sexta-feira, fevereiro 18

O Culto Mitraico e sua representação em Portugal


A propósito do Solstício de Inverno e sua comemoração, aqui deixo uma achega sobre o Mitra cujo nascimento era celebrado, tal como o Menino Jesus, a 25 de Dezembro, sendo fortíssima a sua conotação com o Sol.
O Sol, sendo a maior luz do céu visível aos Humanos, é para muitos povos um dos símbolos mais importantes, sendo até venerado como um Deus ou encarado como manifestação da divindade entre muitos.
Ao contrário da Lua, o Sol que tem luz própria, é afinal a própria essência da Luz, e é quase sempre interpretado como símbolo masculino e por isso associado ao princípio Yang.
Ou seja, representa em muitos culturas, se bem que nem em todas, o princípio activo, enquanto a Lua é um princípio passivo.
Ao Sol associa-se a noção de calor e de Vida, pois sem ele nada sobrevive.
Na Alquimia ele corresponde ao Ouro, encarnando a ideia do espírito imutável.
Sendo muitas bem vezes invocado como "olho omnipresente do Sol", como acontece no «Prometeu Agrilhoado», de Ésquilo, divindade que é castigada por roubar o Fogo do Olimpo e dá-lo aos Homens, ou "Olho do Deus Supremo", como acontece entre os Bosquímanos, assume no culto mitraico um papel fundamental, tendo mesmo caracteristicas iniciáticas.
Na Antiga Roma, com o principado de Augusto, assiste-se, por um lado, a um retorno dos valores antigos da religião romana, assumindo-se o império como um período de "Restauração" dos valores religiosos ancestrais e, por outro, à oficialização de alguns cultos orientais, que vão ter particular adesão, quer pelos orientais com domicílio no Ocidente, quer pelos cidadãos e legionários romanos, como se verifica com o culto desse deus da Luz de origem persa, Mitra.
Mitra, ou Mithras, cujo nome significa em Sânscrito «Amigo»; em Persa quer dizer «Contrato». Trata-Se de um Deus luminoso que incita os homens a seguirem o Seu caminho no combate pela Luz contra as Trevas. Mitra tem naturalmente um forte carácter solar, porque a sua Luz é a síntese da Luz do Sol e da Lua, e o Seu o Domingo é o dia dedicado ao seu culto.(no Latim pagão, domingo é «Dies Solis», ou «Dia do Sol»).

Ao que se sabe, o culto mitraico parece ter chegado ao Ocidente no decorrer do século II d.C., através das legiões romanas, tendo grande impacto em Roma e data dessa centúria a construção de inúmeros santuários, ou Mithraea.
A primeira referência escrita ao culto mitraico é de Plutarco, datável do século I a.C., referido que os piratas cilícios praticaram os mistérios mitraicos até 67 a.C. Daqui, esta religião e culto chegou aos países do Danúbio e a Itália. Os principais adeptos de Mitra eram soldados, como acima dizíamos, funcionários administrativos e comerciantes.
No Ocidente, o seu culto acabou por confundir-se com o do Sol Invictus, ou Sol Invencível, pois verifica-se, em finais do século III, o sincretismo entre a religião de Mitra e outros cultos solares de procedência oriental. É em finais dessa centúria, em 274, ao reinado de Aureliano, que atribuiu a Sol Invictus as suas vitórias no Oriente, que esta religião se torna oficial, tendo o imperador mandado edificar em Roma um templo dedicado ao deus e foram incumbidos sacerdotes de lhes prestar culto.
O máximo dirigente deste era o pontifex solis invicti.
O mitraismo manteve-se como culto não oficial, havendo quem professasse, ao mesmo tempo, o mitraísmo e a religião do Sol Invictus.

Com a chegada dos invasores romanos à Península Ibérica, e particularmente dos exércitos, originou-se um novo surto desses cultos orientalizantes, apesar da sua penetração no Ocidente ser de período muito anterior ao romano.
Quer na cidade romana de Tróia, Grândola, quer em Beja está comprovado o Culto Mitraico, que se expandiu na Hispânia a partir de finais do século II – inícios do século III d. C., a par de outros cultos orientais, tais como de Serápis, Ísis, Cibele-Magna Mater .
O Sol ou Ormuzd, para os Persas, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; à Lua ou Arimânio, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra.
Mitra surge assim como um terceiro elemento, como uma espécie de divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua ocultasse o Sol.
Mais do que o Sol, Mitra representa a Luz Celestial, ou a essência da Luz, que desponta antes do Astro-Rei raiar e que ainda ilumina depois dele se pôr e, porque dissipa as trevas, é também o deus da Integridade, da Verdade e da Fertilidade, motivo pelo que também surge associado à força genésica do Touro, o Touro primordial que Mitra é incumbido de matar, como de seguida falaremos.
Segundo as lendas de origem persa, Mitra terá recebido uma ordem do deus-Sol, seu pai, através de um seu mensageiro, na figura de um corvo. Deveria matar um touro branco no interior de uma caverna.
O ritual de iniciação nos mistérios de Mitra era o Taurobólio, porque exigia o sacrifício do touro que foi, aliás, uma constante no mundo mediterrânico oriental e greco-latino, onde esse sacrifício assume um carácter fundacional, pois culto deste animal assenta a sua sacralidade no seu vigor e violência cósmica, e num poder fecundante.
É a morte ritual do touro sacrificial que dá origem à vida com o seu sangue, à fertilidade, à dádiva das sementes que, recolhidas e purificadas pela Lua, dão origem aos “frutos” e das espécies animais, pois a sua carne é comida e o seu sangue é bebido.
A maior parte dos santuários dedicados a Mitra eram em câmaras subterrâneas, como bancadas lado a lado, e algumas vezes mesmo em grutas artificiais.
Os candidatos à iniciação dos mistérios mitraicos, praticados quer na Pérsia, quer em Roma, tinham vários graus de iniciação, passando por provas severas e o iniciado, antes de fazer o seu voto sagrado, sacramentum, prometia não trair o que lhe havia sido revelado. Depois, o iniciado subia os sete degraus, recebendo em cada um deles um nome diferente.
O banquete ritual da morte do touro, o taurobolium, sempre em companhia do Sol, viabiliza ainda aos adeptos do culto mitraico o “nascimento para uma nova vida” ou "Renascimento" que o Cristianismo, que baniu a ideia de sacrifício iniciático, transformou na água do baptismo e através da Eucaristia em pão e vinho, substituindo o sangue e a carne do touro divino.
«Sacrificando o touro, um acto eternizado em frescos e pinturas, o sangue, que jorra do pescoço do touro, corre pelos campos fertilizando-os e deles fazendo brotar toda a força e riqueza da Mãe Natureza, a quem Mitra se encontra intimamente ligado. Nestas representações, aparecem, junto a Mitra e ao touro, um cão e uma serpente, um corvo e um escorpião. Às vezes, aparecem também um leão e uma taça. Cada um destes elementos tem uma constelação como hipóstase: Cão, Hidra, Corvo, Escorpião, Leão, Cratera e Touro. Explicando o significado simbólico desta cena, estaríamos a assistir ao fim da Era do Touro, ao final desta constelação a marcar o equinócio da Primavera. Matando o Touro, Mitra está mexendo no Universo inteiro, acto só ao alcance de um deus» William Carvalho, 2009, «Ascensão e queda do deus Mitra».

