mesmo em dias em que a cor cinza parece tudo cobrir
há o longe, e sempre, um outro lugar para desvendar
...
a luminosidade é uma placa de zinco suspensa
do céu do deserto
em redor
a imensidão das areias vibra contra o caos
de pedra e de eufóbios que se multiplicam
a perder de vista
o bafo inquieto dos cavalos acende
a pólvora das festas inesperadas
uma coruja morre
no cimo açucarado da tamareira
caminhas
sitiada pelo canto agudo do muezin
chamando à oração
mektoub
sítios onde a vida cessou e tudo está escrito
há séculos - onde o coração dos homens
é uma rosa nómada e calcária
no limite da escassa água e desta terra seca
mal abençoada - caminhas
na pla noite das ardósias
nas jeiras de súplicas e recolhimento onde
talvez se esconda
o contorno quase terno do rosto de deus
Al Berto, Vigílias
segunda-feira, novembro 8
sábado, novembro 6
sexta-feira, novembro 5
Há coisas e coisas ....
Como há quem se despeça tão facilmente dos seus objectos de estimação?
Durante três anos o meu fantástico telemóvel para todo o lado me acompanhou.
Faz fotografias melhores do que muitas máquinas ... verdade se diga que estas "Cyber shot" têm uma lentes extraordinárias.
Mas três anos feitos deste fantástico presente de Natal, a memória começou a "entrar em disfunção" .... e não tive outro remédio que outro comprar, porque senão quem ia entrar era eu: pura e simplesmente amuou e deixou de cumprir dotas as indicações.
Mas, nem penses vaidoso telemóvel novo e táctil que, lá porque tens um belo GPS (sempre bom para entreter uma filha quando se vai de viagem, é um facto ...), que vou abandonar o outro como a máquina das minhas fotografias.
Isso nem pensar, tanto mais que foste sempre o grande companheiro deste blogue!!!
Este mês das "bruxinhas", elas resolverem avariar vários dos meus objectos de estimação ....
Vejam lá, sosseguem depressa essas vassouras, senão com elas ainda vos vou ter que dar!!!
De Eva a Roma: O Papel das Divindades femininas em Roma . Para a Cidade das Mulheres (reeditado de 19.04.08)
Cris, no dia dos teus anos quero dedicar à tua Cidade das Mulheres um texto sobre o papel das mulheres e das sacerdotisas na difusão da ideologia imperial romana e antes dela na República que a precedeu.
Para ti e todas as mulheres da minha vida.
Eva só conheço três: a do “Paraíso Perdido” e do “Pecado Original” ; uma Eva Bruno de que tanto gosto e uma Eva Cantarella que se dedica ao estudo da Mulher Romana.
Talvez por esta última ser também Eva, e talvez por eu tango gostar da Civilização romana, resolvi não me centrar exclusivamente na Eva do Éden e do Génesis, e pensar também um pouco na mitologia do que genericamente se designa como “Antiguidade Clássica”. No universo feminino e sua representação, segundo o que nos é dado conhecer pelos escritos que dessa época existem.
Na Grécia Antiga, racionalizada, apenas duas mulheres, Circe e Medeia, têm poderes mágicos ou sobrenaturais que espelham, de algum modo, a memória de um mundo ancestral e arcaico, onde o Homem era ainda dominado por medos do desconhecido (quem sabe se a Eva das Sagradas Escrituras não seria também uma "maga" dotada de conhecimentos sobre a árvore do “bem” e do “mal” e sobre as poções que dela poderia extrair, de que a maçã é apenas a metáfora ...).
As narrativas mitológicas centradas em mulheres (como nos homens aliás) são, portanto, veículos de interpretação de um universo que se pretende descritível, narrável e, deste modo, enquadrados numa “religião racional”.
Entre os Titãs, ou “deuses primitivos” encontra-se Mnemosine, que significa “Memória”. Mnemosine era filha de Geia (que personifica a terra em formação, gerada do nada, mãe e esposa de Úrano, com o qual constitui o primeiro casal divino) e mãe das nove Musas. Entre os “deuses supremos” do Olimpo temos a possessiva e ardilosa Hera, a poderosa Atena, a caprichosa Afrodite, a protectora Artemisa e a discreta Héstia. Estas personagens femininas, ao contrário da Eva bíblica, desempenham um papel fundamental na trama que se constrói entre as entidades divinas e entre estas e os Humanos.
