domingo, agosto 26

Sim, quero ir ver o mar, depois de te falar de prisões (reed. JUN.2008)



mergulhar, mergulhar: agora quero olhar para fora
que o tempo está a melhorar.

Ao A.L. hoje, apenas como um repto
porque foi trabalho inacabado e espero que um dia o venhas a continuar.














Tu est bien gentil de dire ça (……)
Avant qu’on se couche

Vladimir Nobokov, Lolita

A ideia partiu de dois viajantes cibernautas. Conheceram-se um dia em que o cansaço da noite já os invadia. Picaram o chat, desportivamente, como quem quer ouvir as notícias, ou talvez nem mesmo isso. Quem sabe, apenas com num voyeurismo descomprometido, foram ver o que diziam as gentes no silêncio da madrugada.
Não; foram também dizer um olá e mais umas quantas charadas, com a vantagem de não saber bem a quem; de poder sair a qualquer momento, sem que ninguém desse conta ou levasse a mal. Era o Terravista, dos primeiros que conheci que tinha "salas" como esta que conheci da Filosofia. Havia-me indicado a minha irmã como forma de podermos comunicar economicamente, pois em Évora me encontrava a trabalhar, amigos quedando-se na capital.
E, embora hoje para ele não tenha paciência, é verdade que essa a grande liberdade do chat, como não há outro espaço igual: entrar e sair, sem ter que fazer “sala” ou que alimentar uma conversa indesejável; sem ter explicar ou justificar; sem ter que pagar uma factura, afinal!
Mas tudo tem os seus senões; e de tudo podem nascer, sem nos darmos conta, redes ou laços de seda que nos vão ligando. Na amálgama de palavras ditas há sempre algumas que nos prendem o olhar e a mente e que acabam por nos "agarrar".
Pois, assim é; há sempre uma ou outra palavra que, mesmo fugaz ou de rajada, se cruza entretanto com outra. E que, sem se dar conta, muito devagar, começa a constituir um diálogo; um conjunto de frases a que se dá sentido. Ou seja, começa a desenhar-se o compromisso da escrita; do código que, consolidando sentidos e significados, nos vai fazendo percorrer as ideias; nos vai burilando os conceitos.
Uma pergunta é recorrente, entre uma primeira sequência de palavras a que se pretende atribuir um denominador comum para o entendimento no chat: que te traz por cá afinal?
Resposta comum, quase fatal, como o destino, que lembra algo de adolescente: encontrar amigos, conversar. Entre os adultos – que há muito se julgam imunes a essas trocas infantis e, logo, à ilusão da partilha que a amizade traz, e que, por isso, elegem as salas de forma mais selectiva (a Filosofia; o Cinema, p.ex.) e usam o humor para escamotear algumas das suas solidões – as respostas costumam ser mais artificiosas também.
Estranha foi a resposta de um dos cibernautas e que acabou por ser o ponto de partida para a nossa conversa: sou reclusa, estou, por opção, numa espécie de prisão. Venho apenas aqui para tentar ver o que se passa do outro lado das portas.
E palavra cruzada com palavra dita, concluímos que cada um tem e as suas reclusões: umas consentidas, escolhidas ou aceites, mas nem por isso menos austeras na sua vivência, até porque o sentido e os objectivos dessas mesmas reclusões se esvaiem ou pulverizam tantas vezes em múltiplas dúvidas ou indecisões; outras, forçadas, aparentemente mais atrozes, mas cujo sentido punitivo acaba por ser mais aceite, mesmo que com a revolta dos dias.

Foi assim que nos surgiu a ideia de fazer um trabalho conjunto sobre as reclusões: dentro e fora de portas. Uma, porque conhecia as noites duras de um exílio quase dourado, no Alentejo, silêncios marcados por projectos que inventava para semear as noites de sentidos e de sentimentos; o outro, porque, como psicólogo, já tinha conhecido como “observador” activo o que se passa do lado de dentro das prisões.
Ambos sabiam que afinal nada conheciam da reclusão: apenas podiam aproximar-se de alguns dos seus contornos, porque a porta estava, afinal, aberta, sempre que desejassem sair.
Ambos sabiam também que para lá de alguns processos de iniciação que os poderiam ajudar a definir um estado, um estar, não havia marcada ou selada no seu corpo a tatuagem de uma verdadeira prisão. Não havia a vergonha ou o remorso de algum gesto irreversível, ou a haver, seria passível ainda de ser “reposto”.
Mas, no entanto, dispuseram-se a conversar sobre reclusão: como se sente, ou se escamoteia o que se sente; como se gerem os sinais e os códigos; como se articulam sentidos e os afectos; como se metamorfozeia o corpo e o pensamento; como se inventa e projecta a memória, num tempo que por vezes parece não ter tempo.

1. As reclusões consentidas, de todos os dias: as que nos confrontam com as nossas solidões; os nossos remorsos ou culpas; as nossas dúvidas, os nossos prazeres. Tantas vezes acabam, mesmo que inconscientemente, por tornar-se em prisões.
São ambivalentes estas reclusões: não te trata de abordar um presente como se fosse um hiato entre o passado e um futuro projectivo; não se trata de reviver, através de uma memória reinventada, docilizada ou esbatida, um passivo, inventando um amanhã; não se trata de um tempo fixado/marcado entre horas, dias e anos.
A reclusão consentida vive de um tempo contínuo, onde o Passado e o Futuro se esbatem num momento. Este, agora em que escrevo ou falo. É uma escolha para a qual, por vezes, já se perdeu o sentido, ou a motivação. É um estar que adormece o fluir do tempo, dando a cada momento a força do Eterno. Mas conviver com estas reclusões exige ter permanentemente a carne viva; o ouvido atento a cada som; crer e descrer nas palavras; no céu e no inferno. E, não obstante, continuar.
E,contudo, não há o fora e o dentro, porque se está sempre dentro e fora, ao mesmo tempo, porque é consentida a reclusão.

2. A reclusão forçada, como tal, fixa um pretexto e um sentido, por muito dura, perversa, “inumana” que seja, marca o tempo, mesmo que dentro dele se percam as horas. Atemoriza, claro está, porque inibe o “fora” , fixando-o em imagens mitificadas, que se projectam entre o terrorífico e o “Paraíso Perdido”, que um dia se alcançará de novo.

Assim, propusemo-nos a trabalhar:

Ideia 1.