http://wwww.freemasons-freemasonry.com/19carvalho.html

O deus solar Mitra parece ter nascido numa gruta que simboliza o firmamento e, a sua abóbada, o céu de onde sairá a Luz para a Terra. Por isso mesmo os rituais de iniciação mitraicos também podiam ser praticados em gruta ou cavernas naturais, como acima referimos. Mais tarde, optou-se por construções escuras e sem janelas que imitavam as cavernas naturais. Os templos tinham uma capacidade limitada e, na maior parte deles não podiam caber mais do que trinta ou quarenta pessoas.

Geralmente Mitra, que se faz sempre acompanhar do Sol, tem ainda um corvo à sua esquerda – que curiosamente é também o totem do deus solar de origem celta Lug, - e no ângulo esquerdo tem a figura do Sol e, à direita, da Lua, afinal a raiz da Lusitânia, ou terra da Luz.

No território português são conhecidas referências ao culto mitraico: na cidade romana de Tróia, Setúbal, o aparecimento de um relevo com representação de Mitra fez concluir que ali pudesse ter havido um mithraeum que, no fundo, não é mais do que uma representação esotérica do Universo, em Beja e ainda através da existência de sepulturas escavadas na rocha a que atribuem alguns autores a função de «taurobólios mitraicos, utilizados antes e depois do século IV, onde os iniciados eram aspergidos com o sangue do touro. «Sepulturas» será a designação por força da falta de outra palavra e pela força do processo de cristianização que, não podendo apagar, apropria-se», António Maria Romeiro Carvalho, in O Culto de Mitra e as Sepulturas Escavadas na Rocha.

Em Tróia, pelas descrições existentes, o políptico esculpido que tem sido interpretado como uma representação relacionada com o culto mitraico, em que se vê os deuses sol/Mitra, parece ter aparecido no interior da Basílica Paleocristã.

Esse relevo mitraico proveniente de Tróia, ao que se sabe, encontrado em 1925, cujo molde se encontra no Museu Nacional de Arqueologia, pois o original está na posse de um particular, é "uma das mais significativas peças do seu género conhecidas no mundo romano e, sem dúvida, o mais importante testemunho do culto de Mitras até agora conhecido em Portugal" (segundo José Cardim Ribeiro, ficha da exposição nº 155 da exposição «Religiões da Lusitânia», editada no catálogo com o mesmo nome, em 2002, pelo Museu Nacional de Arqueologia).
Este relevo pertenceria a um tríptico do qual apenas se conhece parte.
Assim àcerca do sacrifício do touro ou tauroctonia apenas podemos observar um busto com um crescente lunar e, ao centro, o génio que simboliza o Sol poente.

No painel da direita reconhece-se Mitra e Hélios reclinados, cena essa representando o banquete de homenagem ao pacto efectuado, após lutas rivais, entre estas duas divindades, em venceu o deus invictus.
Ainda segundo Cardim Ribeiro, na obra acima citada, «será legítimo supor, como hipótese (...) que no plano inferior do painel da esquerda, que falta por completo, estaria figurado um leão, simbolizando o fogo, e talvez ainda os quatro ventos, relativos ao elemento ar» (pp: 479:480).
No revevo está representada a serpente enrolada em volta da cratera que simboliza, por seu lado, os Elementos Água e Terra, pois Mitra associa-se aos quatro Elementos, motivo pelo que, os quatro ventos também poderiam estar figurados.