No entanto, podemos rembrar tantas outras que desempenharam um papel cruxial na mitologia e na própria literatura, A tradição clássica consagrou para a posteridade uma extensa galeria de figuras femininas. Notáveis pela auréola mítica (...),essas mulheres tiveram seus nomes transformados em símbolos, em estereótipos
dos quais a arte, nas suas diversas formas de expressão, em todos os tempos
posteriores, apropriou-se, tornando-os patrimônio comum da humanidade", referindo, a título de exemplo, Afrodite, Andrômaca, esposa de Heitor, Andrômeda, Antígona, Ariadne, Ártemis, Atenas, Aurora; as Bacantes; as Camenas, Calíope, Calipso, Cibele, Cíntia,Circe, Clio, Dafne, Deméter, Dido, a épica e trágica personagem que Virgílio imortalizou na Eneida , a amante apaixonada de Eneias que vítima da urdidura de Vénus e Juno, divindades cujo ciúme e vaidade tecem o enredo da sua paixão, Diana; Electra, Eurídice, Europa; Fedra, as Fúrias, Górgona; Harmonia, as Harpias, Helena, Hera; Ifigênia, Io; Jocasta, Juno; Leda, Medeia, Medusa,Melpômene, as Mênades, Minerva, Moira, as Musas; as Nereidas, as Ninfas; as Parcas, Partênope, Pasífae, Penélope, Perséfone, Pirra, Políxena,Prosérpina; Quimera. Adap. a partir de REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA POESIA LATINA, Aécio Flávio de Carvalho* http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br).
O estatuto de Eva é, contudo, mais ambíguo, pois a sua persongem não tem contornos definidos na narrativa bíblica. Nascida (como, aliás, algumas divindades da mitologia greco-romana) do corpo de um homem que, apesar de ter podido presenciar o divino antes do “Pecado Original”, não o é, Eva é apenas a “Mulher”. Sendo num primeiro momento agente é ela que provoca com a sua curiosidade o “Pecado Original” e rapidamente se transforma num ser cuja função exclusiva é procriar, sendo que essa função é ela própria um estigma, pois um dos castigos que lhe é infringido é “a dor da gravidez”. Torna-se também num mero objecto da dominação masculina, pois o anátema que sobre ela caiu foi proferido pela voz divina, que lhe é alheia e superior: “terás desejo ardente de teu esposo, e ele te dominará”.
Ao contrário, na mitologia greco-romana as divindades femininas são bem mais afirmativas, agentes ou adjuvantes em todo o enredo das(es)/histórias que se geram em seu torno: Hera, filha dos Titãs Oceano e Tétis, é o centro de uma trama onde o ciúme e a vingança obtida com uma ira implacável chegam a perturbar o próprio “deus dos deuses”.
No entanto, pese embora a sua personalidade, ou por isso mesmo, ela é também a protectora das casadas ou das parturientes, tendo gerado Ilitia, que acabará por zelar por estas últimas.
Atena, a virgem, que não foi gerada por uma mulher, porque brotou da cabeça de Zeus, é também feroz. Protectora da agricultura e das actividades artesanais, esta deusa tudo fará, contudo, para salvar a “Cidade”, mesmo que seja através da guerra. A deusa do Amor e da Beleza Afrodite é, por sua vez, capaz de todos seduzir, deuses ou mortais.
Estas divindades, embora todas filhas, irmãs ou amantes de Zeus, desempenham, não obstante, papéis diferenciados, autónomos, interferindo em quase todos os aspectos da vida, tal como acontece com as “deusas menores”. Apesar dessa filiação/irmandade mimetizar, de certa forma, a situação bíblica, pois também Eva nasce da costela de Adão e dele se tornar concubina, não haver ter qualquer equivalência no que diz respeito ao protagonimo assumido pelas personagens.
De salientar, contudo, que o papel desempenhado pelos seres femininos na mitologia grega se contrapõe, de algum modo, à condição a que é remetida efectivamente a mulher. Já em Roma, que adoptou e adaptou os deuses gregos, a situação da mulher não tem um aspecto tão intimista. Embora submetidas ao poder patriarcal (do omnipotente paterfamilias ou seu sucedâneo - o marido ou o sogro de que poderia tornar-se “filha” através do matrimónio - , as mulheres romanas assumem um desempenho que poderemos considerar mais extrovertido, mais visível ou mesmo extravagante, como acontecia com algumas, normalmente priveligiadas.
As mulheres romanas quer as divinas, quer as humanas, participam, portanto, de uma sorte onde se envolvem, desde um primeiro momento, os dois sexos, na igualdade possível...