A reclusão dentro e fora de portas

1.1. O espaço de reclusão como local de representação do poder e como local de todas as vivências.
(as cadeias; os conventos; as iniciações espaciais)

1.2. O espaço e os afectos

1.3. As memórias e a projecção da memória

1.4. A gestão "real" e ideal do tempo: o tempo imaginado e o tempo real.

À reclusão está associada, como mecanismo de sobrevivência, a uma certa ambivalência na gestão e controlo do tempo e da memória: por um lado, produz-se a saturação da informação, ou seja, há que “neutralizar um maior número de acontecimentos” (LYOTARD, 1997: 72), condensando os dados necessários e essenciais à “marcação do “antes”, do “agora” e do “depois. Por outro lado, há tendência ao esbatimento, ao “desculturamento” (GOFFMAN, 2003: 23), quando o projecto do “depois” parece demasiado longínquo ou mesmo ausente, é necessário diluir tudo, tornar o “agora” o “todo” e o mais despojado possível. Isto porque, por um lado, não há Futuro para condicionar o presente. É o despossuir/desapossar ou neutralizar o Tempo: não há lugar a uma narrativa prospectiva, a uma “história situada do outro lado”. Trata-se de um mecanismo contrário ao analisado por Lyotard, quando nos fala da narração mítica, onde o Mito e o “destino” encarnam a “existência de uma instância intemporal que conhece na sua totalidade a sucessão de momentos que constituem, individual ou colectiva”, (LYOTARD, 1997: 74).
Em reclusão prolongada há, por um lado, lugar à perda de capacidades para acompanhar as mudanças culturais do “exterior, produzindo-se o “desculturamento” (GOFFMAN, 2003: 23) e, por outro, a própria reclusão e os mecanismos de poder e de convivência a ela associados geram rupturas com o passado e alterações de personalidade, funcionando como “estufas para mudar pessoas” e de “profanação do eu” (GOFFMAN, 2003: 22 e 40)

1.5. O espaço e os sentidos

Poder-se-ia dizer que numa prisão, como normalmente é tratada no cinema, ou seja, como a imagina o comum dos mortais, há lugar a uma estética do sublime “esse prazer negativo que caracteriza de modo contraditório, quase neurótico, o sentimento sublime (...). as trevas, a solidão, o silêncio, a aproximação da morte podem ser terríveis ao anunciarem que o olhar, outra pessoa, a linguagem, a vida podem vir a falhar (LYOTARD, 1997: 91).
Há, nas visões cinematográficas, portas metálicas e ruidosas que se trancam; efeitos de claro-escuro que se exploram (o fora e o dentro); há seres que se apresentam na sua confrangedora condição, vestuário anulado pois não se pode ser o "um", nem o indivíduo. É-se um número apenas.
E há esgares e risos sarcásticos; há braços esticados por entre grades férreas: tudo é o limite e a ameaça paira no ar. Ao espectador oferece-se-lhe, assim, uma condensação das suas capacidades de emoção.

Mas afinal, e do outro lado, o que há na realidade?
Diria (Nino) ...................... qd. se chega a uma prisão o que mais impressiona é o som ...................
Instala-se a dramaticidade através do som. ................

Diria ele Nino, este é um TPC para ti.....................
Como dirias tu A.L.: «No entanto, a impressão inicial mais marcante não é visual, mas sim sonora. Dentro da prisão, todos os sons adquirem um timbre metálico. São as chaves, são as portas (e chaves e portas não faltam!), é o mobiliário, são os passos dos guardas, são as vozes que ecoam, são as chamadas pelo microfone – tudo adquire uma tonalidade nova face às paredes despojadas do edifício».

«As prisões e os campos de concentração são construídos para controlar os outros ou para os destruir. Os centros de interrogatório utilizam meios físicos específicos para destruir a resistência das pessoas de quem pretendem extrair as informações ou a aquiescência. Estes meios incluem a dor física directa, mas também o isolamento, a tensão contínua, a perda de privacidade, a desorientação no espaço e no tempo, o ruído, a luz, a escuridão, o desconforto permanente e estratégias de ordem física semelhantes» (LYNCH, 1999: 72).

Nas prisões é fundamental o controlo espacial dos reclusos e a gestão do seu tempo.

Existem assim, nas prisões, como locais de excelência da reclusão social, meios físicos que demarcam claramente os limites espaciais da exclusão e que garantem a manipulação da sua acessibilidade: os muros e outras barreiras, como as vedações, os portões, as grades.

Por seu lado, o controlo do tempo é demarcado de forma audível, de molde a uniformizar comportamentos novamente para destruir o indivíduo.

Nas “reclusões” consentidas, a gestão do espaço e do tempo faz-se de maneira totalmente díspar. Não há muros altos nem vedações a barrar-nos entradas e saídas: entra-se e sai-se quando se quer. As grades são, quanto muito, as clausuras que impomos a nós próprios; não há os outros que nos empurram para “dentro”, como “castigo” necessário à ruptura social que originámos (ou não), mas o dentro representa uma escolha; um desafio.
Não há apitos, nem microfones que nos regulem os movimentos e os minutos, mas apenas os sons ou a música que escolhemos ter por companheiros.

O conforto, mesmo que desconfortável ou austero, é fundamental a esse ritual.
Com isto quero dizer, que a reclusão consentida está intimamente ligada ao hábito e ao ritual: aos cerimoniais e à rotina das envolventes; às texturas; à luz; aos objectos ou ao seu despojamento.
Zela-se cuidadosamente para que pouco ou nada mude em nosso redor; para que a história construída se centre o mais possível nela própria. A história é afinal o texto que se lê ou que se escreve; a música que se ouve quando tudo à volta é silêncio. É o solilóquio que se instala nas palavras (não) ditas, enquanto a mente se “perde” em busca das suas múltiplas significações.
É a territorialização do tempo que se quer condensado/concentrado, «como num Templo, um TEMPLUM, este espaço-tempo neutralizado onde é certo que alguma coisa venha a acontecer, sabe-se lá o quê (LYOTARD, 1997: 186).
É nesse lugar sem paisagem cadastrada que se parte então para uma infinita viagem:
«No segredo do seu quarto, inscreve sobre nada, na intimidade do seu jornal, a ideia de uma outra casa, da vontade de qualquer casa» (LYOTARD, 1997: 200).

Para ler (entre tantos mais):

GOFFMAN, Erving, 2003, Manicómios, Prisões e Conventos, Editora Perspectiva (7ª edição).
LYNCH, Kevin, 1999, Arquitectura & Urbanismo, Edições 70, Lisboa.
LYOTARD, Jean-François, 1997, O Inumano: Considerações sobre o Tempo, Editorial Estampa, Lisboa.

sexta-feira, agosto 24

PORTUGAL NO FEMININO: AS CARTAS PORTUGUESAS (reed.)