Cito ainda José Cardim Ribeiro a propósito dessa divindade: «Por certo que nem todos os vestígios do culto de Mithras pressupõem a vigência, à época e naquele preciso local, de complexos sistemas de pensamento de cariz filosófico-cosmogónico consciencializados e praticados pelos respectivos devotos, mas apenas, maioritariamente, dos fundamentos, símbolos, graus iniciáticos e ritos essenciais do mitraísmo. Os poucos testemunhos desta religião na Hispânia romana, aliás todos concentrados numa assaz estreita franja temporal máxima de século e meio, entre meados do s. II e finais (?)do s. III d.C., revelam ainda assim a grande diversificação social — e, certamente também, de pensamento e de educação — dos respectivos cultores (...). Nesta mesma ordem de ideias, e no que se refere pois à situação verificada na Península Ibérica, Francisco (Francisco 1989: M. A. de Francisco, El Culto de Mithra en Hispania, Granada,1989. Fresina 1991:1989, 72), afirma peremptoriamente que “os sodalicia não conheceram barreiras sociais no recrutamento dos fiéis nem na eleição de sacerdotes” e “não exigiram uma preparação filosófica prévia ou de qualquer outro tipo intelectual”. Por certo, o recinto de culto mitraico cujos restos arquitectónicos foram recentemente descobertos na zona Sul de Mérida (T. Barrientos, “Nuevos datos para el estudio de las religiones orientales en Occidente: un espacio de culto mitraico en la zona Sur de Mérida”, Mérida. Excavaciones Arqueológicas 5, Mérida 2001, 357-381) terão pertencido a uma das referidas comunidades indiferenciadas e vulgares, como a maioria das que terão existido não só na Hispânia mas, também, nas demais Províncias Ocidentais. Porém, a estatuária e a epigrafia proveniente de um outro espaço mitraico emeritense, aquele que em 155 d.C. se constituiu e organizou em torno de Marcus Valerius Secundus, frumentarius legionis VII Gemina, e do pater patrum Gaius Accius Hedychrus, evidenciam uma realidade muito diferente, a todos os títulos verdadeiramente excepcional — quer a nível peninsular, quer mesmo a nível do próprio Império. Além das imagens de claro cunho mazdeísta — muito embora, por vezes, de rara complexidade e difícil interpretação (M. Bendala, “Reflexiones sobre la iconografía mitraica de
Mérida”, in: Homenage a Saenz de Buruaga, Madrid 1982, 99-109) —, o programa iconográfico-simbólico deste acervo, todo ele aliás executado com uma notável qualidade artística, incluía numerosas estátuas de outro tipo, figurando deuses como Hermes, Serapis, Vénus, Isis (?), Esculápio (?) e uma divindade masculina de cariz aquático (...). Estamos pois aqui, sem quaisquer dúvidas, perante testemunhos que à evidência nos indicam um grupo de iniciados, decerto pequeno, mas de formação filosófica e intelectual superiores, de amplos horizontes e predisposição sincrética relativamente a escolas e tradições culturais — e cultuais — diversificadas (cf. Turcan 2000, 113). Neste conjunto, a representação de Phanes-Mithras remete-nos claramente para concepções órficas (
Cambell 1968: L. A. Cambell, Mithraic Iconography and Ideology, Leiden, 1968. pp: 272-275)
; M. Bendala, “Las religiones mistéricas en la España Romana”,
in: La Religión Romana en Hispania, Madrid 1981: 283-299 e M. Bendala, “Reflexiones sobre la iconografía mitraica de Mérida”, in: Homenage a Saenz de Buruaga, Madrid 1982, 99-109; D. Ulansey, The Origins of the Mithraic Mysteries. Cosmology and Salvation in Ancient World, New York-Oxford 1991, 116-124). E, retomando a afirmação de Turcan em epígrafe a este capítulo, recordemos também a monstruosa estátua leontocéfala que evoca Aión-Chronos-Saturno, o Tempo que tudo devora e destrói — como o fogo dos estóicos (R. Turcan, Mithra et le Mithriacisme, Paris 20002: 95 e 99-100)». (citação a partir de José Cardim Ribeiro, "Terão certos Teónimos Palehispânicos sido Alvo de Interpretaçãoes (Pseudo-)Etimológicas durante a Romanidade passíveis de se reflectirem nos respectivos Cultos?", in Acta Palaeohispanica X Palaeohispanica 9 (2009), pp. 247-270
I.S.S.N.: 1578-5386 ActPal X = PalHisp 9 247

http://ifc.dpz.es/recursos/publicaciones/29/54/20cardim.pdf

Também proveniente de Tróia é o friso de sarcófago em mármore cuja qualidade parece indiciar uma produção itálica, datado de Época Romana, do século IV d.C., com claras alusões ao banquete mitraico.





Segundo José Luís de Matos, na ficha do Catálogo de Escultura Romana do Museu Nacional de Arqueologia, trata-se de um baixo-relevo «pertencente à platibanda de um sarcófago dividido a meio por cartela anepígrafa e terminando nas extremidades por duas cabeças toucadas de barrete frígio. Esta peça foi encontrada partida, tendo-se recuperado até agora dez fragmentos que permitiram, apesar das extensas lacunas, reconstituir o essencial das cenas representadas. O baixo-relevo mostra dois painéis distintos de um lado e outro da cartela. No painel da esquerda, uma figura imberbe com a cabeça coberta de capuz ("cucullus") empunha um bastão, sob um crescente lunar, olhando para baixo na direcção de dois quadrúpedes de quadris e cauda levantados que mergulham o respectivo tronco. Uma cabeça de homem barbado volta-se para a primeira figura tendo de permeio uma árvore estilizada. Um outro personagem senta-se nas traseiras de uma carroça. A viatura é conduzida por um cocheiro, imberbe, vestido de túnica curta, capa e capuz ("paenula"), de costas voltadas para o passageiro inclina-se para a frente, e de vara alçada na mão direita procura aparentemente dominar dois bois de cabeça erguida atrelados à carroça. Perante os bois e preso à larga rede fixada à árvore que ocupa o canto do painel está um quadrúpede esticando o pescoço para a frente e para baixo forcejando talvez libertar-se. O painel da direita mostra uma cena de um banquete em que três personagens se encostam a uma mesa semicircular, sobre a qual foram postos três pães marcados na côdea com uma cruz e, sobre um prato, a cabeça de um javali (...) Os três convivas vestem túnica presa ao ombro esquerdo que desnuda parte do tronco e o ombro direito ("tunica exomita") e apresentam o cabelo encaracolado. O personagem central, barbado, adopta uma postura solene de tronco erecto e mão descansando sobre o leito redondo em que ele e os seus companheiros se reclinam ("pulvinum"), o da esquerda, imberbe, está reclinado parcialmente sobre o leito, tendo à sua frente um festão de verdura e indicando com a mão direita estendida os alimentos enquanto segura com a esquerda um vaso de libação ("riton") (...) O conviva colocado à direita do observador aperta na mão esquerda o bocal de um odre de vinho.
O painel da esquerda mostra dois temas diferentes: o da caça nocturna com o caçador, sob a Lua, levantando o bastão e parecendo conduzir dois cães que abocanham a caça, a que se junta a representação de um quadrúpede, pantera ou lobo, preso na rede, e o tema da viagem, com um passageiro e o cocheiro sentados em carro de bois. O tema do painel da direita é o de um banquete em ambiente de festa assinalado pelo festão de verdura e pelos gestos animados dos convivas, cena aparentemente localizada numa sala de jantar ("triclinium") tendo ao fundo a colunata e o telhado do peristilo da casa senhorial que os albergava. Estes três temas, a viagem, a caça e o banquete reproduzem cenas de um quotidiano com um viandante cansado repousando e restabelecendo forças ("refrigerium") no banquete onde a caça é servida à mesa. Em contexto funerário significam o repouso após a viagem para o além, e também a vitória sobre os males da vida simbolizados pelas feras que são domadas, senão o convívio com os deuses numa refeição de conotações prováveis com o banquete mitraico reunindo Mitra e Hélios, ou mesmo com a refeição cristã ("agapé"), já que a iconografia paleocristã reproduz inicialmente os temas funerários usuais no mundo romano quase sem os modificar. As duas cabeças de jovens toucados de farta cabeleira e barrete frígio, de cunho acentuadamente helenístico e voltadas em direcções opostas, significam, em contexto funerário, o Sol e a Lua, e logo o dia e a noite, possuindo um significado cósmico relacionado com o limite e brevidade da vida humana ("tempus fugit").»


