançar nesta extraordinária «Quinta da Regaleira» de traça neomanuelina e desenho de Luigi Manini, onde entre jardins, percursos subterrâneos e "patamares dos deuses" é possível fazer também uma caminhada por dentro de nós repetindo gestos e rituais sem tempo!


«As origens da quinta hoje denominada da Regaleira, então conhecida por quinta da Torre, parecem remontar ao ano de 1697, quando José Leite adquiriu uma vasta porção de terra situada nos limites da vila de Sintra. Em 1715, a propriedade é colocada em hasta pública e adquirida por Francisco Alberto Guimarães de Castro, que logo mandou realizar obras destinadas a abastecer uma mina da quinta com água canalizada da serra de Sintra. Em 1800 a quinta passa para a posse de João António Lopes Fernando, e trinta anos mais tarde para Manuel Bernardo, sendo então denominada Quinta da Regaleira. Pouco depois, em 1840, foi adquirida pela filha de Allen, um rico comerciante de vinho do porto, tendo esta recebido posteriormente o título de Baronesa da Regaleira.
A maior parte das construções hoje existentes devem-se porém a António Augusto Carvalho Monteiro, proprietário a partir de 1892, homem de vasta cultura e riqueza. Os símbolos nacionalistas que encontramos na Regaleira, bem como o gosto revivalista no qual tão bem se inserem, resultam da conjugação do seu gosto e sensibilidade com o projecto do arquitecto e cenógrafo Luigi Manini (autor dos edifícios do palácio do Buçaco, do teatro de São Carlos em Lisboa, e do teatro La Scala em Milão, entre outros). As obras decorreram entre 1904 e 1910, tendo Carvalho Monteiro morrido em 1921. A propriedade passou então para os herdeiros, nomeadamente para a posse de Pedro Monteiro, tendo sido vendida em 1945; os projectos então existentes para a quinta passavam pela adaptação a hotel, nunca efectuada, até que a Câmara Municipal de Sintra a adquiriu, resultando daqui o seu restauro progressivo, e a sua abertura ao público.
A quinta integra um magnífico jardim, constituído por árvores exóticas e vegetação abundante, que compõe um curioso percurso de características marcadamente cenográficas. Para este percurso, bem como para o imenso acervo iconográfico que compõe a profusa decoração de todo o palacete, anexos e jardins, pode apontar-se uma linha orientativa de cariz esotérico, conjugada com a simbólica nacionalista dos estilos arquitectónicos neo aqui utilizados. Assim se poderia entender o percurso dos jardins como viagem de teor iniciático, incluindo uma alameda ornada com estátuas de deuses clássicos, uma misteriosa gruta artificial abrigando um lago onde deveriam nadar brancos cisnes sob o olhar de uma mítica Leda, um terraço chamado das Quimeras, e ainda um bosque sombrio, cuja travessia apela a um silêncio introspectivo, proporcionando finalmente a visão da torre do palácio, com larga vista da serra. Particularmente impressionante, neste contexto, é o grande poço, conduzindo progressivamente o visitante até ao fundo, decorado com uma cruz templária e uma rosa-dos-ventos, através de uma descida espiralada; e ainda um túnel estreito, longo e escuro, que liga as profundezas da terra à visão de um terraço alteado e luminoso. A simbólica templária repete-se um pouco por toda a parte, na capela neo-manuelina e nas salas palacianas, que abrigam mobiliário feito por encomenda, tal como um imponente trono entalhado, sempre exibindo simbólica heráldica ou mitológica. A evocação da História de Portugal repete-se nos frisos com os reis portugueses, enquanto uma menção directa ao imaginário maçónico se poderá deduzir do tecto pintado da Sala das Virtudes, onde se encontram as personificações da Força, da Beleza e da Sabedoria. De facto, tem sido aventada a possibilidade de uma eventual filiação maçónica por parte de Carvalho Monteiro, de acordo com o espírito da época e com a inclinação intelectual de uma certa elite nacional. Aqui encontra localização privilegiada o espólio da colecção de artefactos maçónicos de Pisani Burnay, presentemente exposto no palácio da Regaleira».Silvia Leite, in  http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/71688/

Castelo dos Mouros a partir da Quinta da Regaleira.
Foto: O Castelo dos Mouros a partir da Quinta da Regaleira, Sintra.

Foi aqui hoje o lugar escolhido para as «Tardes sem Tempo».

terça-feira, abril 9

Para ti!