Leonel Borrela A janela de Mértola, gradeada, grande, nada discreta... e antes, e agora, sempre intrometida no evoluir da História dos Homens e das Mulheres, principalmente destas. Uma janela apeada do dormitório novo, seiscentista, do convento da Conceição de Beja, aquando das demolições parcelares nele realizadas no final do século XIX. Um documento autêntico das Lettres Portugaises, atribuídas a Mariana Alcoforado, mencionado com indescritível emoção na quarta carta de amor da freira ao seu amado francês "Chamilly". Uma janela que é no fundo o símbolo maior de um amor proíbido, de uma paixão exarcebada e da ânsia de liberdade sem limites. Uma história que serviu artistas, escritores, políticos, dramaturgos, músicos, que preparou o romantismo, que serviu e serve a economia europeia e não só, uma história ainda polémica, com dois "protagonistas" -um francês e outro português. Isto tudo para dizer que as cartas são de facto maravilhosas... leiam-nas se querem conhecer o que pode ser uma paixão amorosa e desencantada, com, assim a julgo, um final feliz.




Hoje vou aqui deixar pedaços soltos das belas «Cartas Portuguesas» de Soror Mariana Alcoforado (1640-1723) que, mesmo sofrendo, tanto acabou por viver.
Viu as suas cinco Cartas publicadas em França, em 1669.

Não sei se sofreu por amor, ou se, simplesmente, amou o sofrer.
Mas talvez esta última opção lhe tenha dado força para se escrever.

Sei, sim, que tão bem descreveu o seu esperar, atitude que não pôde combater, porque, em Beja, no convento que lhe roubou o nome, a janela de Mértola era a única esperança para o olhar, fechada em quatro paredes, "sem outro horizonte que não fosse o seu amor (...) e o céu do Alentejo", parafraseando Eugénio de Almeida.
Nem a condescendência de D. Brites a conseguiu, desse modo, demover de sofrer, de esperar.

São fantásticas as Cartas Portuguesas, mas, felizmente, hoje, até dos conventos se pode sair.
E pode-se, de facto, ir, ver o mar, e não somente sonhá-lo nas searas que, da Torre castelo de Beja, do Lidador, se vêem, e cujo ondurar comparam à rebentação.
E sabermos também, agora, que O AMOR NÃO É INCONDICIONAL. Não é uma prisão ou retiro conventual. Mas apenas uma construção.

Só que nem esse ondular imaginado por Soror Mariana, nem esse olhar ela pôde ter...

Por serem belas as Cartas, neste Dia de Camões, vão pequenos fragmentos deste Portugal no feminino (se bem que, com tanto amor narcisico, chego mesmo a desconfiar, como alguns historiadores da Literatura Moderna, que também é bem possível que um homem as tenha escrito, para tanto e tão sofredoramente se fazer desejar, como tão comum é no mundo dos afectos masculinos!).

«Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enganado e enganaste-me com falsas esperanças. Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só comparável à crueldade da ausência que o causa.
(...)
Parece-me, no entanto, que até ao sofrimento, de que és a única causa, já vou tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta.
(...) Como é possível que a lembramça de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel' E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. (...): recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar.
(...)
Não enchas as tuas cartas de coisas inúteis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo (...)».
Carta Primeira

«Quanta inquietação me terias poupado se, quando nos conhecemos, o teu procedimento fosse tão descuidado como o é agora! mas quem, como eu, não se deixaria enganar por tantos cuidados, e a quem não pareceriam verdadeiros? Que difícil resolvermo-nos a duvidar da lealdade de quem amamos! Sei muito bem que te serves de qualquer desculpa, mas, mesmo sem pensares em dar-ma, o meu amor é tão fiel que só consente em culpar-te para ser maior o prazer em te justificar.
(...) Tu não estavas cego como eu, porque me deixaste então chegar ao estado a que cheguei? Que querias dum desvario que não podia senão importunar-te? Se sabias que não podias ficar em Portugal, porque me escolheste a mim para tornares tão desgraçada? Terias, certamente, encontrado neste país uma mulher mais bonita com quem tivesses os mesmos prazeres, pois só os de natureza grosseira procuravas; que te amasse fielemente enquanto aqui estivesses; que se resignasse, com o tempo, à tua ausência, e a quem poderias abandonar sem perfídia e crueldade. O teu procedimento é mais de um tirano empenhado em perseguir, que de um amante preocupado apenas em agradar. Ai!, porque tratas tão mal um coração que é o teu?»
Carta Quarta.

Gratamente, hoje o antigo Convento de Soror Mariana tem as portas abertas.
Da janela já não se consegue imaginar o que seriam as searas do Alentejo, espraindo-se para os lados de Mértola, como naquele tempo em que a freira Mariana o habitou.
Mas também por isso mesmo, tarde, mas a boa hora, o outro lado da rua habitada se pode ver!

E, vivamos o bafo benfazejo dos dias, porque hoje entramos e saimos daquele belo Museu Rainha D. Leonor.
E podemos, reitero, ir ver outro mar! Com o Alento que a brisa fresca sabe dar.
E não nos entregar ao sofrimento de amar, senão por poesia!

segunda-feira, julho 16

E, se estiver em Faro, vá também às Ruínas de Milreu e ao Palácio de Estói


Milreu teve ocupação romana, medieval, dos séculos VI ao X, e moderna.
A zona residencial hoje visitável, que se desenvolve em torno de um peristilo com colunas, foi uma reestruturação do século III, quando a casa é embelezada com mosaicos polícromos, muitos deles com alusões à fauna marítima.
As termas estão ainda com um elevado grau de conservação e nelas se podem encontrar os compartimentos usuais: frigidarium, tepidarium e caldarium.
No século IV é edificado um templo dedicado a divindades aquáticas.
Os proprietários desta uilla eram certamente muito influentes, porque na casa apareceu estatuária de imperadores e familiares, a exemplo da estátua de Agripina que aqui publicámos.
E no Palácio de Estói, casa senhorial como Milreu, mas edificado no século XIX e recentemente transformado em Pousada, outro tanto há para descobrir, nomeadamente os seus jardins e interessante estatuária.

domingo, julho 15

Aos meus amigos e aos meus livros (reed.)