De referir que a ara proveniente de Pax Iulia, publicada, em 1984, por José d'Encarnação nas «Inscrições romanas do Conventus Pacensis» (IRCP 339)

[M(ithrae)?] Deo Invicto

sodaliciu(m) Braca

rorum studium sua in

pensa fecerunt cum

cratera. T(itulum?) dona

vit Messius [M(arci) L(ibertus)?] [Artem)ido

rus magister [C(oloniae)?] P(acis?] I(uliae)?)

A Mitra (?), Deus Invicto. O sodalício dos Brácaros fizeram [sic] a expensas suas, um edifício com uma cratera. Méssio Artemidoro, liberto deMarcos (?), magistrado da Colónia de Pax Iulia (?), doou a inscrição. no local de culto e de reunião dos membros do sodalício.


Trata-se, portanto, de uma placa que estaria no local de culto e de reunião dos membros do sodalício.«O sodalício seria, naturalmente, constituído por libertos vindos da região norte para em Pax Iulia negociarem, nomeadamente na exploração mineira (veja-se a proximidade com as minas de Vipasca)» José d'Encarnação in «Portugal Romano» no facebook.
Como refere José d'Encarnação, o campo epigráfico encontra-se muito desgastado, facto pelo que é difícil saber exactamente o que foi doado. E a reconstituição do M como sigla de Mitra deriva tão-somente de a expressão deus invictus se aplicar, de preferência, a Mitra.



É,pois, o «único texto de la península que menciona el orden interno del culto mithraico, un sodalicium (fraternidad), integrada por los habitantesde Bracara Augusta (Braga), seguramente residentes en Pax Iulia, de donde procede la inscripción». http://elcolomimissatger.blogspot.com/2010/01/meithras-en-las-hispanias.html

Proveniente de Mérida onde o culto mitraico está atestado de várias formas, pelo que dispensamos falar da célebre representação musivária, referimos, apenas a título de exemplo a estátua de Chrónus Mitraico que foi publicada no belíssimo catálogo da exposição de homenagem a José Leite de Vasconcellos, com o número XXVIII.
Trata-se de uma representação de um jovem imberbe que deveria ser alado e «figura simultaneamente Aión ou Chrónos, deificação do Tempo Infinito, e o próprio deus Mitras no momento imediato ao do seu nascimento; ou, por outras palavras, representa o deus solar Mitras como sicrética personificação do Tempo Infinito, cíclico mas imparável, conforme iconografia alegórica da serpente que o envolve e cuja cabeça - que ora falta - repousaria sobre a sua, e ainda de acordo com a máscara leonina que sobressai do peito, alusão múltipla ao cariz devorador de Chrónos, à invencibilidade e força do próprio Sol, do próprio Mitras, e ao ígneo holocausto cósmico do Fim dos Tempos». (José Cardim Ribeiro, Religiões da Lusitânia, 2002, p: 475)


Fotografia: Estátua de Chrónos mitraico proveniente de Mérida.

Termino este trabalho utilizando as palavras de José Leite de Vasconcellos: «O culto desta divindade da luz, protectora dos exércitos, e que patenteava às almas dos homens post mortem as regiões da glória eterna, propagou-se no orbe romano no tempo dos Flávios (séc. I), e desenvolveu-se no dos Antoninos e Severos (séc. I-II), mas talvez já contasse fiéis em Roma desde os fins da República, após as expedições de Pompeio ao Oriente. Para tornar solene tal culto, que a certos respeitos foi rival do Cristianismo, nada faltava: templos ou mithraea, alguns muito notáveis, edificados debaixo da terra, ou em desvios de montanhas; obras de arte; uma série hierárquica de iniciados (sacrati); clero activo; cerimónias secretas (mysteria); sacrifícios; libações: hinos; baptismo putificador; festas de sentido místico».
José Leite de Vasconcellos, 1913; pp: 334-335),

Ver ainda para este tema: http://www.altotejo.org/acafa/docsN2/O_Culto_de_Mitra_e_sepulturas_em_rocha.pdf
http://gladio.blogspot.com/2007/12/mitra-deus-ariano-da-luz-da-verdade-do.html



(Adaptado a partir do «Touro Esculpido de Miróbriga, Filomena Barata)

segunda-feira, fevereiro 14

Fernando Pessoa, Quadras Populares (reeditado)

Em vez de saia de chita
Tens uma saia melhor
De qualquer modo és bonita,
E o bonita é o pior

Teus brincos dançam se voltas
A cabeça a perguntar.
São como andorinhas soltas
Que inda não sabem voar.