Eva, essa, participará apenas do devir solitário a que quiseram condenar, no mundo judaico-cristão, até praticamente os nossos dias, a Mulher

Vénus é a "mãe" de uma linhagem, que, por via feminina, justifica o poder divinizado de Augusto.
Será, doravante, a deusa Venus Genitrix que , com Marte Ultor, acompanhará o poder imperial, proclamando a sua imortalidade.
E a Lívia, esposa de Augusto, associaram-se Juno, Vénus, Ceres, Vesta ou a divindade de origem frígia Cibeles.
E as sacerdotizas nada mais fazem, após a aceitação do poder divino do imperador/imperatriz, do que sedimentar a ideologia centralizada, de quem são defensoras e garantes.
Mas antes desse poder, o do Império nascente e pujante, já as mulheres tinham, em Roma, entre as divindades, o seu pleno lugar.
Em Roma, cada homem tinha o seu Génio e cada mulher a sua Juno.
Os prórios imperadores e os deuses tinham o seu Génio, acompanhantes da sorte e do infortúnio.
Em casa, onde imperava o Pater Familias, pontuavam os Lares e os Penates, enquanto as mulheres seguravam arduamente as chaves das portas que, com libações, libertavam do que fosse negativo ou intrusivamente mau.
De algum modo,´essa realção no interior da casa permite que «A noção romana da integridade moral da mulher desenvolveu-se em função da noção da propriedade pessoal, e a castidade feminina (implícita na virtude matronal) tornou-se parte integrante da posse de um bem fisíco; a expropriação passiva ou activa do próprio corpo era, como toda a expropriação, idêntica, portanto, à decadência moral e material, à humilhação irremediável ...» (Klossowsky), acabando por viabilizar a centralização do poder, que, aparentemente disseminado/descentralizado nos nossos dias, acaba, por ainda replicar a herança da Roma primordial.
(Na Igreja e no Estado discute-se ainda se será possível existir um estar e um poder e que não passe pela apropriação de bens, de ideias e de pessoas nos moldes que Roma criou: punitiva para quem acredite que é possível estar de outra forma).
Nas virtudes particulares espelha-se também o lugar que o Universo Feminino consegue ter entre as divindades romanas, em virtudes como Pax, Fides, Victoria, Libertas, Virtus, Pietas., que se constituem garantes de um mundo sedimentado em valores em que o religioso nunca se separa da guerra, do poder, ou do amor.
E Fortuna, a quem foram dedicados vários templos e altares, adorada sob vários epítetos, não deixará de ser a deusa da felicidade, do acaso feliz.
E ainda há, entre os deuses maiores, a cruel, rancorosa e ciumenta Hera de que acima já falámos, esposa de Zeus, curiosamente a única divindade casada do Olimpo com esse Deus pai dos deuses, mas sempre infiel. Como não o consegue enfrentar, vinga-se nos filhos que Zeus teve das mortais Io e Europa. Apesar dos atributos reais, o ceptro e o diadema e a cabeça coberta de véus, símbolo do casamento, Hera nunca foi mais do que a esposa de Zeus, não se tendo constituído nunca como "rainha dos deuses e dos homens".
Transmutando-se e transmutando os outros, Hera será também a matriz do pensamento feminino ocidental, pois como nunca conseguiu derrotar o pai dos deuses, acabará por exercer noutras mulheres, noutras entidades divinas, a sua perfídia e a sua vingança.
Ou então falar dessa divindade Prosérpina, como Claudiano a descreve:
O Rapto de Prosérpina, Claudiano
Vale a pena ler : «La religiosidad de las Sacerdotisas de la Betica», in Congresso Peninsular de Historia Antiga, 1993, Faculdade de Letras de Coimbra.
Origens Cultuais e Míticas de um Certo Comportamento Romano, Pierre Klossowsky
(Falando nisso Cris, estou ainda em falta com o prometido texto da Salomé pedindo a cabeça de S. João).
Sei que voltarei,de novo, a Roma.
Para ti e todas as mulheres da minha vida.
Eva só conheço três: a do “Paraíso Perdido” e do “Pecado Original” ; uma Eva Bruno de que tanto gosto e uma Eva Cantarella que se dedica ao estudo da Mulher Romana.
Talvez por esta última ser também Eva, e talvez por eu tango gostar da Civilização romana, resolvi não me centrar exclusivamente na Eva do Éden e do Génesis, e pensar também um pouco na mitologia do que genericamente se designa como “Antiguidade Clássica”. No universo feminino e sua representação, segundo o que nos é dado conhecer pelos escritos que dessa época existem.