Os livros são como as pessoas, sem tirar nem pôr.
Quando redescobrimos alguns, não há meias-tintas na relação que com eles estabelecemos: ou os amamos de novo, com uma força ainda mais redobrada; ou então, sem nostalgia, pensamos que afinal já estavam mesmo mortos para nós.
Nos últimos dias tive estranhas redescobertas, algumas das quais não passaram senão de vozes distantes ou de folhas entreabertas: mas outras, que saudades ainda me conseguiram fazer ...
Desenterrei, de novo, livros da Ana Hatherly, que sei não conseguir largar tão rapidamente, ao ponto de até me invadirem sofregamente as horas de trabalho, onde costumo ser metodicamente espartana às invasões literárias.
Ando com eles atrás de mim, num saco prateado, como a capa do «Um calculador de Improbabilidades». Passeia-se comigo, o saco e o livro, e não os consigo deixar. Foram feitos um para o outro e para mim. Afinal, sem saberem, foram peças únicas, inventadas para mim! Sempre que posso abro o saco e o livro e deixo as palavras que lá estão escondidas passearem-se por dentro da alma.

A esses amigos, a esses livros devo grande parte do melhor que vive em mim. Para eles vai o meu saco com a Ana Hatherly dentro.

(À Cris)





















«Noite
Canto-te noite para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem antigo fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de noite
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois
das grandes feras
canto-te noite
e tu definitivamente existes nos meus olhos
sempre abertos porque é sempre noite e os meus olhos
são os olhos da criança que nós somos sempre
diante da imensidão do teu espaço
noite

(....)
Noite Canto-te Noite, Ana Hatherly

sexta-feira, junho 29

Ainda a propósito de viajar ou de descansar: Uma Visita a Portugal, Hans Christian Andersen

Como já neste lugar uma vez me referiram, existe alguma similitude entre alguns blogues e os designados "Diários".
Aproveitando eu a ideia de viajar como pretexto, refiro que nada tenho contra dos diários de viajantes, porque qualquer "viagem", nem que seja a mais curta ou pequena, não é senão um recomeço, um processo de reaprender a vida.
Assim, deixo aqui o testemunho de " Uma Visita a Portugal" de H. C. Andersen que, referindo-se à Festa de S. Pedro dizia:

«Foi , pois, apenas em ocasisões festivas que vi grande número e pessoas na cidade (refere-se ainda H. C. Andersen a Setúbal), que eu nessa altura estavam nas igrejas; sobre estas (...)»

«Os únicos divertimentos ruidosos que encontrei foram a festa de Sto. António, como mencionei atrás, e uma corrida de touros que organizaram no dia de S.Pedro num anfiteatro (...).
Tudo o que uma tourada pode apresentar de bárbaro e sangento em Espanha é aqui, de certa forma, modificado para melhor. Com S.Pedro, desapareceram as suas piores características. Os chifres do touro são enfaixados para que os pobres cavalos não tenham que ser abatidos.
(...)
A orquestra tocava o Bolero espanhol: aparecia primeiro um homem jovem a cavalo, vestido de forma garrida, com o cabelo muito bem arranjado, e saudando em todas as direcções; deixaram entrar o touro; não demorou muito tempo a ter uma seta espetada no pescoço e no lombo. Dois homens novos, ali da terra, que tomavam parte nestas touradas, entraram e mostraram-se "bandarilleros" bem adestrados: eram homens atarentes, vestidos de veludo e dourado, com o cabelo bem penteado, como se fossem para um baile».
(...)
Neste género de touradas podem participar particulares; e dizem que D.Miguel foi desterrado só porque demonstrou aqui grande audácia, obtendo graças a isso o aplauso do povo em júbilo». (1)

Uma Visita a Portugal, Hans Christian Andersen

(1) Nunca tal ouvira dizer como justificação para o desterro do absolutista
D. Miguel, pese a conhecida feição de arruaceiro e amante do que se poderia designar como os hábitos mais machistas e conservadores que havia em Portugal ... mas, bom ... isso não é agora tido para este Luar.
E, por isso, tanto o amou o Povo, como aliás refere H. C. Andersen, mas na sua componente mais "populista", pela certa !!!!!!!















Imagem: Sé de Évora, Apóstolos no portal gótico
À direita, S. Pedro segura as chaves do céu.


Pescador no Mar da Galileia, por ter seguido o Salvador, foi chamado "Pescador de Homens".

O Senhor disse-lhe "Tu és Pedro e sobre esta rocha edificarei a minha Igreja"´, tendo-lhe entregue as chaves do Céu.

terça-feira, junho 26

o Sítio da Mulher Morta, Manuel Teixeira Gomes





«O grande amor da minha vida, à semelhança de todas as paixões veementes e sinceras, não foi, não podia ser feliz, e dava para uma linda novela que só teria o defeito de a verdade aparecer inverosímel». O Sítio da Mulher Morta, Manuel Teixeira Gomes.




Voltarei sempre a esta escrita e a estes lugares!

segunda-feira, junho 25

Velharias : Noite próxima do Verão




















NOITE PRÓXIMA DO VERÃO


Se alguém te fizer crer que o Eterno existe
retira-lhe as palavras, pois delas estão os dias cheios
Cala-lhe a boca oca e vazia,
porque não imagina que a morte nos espreita a cada hora.
Esse ali, até já.
Se o Eterno existe é no silêncio com que se inventa o amanhã.
Nas noites em que se ama, mordendo sós as mãos
e, mesmo assim, se é capaz de sonhar.
Se alguém te fizer crer num Eterno pacífico e celestial, desconfia
pois até o Céu é uma construção
e, tal como o amanhã, só se projecta
se se é capaz de recriar o desejo
cada manhã.

terça-feira, junho 19

As "minhas mulheres" - Maria Duran Kremer


Maria Duran Kremer, contigo vou dar continuidade a uma pequena homenagem a mulheres minhas amigas e que muito prezo, alargando um trabalho que já havia iniciado sobre as Mulheres da minha vida.

A Maria Duran Kremer, minha colega e amiga de longa data, Doutorada em Arqueologia, foi condecorada com a “Verdienstkreuz am Bande” da “Verdienstorden der Bundesrepublik Deutschland - Cruz de Mérito da República Federal da Alemanha, a única condecoração oficial da Alemanha, tornando-a uma espécie de “Ritter” – knight (EN) (ou seja, se estivéssemos na Idade Média, tinha sido armada cavaleiro!!!! (Em Ingle: Federal Cross of Merit of the Federal Republic of Germany)

A condecoração foi-lhe dada em reconhecimento do um notável trabalho “voluntário” , durante mais de 35 anos, em defesa dos imigrantes: primeiro portugueses (o que lhe trouxe a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas em 1999).
Defendendo desde sempre a igualdade de tratamento e de oportunidades de todos os seres humanos, independentemente do género, da etnia, da religião ou do credo politico, rejeitando qualquer supremacia de uma Cultura sobre outra ou outras, lançou-se, em 1994, na política autárquica, presidindo desde então ao Conselho de Migração e Integração desta cidade (órgão eleito em eleições gerais, livres e democráticas, de cinco em cinco anos). Neste sector empenhou-se sempre pela participação e inclusão da população migrante na vida social de Trier, tendo lançado as bases para o “Plano Municipal de Integração”, desenvolvido depois em conjunto com outras instituições e que veio a ser aprovado pela Assembleia Municipal em Dezembro de 2011.
Desde 1999 faz parte da Assembleia Municipal e, desde 2009, é Regedor(a) de Trier Norte, o maior bairro da cidade, com mais de 13.000 habitantes.