Não, não quero pedir-te nada
tão pouco ou nada te poderia dar
mas vem, vem daí, pois espera-nos olhar o céu
por entre as ruínas que já se tornaram belas.

É apenas isso que o são, do Tempo que passou
Mas entre os escombros construiremos uma casa
feita de restos das muralhas, rasgados os medos, 

ao embalar silêncios antigos nas nossas mãos




(A História é sempre aquele lugar de conforto, porque é tão somente isso: o Passado. 

Com ele aprenderemos um dia, quando já não tivermos medo de perfurar o Céu!)

Para ti o Mário Cesariny



«Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum ou doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca»

Mário Cesariny (1923-2006), Pena Capital, in Poemário 2008.

Silence is sexy



yes, sometimes ...

no words!

Just listen to the sound of the clouds

segunda-feira, abril 8

Linda David, Quando o Guincho mudou de lugar


Quando o Guincho mudou de lugar.




Desceu a avenida com o Tejo ao fundo, o sol e o vento empurraram-na para Belém e um turbilhão de gente e de cores fizeram-lhe companhia. Descia devagar, queria sol, não porque gostasse muito do sol, ou da primavera, mas porque procurava um calor, um afago, talvez um abraço.
Gente, pastéis de nata, autocarros, sacos de plástico, máquinas fotográficas, vozes , caras de todas as cores e alegrias. Seguiu rumo à baixa, ao centro - procurava um centro, um banco. Disfarçava a dor. Ninguém a conhecia, ninguém saberia, ninguém perguntaria. Passou ao lado do Tejo, olhou o brilho do Museu do Oriente. Imaginou-se noutro mar, noutro rio. Imaginou-se outra pessoa. Longe. Continuou a andar com o Tejo, deixou o Cais do Sodré com a sua má reputação, subiu a rua do Alecrim, olhou para estátua do Eça, mais à frente conversaria com Pessoa, talvez Cesário Verde lhe fizesse companhia. Subia a custo,imaginava o que pensariam os estrangeiros que subiam consigo. Homens e mulheres de óculos de sol, mangas curtas, sorridentes. Sorria-lhes, explicou que a casa de Fernando de Pessoa ficava situada noutro bairro da cidade, mas que poderiam ver a estátua, beber um café, falou-lhes num inglês atabalhoado, recorreu ao francês, concordou com o brilho e a luz da sua cidade e acrescentou que se esperassem pelo entardecer poderiam subir atá ao Príncipe Real. Sentar-se num banco de jardim, olhar para Lisboa no miradouro que ficava um pouco mais acima. Veriam Lisboa com outra luz, ainda mais bela : a luz que só se vê em Lisboa. A cidade branca, luminosa. Aconchegante. Explicou-lhes o seu gosto. Agradeceram, pediram fado, falou-lhes no Bairro Alto, no Camané e na Ana Moura. Agradeceram mais uma vez. Quando se despediram tinham chegado à estátua do Chiado, estação do metro Baixa-Chiado. Indicou-lhes o largo de Camões. " Good bye". A Rua Garrett, barulhenta, apanhou-a desprevenida. No primeiro andar do "Paris em Lisboa" uma actriz lia O Manifesto Anti-Dantas. "Boa tarde, Almada,também andas por aqui?" Ficou a ouvi-lo: " Morra Dantas. Morra. Pim". Parou um pouco, decidiu sentar-se. "Um café e uma garrafa de água, se faz favor". Olhou em volta, a rua parecia um mercado a céu aberto. Uma feira com música, saltimbancos, acrobatas, um homem que cuspia fogo, Uma mulher com "rastas" que vendia colares. Um homem-tatuagem vendia fotografias. Carteiras, anéis e cintos de plástico reciclado. Muitas línguas. Muitas vozes e um céu muito azul. "Felizmente", pensou. Bebeu o café. Soube-lhe a café, soube-lhe bem. Gostou do movimento. Apreciou a multidão. Cheirou um charuto que ardia nas mãos de um alemão muito gordo. Ficaria ali sentada mais um café. A rua mudava, fazia barulho, mexia-se, muito apressada, às vezes, mais lenta. Mudava a cor, mudava a forma, mudava o cheiro. Sempre a mudar as caras que passavam na rua. Ficou mais uns minutos. Entardecia, mas a vida não arrefecia. "Teria preferido ir até ao Guincho? Ficar a ver o entardecer no Guincho? Ouvir o barulho do mar no Guincho? Não, não teria. " Entrou nos Grandes Armazéns do Chiado,ia à procura de um livro de poesia. A tropeçar nas pessoas, subiu a escada rolante e enquanto escolhia o livro pensou que nas últimas horas O Guincho mudara de lugar.