Tens uma rosa na mão.
Não sei se é para me dar.
As rosas que tens na cara,
Essas sabes tu guardar.





Levas uma rosa ao peito
E tens um andar que é teu ...
Antes tivesses o jeito
De amar alguém, que sou eu.










Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.

(...)




Ainda propósito, diria eu, desta coisa que chama "Dia dos Namorados" em que quase se obrigam as pessoas a "namorar", aproveitando pacotes de mensagens pré-fabricadas, de músicas de ocasião ou fins de semana promissores, prefiro ir a contra-vapor e oferecer-te estas quadras de Fernando Pessoa.
Porque a poesia voa sempre e leva-nos a um lugar qualquer.
.....
ET: Reedito porque estou de acordo com o comentário da Inês aqui deixado há uns tempos atrás e julgo que devemos aproveitar este dia para o reler.

sexta-feira, fevereiro 4

[Setúbal na Rede] - O Forte e a Ilha do Pessegueiro

[Setúbal na Rede] - O Forte e a Ilha do Pessegueiro

O Litoral Alentejano .... (reed. do mês de Agosto 2009)

[Setúbal na Rede] - O Forte e a Ilha do Pessegueiro




















































http://mirobrigaeoalentejo.blogspot.com/

Caso possa sair de Lisboa neste fim de semana ou nas suas férias, recomendo que vá ao Alentejo Litoral e espreite o que em Tróia, Santiago do Cacém, Sines e a Ilha do Pessegueiro, Vila Nova de Milfontes há para ver.

Aproveite e faça também um regresso ao tempo dos Romanos.


E se tiver a sorte de ser guiado pelo arqueólogo Rui Fragoso (C.M. Santiago do Cacém) à Ilha do Pessegueiro, ainda melhor; ajudá-lo-á também a contactar o Senhor Matias, que o conduzirá a partir do cais de Porto Côvo e tão bem conhece os segredos do mar e daquele lugar: a fauna, a flora; o construído - cetárias romanas, dos séculos II a IV; o que resta do forte filipino e as pedreiras mandadas fazer por Alexandre Massai, sem se terem obtido, contudo, resultados proveitosos para a construção do referido forte ... tudo isso pode ver naquele mágico sítio.



Telemóvel Sr. Matias: 965535683

Imagens 5 a 12: Rui Fragoso

Pequenas imagens: a partir de Google.

quinta-feira, fevereiro 3

Começou hoje o Ano Lunar

Porque começou hoje o Ano Lunar na Mongólia, porque 03.02.2011 representa o Nove e nove é o número perfeito, tanto que equivale ao Nada, ao Princípio e ao Fim, deixo esta nota, dedicando-a a quem comigo partilhou o seu começo.

Eles sabem quem são e como é importante iniciar um NOVO ANO LUNAR! Bem haja o que nos uniu e unirá.





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Tsagaan Sar

Tsagaan Sar (Mongolian: Цагаансар, lua branca) é o Novo Ano Lunar na Mongólia.


É comemorado frequentemente em torno do Ano Novo Chinês.
Contudo, o Tsagaan Mongolian Sar não se relaciona com o Ano Novo chinês, mas com Ano Novo tibetano ou Losar.

O feriado branco da lua é comemorado dois meses a seguir à Lua Nova do solstício de inverno.

Pode consultar-se:
http://e-articles.info/t/i/6641/l/pt/
http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/Tsagaan_Sar
http://br2.mofcom.gov.cn/aarticle/aboutchina/publicholiday/200512/20051200995308.html

quarta-feira, janeiro 26

Partidas e chegadas ...

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As tramas e teias que o mundo tece ...

domingo, janeiro 16

sábado, janeiro 1

BOM 2011!




Com a vida inteira à espera ...

sábado, dezembro 25

BOM NATAL!



Não há distâncias! Só as que semeamos dentro de nós.

BOM NATAL a todos.
Por isso, que chegue quem por bem chega
e que parta quem tem que partir ...

sábado, dezembro 11

quinta-feira, dezembro 9

A Pascale Malinowski, uma das mulheres da minha vida (reed. 08-01-09)

[Setúbal na Rede] - Uma proposta de Itinerário: de Miróbriga, na Lusitânia Ocidental, ao limes em Strasbourg, Alsácia.

Ofereço este artigo à minha amiga Pascale Malinowski pelo seu contributo, certa que sem ele não podia ter sido possível a ideia este projecto.

Mesmo que não venha a ser possível nos moldes que idealizámos, espero que tenha valido a pena concebê-lo, e estou certa que, de algum modo, faremos a caminhada, pois tantas saudades tenho do Mercado de Natal em Strasbourg que me proporcionou.





Nasceu a 14 de Fevereiro de 1952, perto de Calais, num sítio chamado Douai.
Viveu na Turquia onde os pais foram professores, a partir dos seis anos, até 1971.
Nasceu no nordeste francês numa terra chamada Douai, perto de Calais.
Viveu pelo mundo, temporariamente nos EUA, nas Honduras Brasil, França e Portugal.
Trabalha em Srasbourg, como professora e formadora, assistindo via da profissão ao que se passa no mundo de emigrantes e refugiados. Para o bom e para o mau!
Mãe de quatro filhos, os seus "índios" como diz, nunca desistiu de continuar a estudar, a escrever.
Vive actualmente sozinha, melhor dizendo, muito bem acompanhada por apenas dois deles, os mais novos.
Formação em Inglês e Etnologia.
Tem feito muitos trabalhos, estudos, guiões para filmes, tendo-se especializado na História dos Jesuítas no Brasil, esperando, ainda este ano, ver editado um livro passado pelo Mundo no período de ocupação filipina em Portugal.
Faz teatro e ainda se dedica a escalar montanhas, para descontrair ao fim de semana.
Dá mimo aos amigos, muitos, e recebe em sua casa, como ninguém. Aí se pode comer refeições turcas, portuguesas e francesas. E tanto calor no mês em que Strasbourg já tem a árvore de Natal!
De manhã cedo, muito cedo, diz sempre um sereno olá no MSN.
Fala-me dos projectos do dia e incentiva-me a não desistir dos meus!