Maria de Jesus em 16.01.2013, em Mainz, com Malu Dreyer - acabara de ser nomeada Ministra Presidente do Land Renania Palatinado, e Begoña Hermann, no momento em que esta acabara de ser nomeada Vice-Presidente da SGB Nord. Todas tres vindas de Trier. 
De destacar que a nova Ministro Presidente foi, durante muitos anos, ministra dos Assuntos Sociais, da Juventude, da Migraçao e dos direitos da Mulher. E fez imenso pela igualdade da Mulher, pela defesa dos seus direitos!



Para além disso, e a nível de Estado Federado, participa em muitas organizações, destacando: Conselho Consultivo da Mulher (a nível de Estado Federado), membro da direção da AGARP (organização de cúpula que reúne todos os Conselhos Consultivos de Migração e Integração do Estado da Renânia-Palatinado), Grupo de Trabalho contra o Extremismo de Direita.

Para ela, para a sua vida de trabalho e mulher de convicções e princípios, um abraço enorme e muitos parabéns.



5

    • Filomena Barata Agradeço-lhe ainda toda a bondade de amiga em bons e maus momentos. Um enorme beijo para ti Maria Duran Kremer. Vou dar a conhecer a algumas outras mulheres, cujo trabalho também muito considero, designadamente na luta pelos direitos de género. E um até já, até sempre.

quarta-feira, junho 6

O prumo





Fotografia a partir de:

https://www.facebook.com/pages/Conservación-Arquitectónica-Stone-carving-Stonemasonry/135169443197199

Estela de Statorius Bathyllus, detalle. s.I d.C.
(Museo Civico Archeologico di Bologna, num. 19131)























«Pego numa simples pedrinha,

Uma pedra qualquer

Colhida ali mesmo da terra,

... E ato-a a um fio qualquer

Que enfio na boca do poço

E por entre os meus dedos

Deixo o fio incerto escorregar,

De um lado para outro oscilando …


Agita-se a água ao acordar

No choque inesperado e grita,

Do centro para fora ondulando …


Espero,

O tempo está ali todo, infinito,

O tempo todo do mundo …



Observo no meu tempo.

Lava a água a pedra suja da terra,

Talvez uma simples pedrinha ...,

Enquanto a pedra a água vai polindo

Imperceptível ou discreta

Em suaves ondas

Como em continuadas rondas

De demorada negociação …

Depois, a água a si própria se lava

Da sujidade da pedra deixada,

Assentando-a suavemente no chão,

Naturalmente, sem humana mão …

Até mesmo as arestas agrestes

Da própria pedra da terra

Para o fundo cairão …



Observo,

Entretanto,

Que o movimento vai parando …



No fim, uma linha vertical,

Um fio-de-prumo

Aprumando o meu olhar do cimo ao fundo,

E uma superfície horizontal,

Um nível,

Nivelando as rugas e os desníveis do mundo …


E um ângulo recto,

Recto em todas as direcções e sentidos,

Bem esquadrado,

Em rectidão e harmonia

Como um dia será neste nosso chão» …



José Rodrigues Dias, 2012-06
Traçados sobre nós: Ângulo recto

joserodriguesdias.blogspot.com

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Gostaria de poder reflectir sobre este instrumento, pois também com ele aprendi a desenhar, outrora, as linhas do Tempo dentro do Tempo, porque é um dos utensílios imprescindíveis para o método arqueológico.

Esse fio fino e delicado, cujo peso na extremidade, origina um utensílio e que é também a figura geométrica que viabiliza a verticalidade e o equilíbrio que nos permite ligar a Terra ao Céu. É como se fosse um eixo cósmico.

Uma perpendicular, ou seja uma linha que pende, como etimologicamente se entende, mas vertical.

Esse instrumento que tantas vezes eu usei em trabalhos de campo e cuja funcionalidade me era tão familiar, era-me quase desconhecido no que respeita ao seu sentido simbólico.

Fiz apressadamente uma busca no dicionário de língua portuguesa, tendo-o encontrado com os seguintes significados: Enquanto substantivo, define-se como “qualquer instrumento destinado a verificar a verticalidade de um objecto”! Mas, pode ainda ser tido enquanto representante de qualidades: «Prudência, tino, agudeza, penetração, perspicácia». Ou ainda simbolizando a justiça temperada de clemência.

Não deixam de ser interessantes os significados apresentados, no fundo os mesmos que tem do ponto de vista simbólico. Em síntese poder-se-ia dizer que o seu significado está ligado ao equilíbrio da construção, ou, o que vem a ser a mesma coisa, à rectidão do esforço espiritual.

Vejamos, o prumo é o instrumento usado para medir a perfeita verticalidade de uma superfície, e representa simbolicamente a profundidade do Conhecimento, da Rectidão e da Justiça. Representa, também, a busca da verdade, do Equilíbrio, ou Estabilidade, quando perfeitamente a Prumo.

É a regra viva de toda a edificação, material ou espiritual que, utilizando as palavras de Le Coubusier deve ser feita “na vertical com o Céu”.

Mas também o meu corpo em pé, direito, «a prumo», a união do que está em baixo com o que está em cima; do divino e do profano; do Celeste e do Terrestre.

E se fio de prumo, associando-se ao nível e ao esquadro, serve para verificar a vertical correcta de qualquer lugar, viabilizando a edificação perfeita de um imóvel, do ponto de vista espiritual, simboliza a profundidade e a rectidão do conhecimento, o aprofundamento dos nossos estudos e observações, sem quaisquer desvios, veículo que conduz à tentativa de atingir a perfeição individual e à elevação do progresso inicial. Por este motivo associa-se simbolicamente à Justiça com que devem ser praticadas as nossas acções.

A verticalidade simboliza o ser humano de pé e activo, e é através da recta que ascende da Terra aos Céus; representa, portanto, a escada de Jacó que rompe as nuvens do firmamento, cujo simbolismo se deve à visão de Jacob, registada no Velho Testamento, (Génesis, 28, Versículos 10, 11, 12, 17 e 18), ou mesmo os pináculos de uma Catedral na direcção do Céu.