(José Tolentino Mendonça e Vergílio Ferreira pensaram o mesmo)



Fotografia de Stanley Kubrick



domingo, abril 7

Pudera eu




Pudera eu resgatar-te uma palavra
dizer-te que as minhas cores têm odor da terra onde nasci
pensar que lá iria pela tua mão

dizer-te que sofremos apenas porque não nos perdoamos
do amor que quisemos inventar

Pudera eu sentir o degelo no meu coração
e com a água fazer as ondas onde te vinhas banhar
até que enterradas estivessem todas memórias da dor

quem me dera que as imagens tuas
fossem o espelho das que te venho oferecer
mas há ainda caminho, tanto caminho a percorrer ...

mas sei que, um dia, não sei quando, nem em que lugar,
um grito virá cavo e abraçado a ti chorarei, mas num sufoco de paz

e as imagens todas se revisitarão.

terça-feira, abril 2

Efeitos Secundários, Linda David

Linda David
Linda David

Efeitos Secundários



Entra no consultório médico.
Em desespero correu ao serviço de urgências do hospital de que era - como agora se diz - cliente. O médico fez o seu trabalho, perguntou, olhou, consultou o processo disponível, mandou fazer análises, tudo como manda o protocolo, tudo como deve ser. Saiu do consultório, sentou-se na sala de espera, esperou, a dor esperou com ela. Esperaram uma hora, pela noite dentro, a cadeira azul turquesa a achatar-lhe o corpo dorido. Foi à casa de banho, leu as dores no rosto dos outros. Inventou-lhes histórias. Ouviu as conversas. Ouviu os toques dos telemóveis, ouviu as conversas ao telemóvel. Impacientava-se. Uma hora é uma eternidade numa cadeira de hospital. A dor persistia. Insistia dentro de si. Ouvia a dor ao som do bater do seu coração. Era uma hora e quarenta e cinco minutos da madrugada do dia um de Abril. Irónico: o dia das mentiras, naquela sala de espera com dores tão verdadeiras. Lembrou-se do Mário Viegas, lembrou-se do Mário Viegas a dizer poesia num ecran pequenino a preto e branco. Mário Viegas morreu no dia das mentiras. Riu sozinha - tentava abstrair-se. Havia apenas quatro pessoas sentadas nas cadeiras azul turquesa. Finalmente, o médico chamou-a, não o ouviu, não identificou o seu próprio nome, andava, às voltas, com o pensamento nas pessoas que a alegravam, que não a deixariam sozinha numa cadeira de hospital. Ouviu o médico chamar em voz alta, quase ríspida, um nome: era o seu, levantou-se, de um gesto só, um pulo. "Então doutor? Desculpe, estava distraída. O resultado da análise? O que deverei fazer? O que se passa doutor? Há uma semana que tenho dores." Muito calmo, muito jovem, muito sereno, assertivo: "As análises confirmam a infecção. Mudarei o antibiótico, vou receitar-lhe outro analgésico. Se a situação se mantiver terá de ser reavaliada pelo colega que a acompanha.Tenha calma, em breve as dores passarão." Sorriu-me: "Boa noite e as melhoras". Saiu do hospital, depois de ter cumprido o que lhe exigiam. Pediu um táxi. Procurou uma farmácia, tentava ficar mais calma. A sua fé tinha o nome de um antibiótico. Em casa, sentiu-se segura, mais forte, mais quente. O sono demorou a chegar. No silêncio que a acompanhava, ouvia a sua própria voz. "Amanhã, daqui a pouco será outro dia, as dores desaparecerão, tudo voltará ao normal.Se calhar sou muito piegas, se calhar deveria suportar tudo isto com mais coragem.Seria isso - falta de coragem".
Adormeceu quase de manhã.
As dores só abrandaram (gostava desta palavra) muitas horas depois, continuam a fazer-lhe companhia, mas já as ouve muito ao longe. Do lado de fora - como um casaco que se veste e despe - o corpo cansado, muito cansado. "Quando fizer a sopa de espinafres talvez o cansaço desapareça".

("Fique descansada que este tratamento tem poucos efeitos secundários, poderá fazer a sua vida normal. É um tratamento sem riscos e sem dores. Vai ver. Em breve, se tiver cuidado estará curada." - dissera-lhe o seu médico no dia dois de Janeiro.)