Afinal o mundo é tão pequeno quando se quer.
E porque através deste blogue, velhos amigos de longa data, que se não viam e não se conseguiam encontrar, puderam finalmente saber uns dos outros, lhe mando um grande abraço e desejos que seja MUITO, MAS MUITO FELIZ.
Ela entenderá.


Cá estarei à sua espera, como sempre!
....
E retomarei um dia o trabalho das "Mulheres da minha vida"



Fotografia de tatuagem:
Eduarda Abbondanza

quinta-feira, novembro 25

voltarei ao Miradouro da Lua

para ver as «Mulheres ao Luar»






segunda-feira, novembro 22

O Palácio da Ajuda



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Para lá caminhava eu, pela primeira vez em trabalho, em 1987, quando ainda o Departamento de Arqueologia funcionava nos Jerónimos.
Ao Palácio, onde se sediavam mais arquitectos do que historiadores ou arqueólogos, ia-se a "despacho" ou a uma qualquer reunião.
Sempre com a sensação de que o "poder" residia ali.
Repentinamente a "Arqueologia" mudou-se, e aproximou-se também mais desse espaço de decisão, sem que tivesse conseguido ainda "ombrear" com os seus pares arquitectos ou engenheiros.
Em 1998, fui nomeada, mediante concurso, para exercer funções em Évora. Afastei-me do Palácio nove anos, regressando-lhe de vez em vez, para as reuniões do Conselho Consultivo do IPPAR e para os habituais despachos, pois Lisboa dera algumas competências às Direcções Regionais, mas não as suficientes para se autonomizarem. Mas regressava-lhe sempre como se conhecesse a casa, pois nela já "residira", trabalhando.
Hoje daqui desta janela onde se espreita o Tejo, contígua à que foi minha quando aqui comecei a trabalhar ainda no Departamento de Arqueologia, há mais de 20 anos, sintetizo o vivido aqui e o ali, para Além do Tejo, no Alentejo que jamais esquecerei.

Arrumando todos os dias um pouco de mim, enquanto me dedico a trabalhar ...

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domingo, novembro 21

Os Gémeos (Lembrança para trabalhar)



Imagem 1 - Lápide dos «Gémeos Siameses», Capela de S. Brás, Castelo Branco, publicada no artigo «UM PARTO PRODIGIOSO EM CASTELO BRANCO NO SÉCULO XVIII» da autoria de Pedro Miguel Salvado (a quem agradeço), editado na Revista «Medicina na Beira Interior», nº8,1995, e dado também a conhecer por Joaquim Baptista no Blogue "Epigrafia Portuguesa do Distrito de Castelo Branco".
Recomendo a sua leitura pelas aspectos prodigiosos com que é conotado este nascimento de gémeos siameses.






Aos meus gémeos: a Joana Albarran, o Francisco Rocha, a Antónia Tinturé, a Carla Oliveira, a Masisa Matos Dias.

E também a Bettips, minha observadora dual.







No dia em que me dispus a começar apressadamente o meu trabalho sobre alguns aspectos simbólicos, mitológicos e históricos relacionados com os Gémeos, verifiquei que, mesmo sem querer, estava a preparar-me para os homenagear.
Lembrei-me ainda que me tenho sentido um pouco como eles, una e dividida, tentando, tal como os Gémeos, obter uma harmonia interior através da redução do múltiplo à unidade, num permanente combate pelo equilíbrio na dualidade.

Isto porque a minha vida se construiu, em anos recentes, numa constante ambivalência, que nem sempre foi fácil de gerir:

· Duas casas, dois espaços, ambos fortes e fundamentais.
· Ausências e presenças também elas com afectos duais.
· Dois Alentejos onde trabalhei, um litoral e outro interior, sem por um poder decidir.

De toda estas dualidades a mais fecunda é a existência de duas mulheres juntas, mãe e filha, ambas crescendo lado a lado, porque a aprendizagem nem sempre é fácil, mas tem sido mútua.

Pesando todos estes factores e porque, no fundo, a vida de todos nós tem tanto destas dualidades que tentamos que conduzam à unicidade equilibrada, decidi aceitar o repto que me fizeram, algum tempo atrás, de preparar uma pequena intervenção, num encontro cuja temática foi centrada nos vários aspectos sócio-psicológicos relacionados com os gémeos, fazendo uma resenha de como eles têm sido encarados em algumas culturas, mitologias e religiões.

Segundo o «Diccionário dos Símbolos», coordenado por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, idependentemente da forma como os gémeos são encarados: perfeitamente simétricos, um obscuro e o outro luminoso, um voltado para o céu e o outro para a terra, um negro e o outro branco, vermelho ou azul, um com cabeça de touro e outro com cabeça de escorpião, é um facto que exprimem sempre, ao mesmo tempo, uma intervenção do além e a dualidade de todo o ser ou o dualismo das suas tendências, espirituais e materiais, diurnas e nocturnas.

É o dia e a noite, o Sol e a Lua, os aspectos celeste e terrestre do cosmos e do Homem: o Sol, com a força vivificante dos seus raios, que desempenha genericamente o papel masculino e patriarcal e, por isso foi associado quer a Febos, quer a Hórus; e a Lua, telúrica, é a força feminina e matriarcal que se associa a Cibele, Ísis, Proserpina, que faz desabrochar os frutos e condiciona o crescimento de ervas e plantas. Também entre os Persas, o Sol ou Ormuzd, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; em contrapartida, à Lua ou Arimânio, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra.