                     Peso de prumo de chumbo com anilha e ponteira em ferrode época romana.
                                                        Centro Interpretativo de Miróbriga.

Essa verticalidade do HOMEM, o único animal a gozar dessa faculdade, corresponde em numerologia ao número UM ou a letra Aleph do alfabeto hebraico, afinal a letra de que Deus se serve para o ajudar a criar o Mundo, e que encerra o Mistério da Unidade, da consciência, da ligação da Terra ao Céu, do que está em cima e em baixo, permitindo que não haja separação entre terrestre-celeste.

Mas se o prumo é fundamental para a construção de um edifício, pois permite a verticalidade da edificação, através do nível faz-se a verificação de que a superfície da pedra está “aplanada”, alisada ou trabalhada, porque o plano é basilar para a sustentação do edifício.

É através do plano, do Nível que simboliza a força criadora dos Homens direccionada para propósitos úteis, que se verifica a igualdade, proporcionada pela tolerância e pela aplicação das leis morais e se pode vir a alcançar Fraternidade.

Por isso, o Nível faz alusão à «IGUALDADE fundamental a todo o ser humano, na sua natureza profunda e na sua vocação».

Filomena Barata




Manuel Canelas Canelas Se me permite, Filomena, dou-lhe os parabéns pelo tópico que ora nos apresenta. 
Vejo o fio-de-prumo dentro da mesma escala cósmica da linha do horizonte e da abóbada celeste: traçados fundamentais que integram, nuclearmente, a imagem que o Homem tem do Universo geométrico (euclidiano) e de si próprio.
É certo que depois de Einstein, as noções de recta e de superfície nunca mais foram as mesmas mas, no que à verticalidade diz respeito, haveremos de reconhecer que esta subsiste intacta como valor absoluto, imune, pela sua natureza, a todo e qualquer relativismo. É um dos tais casos que não admite meio-termo: ou é ou não é; também não é por acaso que através dela chegamos à ‘gravitas’ latina, esse termo que nomeia uma das virtudes mais cultivadas pela antiga sociedade romana.
E por aqui caminhamos em direcção à gravidade. Gravidade que compartilha o mesmo significado de seriedade e importância e que Newton exponenciou para denominar as forças físicas de atracção mútua que os corpos materiais exercem uns sobre os outros, que mantêm o Cosmo unido e confere peso aos objectos. Numa visão muito própria, a linha vertical não será, exactamente, uma ligação entre o que está em baixo com o que está em cima, análise derivada da nossa posição erecta à superfície da Terra. Ela é mais uma semi-recta, pois sabe-se onde começa mas não se conhece o seu fim… Leva-nos até ao centro, mas se caminharmos no sentido oposto tenderemos para o infinito…
Oh, como me delicia falar desta coisas! Obrigado Filomena.


  • Manuel Canelas Canelas Mas que magnífica ‘anotação’, Filomena! Ubérrima em pertinência, rica e vasta nos seus argumentos, bela como uma cantata de Haendel… Embora não concordante com todas as teses em presença, aceite os meus Parabéns!
    …Não concordante porque, e no entanto -’eppur se muove’- Deixe-me dizer-lhe, trazendo à colação em réplica e emulativa provocação q.b., o quanto admiro a Torre de Pisa. Há nesta edificação uma rara mescla de beleza arquitectónica, contexto científico e densidade dialéctica que de imediato a fizeram associar às dúvidas em mim suscitadas pelas suas ilações entre o alfabeto hebreu e a ‘obra’ de Deus. Neste famoso campanário encontro exposta, transversalmente, a problemática da verticalidade quer literal quer metafóricamente, a par de uma eloquente manifestação da unidade entre o todo e o seu oposto, isto é, em suma, da condição humana.
    Aliás, faço já aqui a minha declaração de interesses na matéria, para que melhor possa ser entendido. Sem entrar no campo das religiões enquanto direito universal e legítimo dos indivíduos e dos povos, sempre direi que, se para muitos elas são o que dá sentido à vida, eu vejo-as como formas instrumentais através das quais o Homem foi encontrando explicações para o que em determinado momento lhe era desconhecido e o atemorizava, ou para criar pseudo-realidades místicas, agregadoras e imperativas de acordo com os cânones vigentes. No caso hebraico, o sucesso parece estar ligado a aspectos tão instintivamente básicos, comuns a todos os seres vivos do reino animal e vegetal, como sejam a luta pela sobrevivência, aplicando a lei do mais forte ou a sabedoria de adaptação, exemplarmente traduzida na ida de Maomé à montanha, uma vez que esta por si própria não vinha a Maomé.
    Os primeiros livros do Antigo Testamento constroem uma narrativa que beneficia directa e unicamente um determinado povo perante os demais, o que à partida os torna, no mínimo, suspeitos de imparcialidade. A partir do geral: criação do Universo, do Sol, da Terra, da separação das terras e dos mares, da criação da vida neste planeta, etc., a ‘coisa’ vai afunilando cada vez mais até aparecer um povo Eleito que Deus escolheu para seu interlocutor especial: eles. Tudo isto compagina com o paradigma histórico do’ negócio lucrativo’ judaico. Parece-me, com o devido respeito, uma encenação bem urdida mas que fala mais sobre egoísmo/chauvinismo/supremacismo do que propriamente sobre uns hipotéticos ‘desígnios’ divinos, tal como eles são descritos e sancionados pelos demiurgos de serviço. Em adenda, acrescentaria que aquele momento fundacional, pintado por Michelangelo Buonarotti no tecto da capela Sixtina, tem sido, provavelmente, interpretado ao invés. De facto e pragmaticamente, perante a História do Homem é quase inevitável concluir que o sopro da vida vem de baixo para cima…

    Mas enfim, são divagações minhas para, meu sustento, das quais não pretendo fazer escola. Como apreciador de Arte, sinto-me às vezes constrangido por pensar assim pois reconheço o papel das religiões como impulsionadoras das grandes criações artísticas da humanidade. Paciência…