Na Grécia Antiga, racionalizada, apenas duas mulheres, Circe e Medeia, têm poderes mágicos ou sobrenaturais que espelham, de algum modo, a memória de um mundo ancestral e arcaico, onde o Homem era ainda dominado por medos do desconhecido (quem sabe se a Eva das Sagradas Escrituras não seria também uma "maga" dotada de conhecimentos sobre a árvore do “bem” e do “mal” e sobre as poções que dela poderia extrair, de que a maçã é apenas a metáfora ...).
As narrativas mitológicas centradas em mulheres (como nos homens aliás) são, portanto, veículos de interpretação de um universo que se pretende descritível, narrável e, deste modo, enquadrados numa “religião racional”.
Entre os Titãs, ou “deuses primitivos” encontra-se Mnemosine, que significa “Memória”. Mnemosine era filha de Geia (que personifica a terra em formação, gerada do nada, mãe e esposa de Úrano, com o qual constitui o primeiro casal divino) e mãe das nove Musas. Entre os “deuses supremos” do Olimpo temos a possessiva e ardilosa Hera, a poderosa Atena, a caprichosa Afrodite, a protectora Artemisa e a discreta Héstia. Estas personagens femininas, ao contrário da Eva bíblica, desempenham um papel fundamental na trama que se constrói entre as entidades divinas e entre estas e os Humanos.
No entanto, podemos rembrar tantas outras que desempenharam um papel cruxial na mitologia e na própria literatura, A tradição clássica consagrou para a posteridade uma extensa galeria de figuras femininas. Notáveis pela auréola mítica (...),essas mulheres tiveram seus nomes transformados em símbolos, em estereótipos
dos quais a arte, nas suas diversas formas de expressão, em todos os tempos
posteriores, apropriou-se, tornando-os patrimônio comum da humanidade", referindo, a título de exemplo, Afrodite, Andrômaca, esposa de Heitor, Andrômeda, Antígona, Ariadne, Ártemis, Atenas, Aurora; as Bacantes; as Camenas, Calíope, Calipso, Cibele, Cíntia,Circe, Clio, Dafne, Deméter, Dido, a épica e trágica personagem que Virgílio imortalizou na Eneida , a amante apaixonada de Eneias que vítima da urdidura de Vénus e Juno, divindades cujo ciúme e vaidade tecem o enredo da sua paixão, Diana; Electra, Eurídice, Europa; Fedra, as Fúrias, Górgona; Harmonia, as Harpias, Helena, Hera; Ifigênia, Io; Jocasta, Juno; Leda, Medeia, Medusa,Melpômene, as Mênades, Minerva, Moira, as Musas; as Nereidas, as Ninfas; as Parcas, Partênope, Pasífae, Penélope, Perséfone, Pirra, Políxena,Prosérpina; Quimera. Adap. a partir de REPRESENTAÇÕES DA MULHER NA POESIA LATINA, Aécio Flávio de Carvalho* http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br).
O estatuto de Eva é, contudo, mais ambíguo, pois a sua persongem não tem contornos definidos na narrativa bíblica. Nascida (como, aliás, algumas divindades da mitologia greco-romana) do corpo de um homem que, apesar de ter podido presenciar o divino antes do “Pecado Original”, não o é, Eva é apenas a “Mulher”. Sendo num primeiro momento agente é ela que provoca com a sua curiosidade o “Pecado Original” e rapidamente se transforma num ser cuja função exclusiva é procriar, sendo que essa função é ela própria um estigma, pois um dos castigos que lhe é infringido é “a dor da gravidez”. Torna-se também num mero objecto da dominação masculina, pois o anátema que sobre ela caiu foi proferido pela voz divina, que lhe é alheia e superior: “terás desejo ardente de teu esposo, e ele te dominará”.
Ao contrário, na mitologia greco-romana as divindades femininas são bem mais afirmativas, agentes ou adjuvantes em todo o enredo das(es)/histórias que se geram em seu torno: Hera, filha dos Titãs Oceano e Tétis, é o centro de uma trama onde o ciúme e a vingança obtida com uma ira implacável chegam a perturbar o próprio “deus dos deuses”.
No entanto, pese embora a sua personalidade, ou por isso mesmo, ela é também a protectora das casadas ou das parturientes, tendo gerado Ilitia, que acabará por zelar por estas últimas.