Mas como em quase todas as dualidades simbólicas, é através do casamento mistérico do Sol e da Lua; do Céu e da Terra que se pode alcançar a Unicidade Divina.

Podem simbolizar as oposições internas do Homem, da vida e da morte, do divino e do mortal, do bem e do mal, e o combate que ele tem que travar para ultrapassar as oposições, cabendo às forças espirituais da evolução progressiva assegurar a sua supremacia sobre as forças regressivas.
Mas poderão ainda simbolizar a identidade, como se os Gémeos fossem cópias ou duplos um do outro. Aqui exprimem a unidade obtida numa dualidade equilibrada, pois representam o que em todos nós existe de "eu e seu duplo".
Genericamente, os Gémeos aparecem carregados de uma força poderosa, seja perigosa, seja protectora, podendo ser deuses ou heróis, pressupondo-se mesmo que maoiritariamente eles fosses fruto da união de um mortal com um deus.
Tal como o número dois que representa o eco, o reflexo, o conflito e a contraposição, os Gémeos assumem, portanto, o dualismo fundamental do ser, até porque o dois é o primeiro número que destrói a unidade, o Um, ou Deus, a Divindade. É o número da alteridade. No fundo, é esse momento brutal em que a criança deixa de ver na mãe como uma extensão de si próprio a ela passa a ser um "outro".
Por isso, intimamente ligado com o arquétipo de Gémeos são as divindades hermafroditas ou andróginas. O mito do Andrógino, ou signo de totalidade inicial, muitas vezes concebido como ovo cósmico, representa a plenitude da unidade fundamental e primordial onde se confundem os opostos, círculo que contém o princípio e o fim.
É comum a muitas Civilizações e Culturas, como a egípcia, a fenícia, a grega, a indiana, a chinesa, a indonésia ou mexicana. É através da partição que cosmicamente se cria ou se diferencia a noite e o dia, o céu e a terra, o macho e a fêmea.
Platão na sua obra «Banquete» relembra o mito do Andrógino, afirmando que o Homem original tinha a forma esférica, integrando os dois corpos e os dois sexos. São estas as suas palavras: «... naquele tempo, o andrógino era um género distinto e que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea».
A própria Bíblia, segundo o Génesis, ao assumir que Eva foi tirada de uma costela de Adão aceita que, na origem, todo o humano era indiferenciado e que o nascimento de Eva mais não teria sido do que a cisão do Andrógino primordial em dois seres: macho e fêmea. O retorno ao estado primordial, à unicidade primeira, em que se inclui a ideia de fusão do divino e humano, é para a maioria das religiões o grande objectivo da vida.
É pois nesta relação unicidade/dualidade que o mito do Andrógino se aproxima do arquétipo de Gémeos, que se encontra também reflectido em muitos mitos e religiões.
Zervan, o deus iraniano que os historiadores gregos traduziram por Cronos, é andrógino e deu origem a dois gémeos: Ormuzd e Ahriman, o deus do bem e do mal, da luz e das trevas.
Nas representações dos sacrifícios dedicados ao deus Mitra, que sendo de origem indo-europeia, obteve grande devoção entre as legiões romanas, aparecem comummente dois irmãos gémeos, um com uma tocha virada para cima e acesa e outro com a tocha virada para baixo e apagada. Isto porque Mitra é irmão gémeo de Varuna, que ocupa o cume do panteão e domina os céus, e Mitra é o deus da luz, representando dois aspectos da essa mesma luz eterna, a síntese da luz solar e lunar. Mitra surge, aliás, como uma espécie de "terceiro elemento", uma divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua oculte o Sol.
Entre os Gregos, da Noite, esfera imensa e oca, separam-se, como o desabrochar de um ovo, duas metades: O Céu e a Terra (Urano e Geia), de cuja união nascem os Titãs.
Também na Mitologia Grega, as divindades gémeas Apolo-Artemisa situam-se entre os doze grandes deuses do Olimpo. Ambos eram filhos de Zeus, o chefe supremo dos deuses gregos, e de Leto, uma mortal que foi abandonada pelo Senhor do Olimpo quando estava para dar à luz, devido aos ciúmes da sua possessiva mulher, Hera.
Enquanto Apolo é o deus da Luz, do Sol e da Verdade, da vitória sobre a violência, a suprema espiritualidade, Artemisa, é a deusa virgem da vida selvagem, senhora dos bosques e dos montes, caçadora-chefe dos deuses, e era associada à Lua e a tudo o que acontecia na escuridão, sendo mesmo considerada por alguns autores uma divindade cruel e vingativa.
Ainda na mitologia grega e romana encontamos outros gémeos: , filhos de Leda, que eram divindades protectoras dos marinheiros.
As referências que sobre eles chegaram aos nossos dias são um pouco contraditórias. Por vezes, apenas Pólux é considerado como divino, enquanto Castor não passa de um simples mortal, devendo uma espécie de meia imortalidade ao facto de o seu inseparável irmão Pólux não ter suportado a sua morte e ter resolvido partilhar com ele a imortalidade. Nessa versão, Leda, a mãe, e o seu esposo Tíndaro, rei de Esparta, terão tido dois filhos, como quaisquer outros mortais, um deles Castor. Só que o deus Zeus, disfarçado sob a forma de um belo cisne, terá cortejado Leda e desta relação teriam nascido outros dois filhos, estes sim imortais: Pólux e Helena, a bela heroína de Tróia. No entanto, e apesar de filhos de pais diferentes, é comum referi-los como nados de um ovo de Leda e filhos de Zeus ou Dióscuros.
Não obstante, muitas vezes eles foram designados ambos como «filhos de Zeus», tendo os dois atingido a imortalidade, se bem que, em muitas versões, ela seja dividida, pelo que alternadamente vivem entre o Céu e a Terra.
Enquanto Castor era considerado um exímio domador de cavalos, Polux celebrizou-se como bom lutador. Na maior parte das histórias consta que estas duas divindades viviam metade do tempo na Terra e outra metade no Céu, denotando bem a ambivalência com que foi tratada a essência destes dois irmãos que são considerados gémeos.
Esta situação pendular ou ambivalente de viagens simbólicas entre a Terra e suas entranhas é, aliás, comum a outras divindades, a exemplo Proserpina, divindade "lunar" do mundo subterrâneo,"horrível pelos seus uivos nocturnos", pois esta divindade, filha de Zeus com Demetra foi raptada por Hades o deus dos mortos que fez dela a sua esposa. No entanto, ela vive parte do ano nesse mundo das "entranhas da Terra" e outra parte à luz do Sol.