    Ainda sobre a verticalidade e afins, agora numa perspectiva psico-física.
    As ideias de acima/abaixo, fundamentais para a nossa orientação, são as que ao mesmo tempo mostram uma maior instabilidade e um maior atractivo. A sua origem como dimensão heróica é fácil de entender se tivermos presente a luta de um bebé por manter-se de pé e andar ou o seu desejo de fazer-se maior. Só nos seres humanos a coluna vertebral se comporta como uma verdadeira ‘coluna’ sobre a qual assenta a cabeça, em vez de dela dependurar como nos outros animais. Mas não vejo isso como especial vantagem, também as aves que voam e os peixes que respiram pela água poderão invocar diferenças únicas.
    Acima, que na imagem corporal se refere ao que está em cima do centro do corpo (crescendo este sempre para cima), é sinónimo de esforço, fantasia e distanciamento. Assim tratamos de ‘alcançar o céu’ ao mesmo tempo que necessitamos ter ‘os pés bem assentes na terra’. Num exemplo que a Filomena deve conhecer bem, atendendo às suas raízes angolanas, há uma clara diferença entre como se expressa a dimensão vertical nos movimentos e posições dos dançarinos africanos e os bailarinos europeus: no primeiro caso os dançarinos pressionam fortemente o chão e movem-se a pouca altura, expressando o valor telúrico atribuído à terra, vista como mãe/origem. Já no segundo caso, como corresponde a uma cultura transcendental, os bailarinos elevam-se do solo tentando escapar à terra.
    O mesmo tipo de análise se poderia fazer em relação à movimentação ‘para a frente’ ou ‘para trás’, onde é possível distinguir conotações morais de virtude e firmeza no avançar, ou de conotações privadas e terrenas no que está atrás. Tudo isto releva que através do reconhecimento do corpo como universo pessoal podemos cartografar traços culturais identitários que estão, muitas vezes subliminarmente, na base dos padrões que estruturam as nossas sensibilidades/personalidades.

    E por aqui me fico, que longa vai a tertúlia. Mais tarde voltarei para o desafio numérico e falar sobre a fabulosa proporção divina, o número de ouro, a secção áurea…

    Cumps

    há 19 horas ·  · 1

  • Beatriz Montoito Slikha Filomena. Eu poderia escrever da vida, da manifestação dela nos 3 reinos, dos elementos, da força e da manifestação divina do D'us de Abrão, de Isac e de Jacó. Do positivo e do negativo, do lado direito e do lado esquerdo do homem, dos quatro elementos. Dos planos, da estrela de David, da cruz, dos 36 degraus da escada de Jacó, eu poderia ainda. Abstrato, concreto, representação, alegoria, aspectos e princípios do feminino e masculino, negativo e positivo de D'us. Formas, números, verticalidade e eternidade. Torá. Ain, Ain Soph, Ain Soph Aur, e Keter. Mas por hora prefiro silenciar e não aceitar o desafio, a provocação. Ainda bebo da fonte, e uma “vida” é pouco para o entendimento e, assim adentrar no “pomar” (pardês), pois em Pshat há o sagrado, em Remez o insinuado, em Drush o significado e em Sod o segredo. O vale é longo e as montanhas altas na guimátria.
    Shalom. Layla tov.


segunda-feira, maio 21

sexta-feira, maio 18

Os meus 55 anos: obrigada a todos.

Há dias especiais para todos nós, e porque eles também vivem do carinho que nos manifestam, esta é a minha forma de poder agradecer a todos, de que me recordarei sempre, repetindo-me. Já arrumei memórias, tantas e tantas mais. Já pari e, por isso, plantei uma árvore feita de esperança. Já chorei insónias longas, mas também muito sorri. Fiz os livros que ditam os mandamentos, tentando dar sentido às palavras que se foram cozendo entre si. Já passeei por jardins de luz, por entre silêncios e multidões. Já vi morrer e matar, guerras da vida que nem sempre são as naturais e tenho no peito uma rosa que não me deixa desistir. Enterrei mortos meus, cerrando as portas à descrença, e esqueci dores, transformando-as em lembranças, aprendendo a dizer-lhes até sempre, até já Já viajei, dentro e fora de mim sonhando prazeres que nem sempre encontrei. E, contudo, cruzei montes, vales e oceanos daqui e dali, julgando que os ia poder abraçar. Já tive amores e desamores mas crente sou ainda que o último é sempre o maior. Sei que o será. Já fui rica e pobre; fiz contas de somar e diminuir, saldando as que havia a pagar, cigarro aceso noite fora, sem saber como o ia fazer, Já avaliei e fui avaliada, testes mais não poderia haver, porque poucos humanos os conseguiriam passar. Já me preparei para morrer, encomendando aos Céus os testemunhos meus. Por isso, por isso e tudo o mais, agora quero e sem medo o direito a viver! E viverei sem esperar a licença de ninguém, porque não a pedirei, pois seguirei caminho, cruzando os mares da minha fé


 
Sei que tamb'em estiveste à tua forma!

Se lapsos houve devem-se a facto de não ter conseguido copiar, esperando que me perdoem as omissões.


Beatriz Montoito
Daqui algumas horas é 18 e, portanto 9 onde todos os números se resolvem pois, depois dele o 10, a volta a unidade. O número é sintético e minha mensagem de parabéns pode parecer sem calor humano, sem beleza, porém não é fato. Que a tua volta a unidade, esse novo caminho a trilhar, o construas em conjunto com o universo, te trazendo LUZ, ENTENDIMENTO, SAÚDE, PROSPERIDADE. Vida longa Filomena.
PARABÉNS A VOCÊ (versão especial de 44 quadras... para adormecer!)
Parabéns a você
Nesta data querida
Muitas Felicidades
Muitos anos de vida!!!

Hoje é dia de festa
Cantam as nossas almas
Para a menina/menino (nome)
Uma salva de palmas!!

Parabéns a você
Pelos anos que faz
Vá contando até cem
Para ver se é capaz!!

Hoje é dia de bolos
Para toda a cambada
Não se esqueça de pô-los
Numa mesa enfeitada!!

Parabéns a você
Neste dia festivo
Queremos vir cá "pró" ano
Pelo mesmo motivo!!

Hoje é dia de festejo
Apague as velas com força
E exprima um desejo
Há-de haver quem o/a oiça!!!

Parabéns a você
Já basta de cantar
Vamos todos "prá" mesa
Vamos todos "papar"!!

Hoje é dia de prendas
Espere um pouco e verá
"Pró"/"prá" Menino/menina (nome)
Boas coisas haverá!!

Parabéns a você
Neste dia aprazado
Veja lá se consegue
Que seja bem passado!!

Hoje é dia de farra
E por isso cantamos
Veja lá se agarra
Tudo o qu'nós lhe damos!!

Parabéns a você
Neste dia qu'existe
Vamos lá a sorrir
Não qu'remos ninguém triste!!

Hoje é dia bem cheio
Nele cabe um ano
Vamos dar-te/lhe de permeio
Um abraço muito humano!!