- Obrigada, doutor. Tenho passado muito bem e ninguém diz que estou doente - esqueceu-se de me avisar que estas infecções são - apenas - um simples efeito secundário.
(talvez me tenha distraído durante a sua explicação, talvez.)

de que amor vamos falar: ou quantas vezes mais teria que te inventar?

«Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Queres que te diga, para além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo»? Fernando Pessoa


« O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar». Carlos Drummond de Andrade


“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.”

Foto: “Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.”
Fernando Pessoa



"Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama."

Agostinho da Silva



Foto: "Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama."
Agostinho da Silva


De que falas quando me falas de amor? Do teu? Do meu?
Do que sentes, do que mentes, ou do que inventas nas estórias que as minhas mãos sabem contar?
Falamos desse verbo que tanto pode ser transitivo como intrasitivo, que tudo ou nada quer dizer?
«Querer bem, estimar, desejar, ter afeição ou ternura»

ou apenas falamos do prazer de o poder ouvir ou declarar, espalhando-o por aqui e por ali?

Recordamos ainda os quartos pobres em periferias de cidades onde o flamengo se ouve distante nas ruas, em Antuérpia, onde manchaste de sangue as alianças que te ofereci
quem sabe dessas praças com laranjeiras onde, desta feita, se baila ardente o flamenco?


Imaginando que em Mont Blanc está a nevar e que em Helsínquia há belas catedrais escavadas na rocha?
Falas-me do Jura ou de Sion, noite quase feita a escurecer

recordas as alianças que sempre tiraste, pânico teu de eu te ter???


Não, não te entendo, afinal, porque de ter e haver nada possuímos afinal ...



Ou, quem sabe, o Oceano que atravessei para te encontrar, o dos hotéis de luxo, do outro lado do mar, onde quis inventar os sonhos perdidos de menina que não soubeste em ti integrar.




Ou dos fortes do Tejo aqui bem perto, ou o de Peniche, mais além ?
Do Alentejo que contigo percorri e que continuei a amar,
pensando-lhe nas planuras doces o país que que viu crescer?




De que falas tu? Dos peixes que aqui em casa continuam a nadar,
matando ferozmente a natureza o mais branco e belo que havia naquele lugar?
Ou o negro, M'Banza Kongo de nome seu, que se acabou também por findar?
Do último cigarro fumado a duas mãos, pois nem sempre se podem adquirir mais?


De que falas? Do meu suor, ou do teu, ou será do perfume que me acabaste de comprar?

De falas tu? Das insónias que tive anos a fio para tentar entender?
Ou das noites longas que te esperei apenas para dizer «estou aqui»
Neste meu Luar que tenta descansar
Mas que ainda à noite me mantém de olhos abertos a imaginar ...


De que falas tu? De que falo eu?
De todos os lugares onde não fomos ou deste sítio tão rico como o meu mar
este espaço tão pequeno, mas enorme porque só meu,
tão grande e seguro que te criou e concebeu, rasgando sorrisos, dores e partos de seres que cresceram

para dizer : amo-te, mesmo quando não sabem o porquê, nem mesmo o que estão a dizer.


falas-me de uma oliveira que fui apenas eu a regar
ou de uma esteira do outro lado do mar?
quem sabe de uma picada com horas de sulcos e uivos
que fui em sonhos e em silêncio fui capaz de contigo percorrer


Mas afinal, sei-o, criei um príncipe que não soubeste segurar entre as mãos.
E na minha cama não cabia o pó que contigo trazias, nublando-te noites e manhãs, invadindo-me os lençóis
nem as ancas largas de todas as mulheres que eu não quis comigo deitar
nem a violência que a mentira consigo sempre traz



Sei, apenas isso sei, que morri e renasci cada vez que te criei!
Nessa enorme estrada entre aqui e acolá
já só me leva o Céu almejado se for a minha rota
prefiro as pétalas rosa de uma flor do que as mil promessas adiadas e que jamais se cumprirão
ou do que morrer nas tuas mãos



Teria que te descobrir entre natais em diferido,
nos passeios no Kuanza, ou entre as borboletas de apartamentos suiços; os chinelos oferecidos, mas com um outro par ou as alianças noutra mão.

Já não sou capaz de te imaginar nem de te sonhar
e nem as insónias me descobrem tanto as noites como outrora
porque um cansaço quase sepulcral me cobriu



E, por isso, tem que saber descansar este meu LUAR