Regressando aos Gémeos Castor e Pólux , relembro que a morte de Castor se deveu a um confronto com uma outra dupla de gémeos, Idas e Linceu, seus primos, a quem tentaram roubar as noivas.

Por seu lado, a dupla gemelar Rómulo e Remo simboliza, de algum modo, os gémeos em oposição. Rómulo e Remo são filhos de uma união ilícita entre Reia Sílvia e o deus Marte, que a seduziu. Por ter tido esta relação foi castigada por seu tio, o rei Amúlio, que se tinha apoderado do poder, aprisinonando o seu próprio irmão. Isto porque, tendo em vista afastar a eventualidade de ela ter algum descendente ao trono, o seu tio Amúlio havia obrigado Reia Sílvia, que era filha do legítimo rei e herdeiro do trono, o seu irmão Numitor, a consagrar-se ao culto de Vesta que exigia a castidade e, por isso mesmo, inibia a maternidade. Por ter faltado ao voto de castidade foi condenada à morte e os dois gémeos foram expostos num cesto de vime junto ao rio Tibre. As águas revoltas do rio contribuiram para que o berço tivesse sido levado para o sopé de uma das colinas da futura Roma, onde uma loba os descobriu e alimentou com o leite dos seus seios. Mais tarde, um pastor, Fáustulo, e a esposa Aca Larência, criaram-nas e instruíram-nos.
Chegados à idade adulta, Rómulo e Remo, dedicaram-se à pilhagem e roubaram algumas cabeças de gado do próprio rei Amúlio. Remo foi preso e Rómulo, em sua defesa, acabou por matar o rei usurpador, e repôs no trono o seu avô Numitor.

A dificuldade fundacional e simbólica da cidade de Roma deve-se também ao facto de os dois irmãos serem gémeos que decidem dar à interpretação dos auspícios diferentes significados, tendo entrado em disputa a propósito da localização e das condições da fundação da futura Roma. Deste modo, Rómulo escolheu o Palatino e Remo escolheu o Aventino e ambos foram proclamados reis ao mesmo tempo, tendo originado o conflito que acabou por conduzir à morte de Remo e à subida ao poder de Rómulo.
Segundo uma das lendas da fundação de Roma, Rómulo influenciado pelos oráculos acabou por traçar com a charrua um sulco que delimitava o recinto da futura Roma, proibindo Remo de o transpor. Porque Remo não escutou a advertência de Rómulo, acabou por sucumbir às mãos do próprio irmão, que ficou senhor único de todo o território.
Pese o assassínio do seu irmão Remo, Rómulo acabou por ser divinizado com o nome de Quirino, tendo sido ficado eternamente ligado à fundação de Roma.
Por vezes são representados um com a cabeça de touro, também ele uma força genésica e primordial, e outro com a cabeça de escorpião.
Simbolicamente o significado desses dois gémeos é o mesmo: o branco e o negro; a luz e a escuridão, o dia e a noite.
Mas existem muitas outras refências a gémeos em diversas religões antigas.
Na Bíblia, logo no Génesis, encontramos dois Gémeos: Tamar, nora de Judá, engravida do sogro, tendo-se disfarçado de meretriz. Quando estava a dar à luz, uma das crianças estendeu a mão para fora e a parteira coloca-lhe um fio escarlate, dizendo: é o primeiro. Mas a criança recolhe a mão e o irmão acaba por nascer primeiro; este foi chamado Farés, tendo o segundo o nome de Zara (Génisis, 38, 28).
Segundo uma interpretação simbólica desta referência bíblica, as crianças simbolizam o Sol e a Lua, que sai e volta a entrar para deixar passar o Sol em primeiro lugar.
No signo do Zodíaco, representado genericamente por duas crianças de mãos dadas (se bem que haja zoodíacos que representem um homem e uma mulher ou dois amantes), os Gémeos são símbolo geral da dualidade ne semelhança e até na identidade e a imagem de todas as oposições interiores e exteriores, contrárias ou complementares, que se resolvem numa tensão criadora. E não é por acaso que a fase dos Gémeos se completa desembocando na eclosão do Verão. E também por isso mesmo que Gémeos seja o signo da diversidade, da comunicação e do movimento constante, caracterizando-se por uma grande compreensão da vida, enorme capacidade para a integração, necessidade de relativização e de uma constante conceptualização da vida e das coisas.
Mercúrio, o planeta regente de Gémeos, é o vizinho mais próximo do Sol, e o planeta mais rápido. Por isso a sua associação à divindade mitológica com o mesmo nome, deus dotado de asas nos pés, mensageiro do Olimpo que «voava tão célere como o pensamento», deus astuto e arguto e protector dos comerciantes e dos ladrões.
Mas Mercúrio é também o metal líquido que representa na tradição hermética ou alquímica o princípio e o fim da Obra, o Mercúrio que tudo contém antes da separação dos seus compostos.
A carta do Tarot correspondente aos Gémeos, a carta 6, é «o Amoroso» ou «Enamorado». Nessa carta é representado um homem entre duas mulheres encimado pelo deus Eros ou Cupido com uma flecha. O significado geral dessa carta é a ideia de encruzilhada, que inclui tensão, hesitações e ambivalência. As duas figuras femininas apontam para a necessidade de uma escolha entre a virtude e o vício, o bem e o mal, o passado e o futuro.