Parabéns a você
Neste dia especial
Não se repete muito
É periódico, anual!!

Hoje é dia d'alegria
vamos lá aproveitá-lo
Cantemos todo o dia
E p'la noite prolengá-lo!!

Parebéns a você
Neste dia sem par
Conte/a lá as velinhas
Até ao fim sem parar!!!

Hoje é dia de estalo
Não é um dia normal
Não há melhor "pra" passá-lo
Que uma festa, afinal...

Parabéns a você
Neste dia amado
"Pró"/"prá" menino/menina (nome)
Canta tudo afinado!!!

Hoje é dia dif''rente
É uma data incrível
Não se esqueça da gente
Até "pró" ano, se possível!!

Parabéns a você
que bem os merece
Coma lá um bolinho
E o resto, se lh'apetece!!

Hoje é dia feliz
Não há tristeza qu'entre
volte a ser um/uma petiz
Não só hoje, mas sempre!!

Parabéns a você
Eis o nosso desejo
Para a todos saudar
Não perca este ensejo!!!!!

Hoje é dia de truz
Não esteja assim parado/a
Não hesite, fala luz
Se se sentiu bem mimado/a!!

Parabéns a você
Para si, é o que queira
Barcos, casas, aventuras
E mesmo a terra inteira!!

Hoje é data festiva
Por um pouco, no seu mundo
Esqueça a rotina cativa
E viva um dia fecundo!!

Parabéns a você
Vamos lá a comer
Em sua homenagem
Também vamos beber!!

Hoje é dia de lazer
Não faça nada difícil
Pense só no prazer
Tido é primaveril!!

Parabéns a você
Dê vivas a todos
Afine a voz e cante
Espalhe alegria a rodos!!

Hoje é data marcada
Veja o seu calendário
É festa assinalada
É o seu aniversário!!

Parabéns a você
Neste dia que reluz
Não fuja, venha cá
Não s'arme em avestruz!!

Hoje é dia marado
Esqueça-se do juízo
E venha cantar o fado
Faço um louco improviso!!

Parabéns a você
Numa data bem viva
Mande "à fava" o trabalho
E as chatices qu'ele motiva!!
(ou "E até o diabo do IVA"!!: para a prima Rosa)

Hoje goza-se à brava
Dão-se coisas de pasmar
Dê-nos a sua palavre
De que só vale brincar!!

Parabéns a você
Estamos todos a rir
Faço o pino na mesa
Nós o faremos a seguir!!

Hoje o dia é noite
E a noite é dia
Não hav'rá quem pernoite
Daqui até à Anadia!!
("Daqui até à Curia!!", para quem seja de Anadia)

Parabéns a você
Estamos nóa a dizer-lhe
Venha cá confessar-se
P'ra que possamos valer-lhe!!!

Hoje é dia confuso
Tudo fica excitado
Rode como um marujo
E fique assim enroscado!!

Parabéns a você
Não me venha com fitas
Dê pulinhos no tecto
E faça caretas bonitas!!

Hoje não há limites
Mergulhe o dedo na água
Mesmo que se constipe
Não há razão para mágoa!!

Parabéns a você
Divirta-se, é só querer
Se quiser, dê piruetas
Ou desare a correr!!

Hoje não há uma lógica
Na ação, no pensamento
Há razão cronológica
Para asneiras, um cento!!

Parabéns a você
Nós estamos consigo
Ponha os ombros nas coxas
E os pés no umbigo!!!!!!!!!!!!!!!

Hoje é só maluqueira
Dê um grito bem forte
Continua a brincadeira
Seja a Sul, seja a Norte!!

Parabéns a você
Vá dizendo, sem enfado
Mesmo sem qualquer ordem
Tudo de que tem gostado!!

Hoje já foi repetido
Demasiadas vezes p'ra mim
Vamos ficar por aqui
Chega a Canção ao fim!!!

Carlos Eduardo da Cruz Luna/Estremoz, 24-Junho-2011

segunda-feira, maio 14

Testemunho (reeditado)



À minha filha.
Ao meu companheiro de longas viagens ...


Este blogue foi concebido como uma espécie de «diário de bordo» de experiências, sentidos e emoções.
Pretendia, quando o imaginei, fazer como que apontamentos das minhas vivências ou das minhas “geografias afectivas”.
Fixar imagens de sítios ou lugares, de sensações, onde parecia residir o equilíbrio do “território” que é o meu.
Pretendia ainda, não o escondo, com ele dar testemunho dos meus dias, partilhando com quem o lesse, mas, particularmente, com as pessoas a quem o dediquei, a minha filha, o amor e os amigos que me acompanharam estes anos, as histórias que os meus dias atravessam: sem medos, sem pavor das palavras e do testemunho, mesmo quando me assaltavam dúvidas e a angústia de não saber afinal como se tece o equilíbrio da vida.

Porque se desconhece o segredo dessa fina rede ou malha que torna os Humanos mais felizes, num tempo e num lugar.
Tentar partilhar também um pouco do equilíbrio inexplicável que parece residir em alguns lugares que, teimosamente, continuam a querer fugir a todas as dúvidas ou a todas as certezas que sobre eles se semeiam, tão alheios que se mostram estar de todas as nossas reflexões.











E aprender com esta partilha que os Sítios, as Coisas também têm tempo, desgastam-se, consomem-se, findam-se, levando com eles as estórias desvendadas ou eternamente encobertas, se não as soubermos escrever e contar.
Não podemos fugir sempre a esse Tempo, mascarando-o de uma possível Eternidade, plastificando-o até ao limite, como se tratasse do Retrato de Dorien Grey.
Porque a morte tudo espreita, tudo acaba por consumir, desvastar.
Havia, portanto, que partilhar, escrevendo!




















Foi, também, minha intenção testemunhar uma busca, um olhar, como que uma reportagem fotográfica, mostrando os múltiplos caminhos que tantas vezes atravessei, no encalço de um lugar pré-determinado, tentando ouvir as suas vozes, os seus silêncios, ou os seus mistérios.
Assinalando presenças físicas e emocionais, actuais ou passadas, e as marcas que deixaram no território, na paisagem; no corpo e na alma.
Buscando assim a Eternidade que mais não é do que uma procura, uma projecção, solitária e pessoal.

Porque espero, a curto prazo, mudar o figurino deste blogue, venho assim, como num manifesto, dizer que teria feito outro igual; mas está na altura de mudar e o transformar!

E há coisas que não se podem adiar.






















É uma despedida?

Não, porque nunca nos despedimos do que e de quem soubemos amar ...







Desenho: Um presente da Marta Wengrowius


Não tarda Lisboa está em festa ...