Atena, a virgem, que não foi gerada por uma mulher, porque brotou da cabeça de Zeus, é também feroz. Protectora da agricultura e das actividades artesanais, esta deusa tudo fará, contudo, para salvar a “Cidade”, mesmo que seja através da guerra. A deusa do Amor e da Beleza Afrodite é, por sua vez, capaz de todos seduzir, deuses ou mortais.
Estas divindades, embora todas filhas, irmãs ou amantes de Zeus, desempenham, não obstante, papéis diferenciados, autónomos, interferindo em quase todos os aspectos da vida, tal como acontece com as “deusas menores”. Apesar dessa filiação/irmandade mimetizar, de certa forma, a situação bíblica, pois também Eva nasce da costela de Adão e dele se tornar concubina, não haver ter qualquer equivalência no que diz respeito ao protagonimo assumido pelas personagens.
De salientar, contudo, que o papel desempenhado pelos seres femininos na mitologia grega se contrapõe, de algum modo, à condição a que é remetida efectivamente a mulher. Já em Roma, que adoptou e adaptou os deuses gregos, a situação da mulher não tem um aspecto tão intimista. Embora submetidas ao poder patriarcal (do omnipotente paterfamilias ou seu sucedâneo - o marido ou o sogro de que poderia tornar-se “filha” através do matrimónio - , as mulheres romanas assumem um desempenho que poderemos considerar mais extrovertido, mais visível ou mesmo extravagante, como acontecia com algumas, normalmente priveligiadas.
As mulheres romanas quer as divinas, quer as humanas, participam, portanto, de uma sorte onde se envolvem, desde um primeiro momento, os dois sexos, na igualdade possível...
Eva, essa, participará apenas do devir solitário a que quiseram condenar, no mundo judaico-cristão, até praticamente os nossos dias, a Mulher

Vénus é a "mãe" de uma linhagem, que, por via feminina, justifica o poder divinizado de Augusto.
Será, doravante, a deusa Venus Genitrix que , com Marte Ultor, acompanhará o poder imperial, proclamando a sua imortalidade.
E a Lívia, esposa de Augusto, associaram-se Juno, Vénus, Ceres, Vesta ou a divindade de origem frígia Cibeles.
E as sacerdotizas nada mais fazem, após a aceitação do poder divino do imperador/imperatriz, do que sedimentar a ideologia centralizada, de quem são defensoras e garantes.
Mas antes desse poder, o do Império nascente e pujante, já as mulheres tinham, em Roma, entre as divindades, o seu pleno lugar.
Em Roma, cada homem tinha o seu Génio e cada mulher a sua Juno.
Os prórios imperadores e os deuses tinham o seu Génio, acompanhantes da sorte e do infortúnio.
Em casa, onde imperava o Pater Familias, pontuavam os Lares e os Penates, enquanto as mulheres seguravam arduamente as chaves das portas que, com libações, libertavam do que fosse negativo ou intrusivamente mau.
De algum modo,´essa realção no interior da casa permite que «A noção romana da integridade moral da mulher desenvolveu-se em função da noção da propriedade pessoal, e a castidade feminina (implícita na virtude matronal) tornou-se parte integrante da posse de um bem fisíco; a expropriação passiva ou activa do próprio corpo era, como toda a expropriação, idêntica, portanto, à decadência moral e material, à humilhação irremediável ...» (Klossowsky), acabando por viabilizar a centralização do poder, que, aparentemente disseminado/descentralizado nos nossos dias, acaba, por ainda replicar a herança da Roma primordial.
(Na Igreja e no Estado discute-se ainda se será possível existir um estar e um poder e que não passe pela apropriação de bens, de ideias e de pessoas nos moldes que Roma criou: punitiva para quem acredite que é possível estar de outra forma).
Nas virtudes particulares espelha-se também o lugar que o Universo Feminino consegue ter entre as divindades romanas, em virtudes como Pax, Fides, Victoria, Libertas, Virtus, Pietas., que se constituem garantes de um mundo sedimentado em valores em que o religioso nunca se separa da guerra, do poder, ou do amor.
E Fortuna, a quem foram dedicados vários templos e altares, adorada sob vários epítetos, não deixará de ser a deusa da felicidade, do acaso feliz.
E ainda há, entre os deuses maiores, a cruel, rancorosa e ciumenta Hera de que acima já falámos, esposa de Zeus, curiosamente a única divindade casada do Olimpo com esse Deus pai dos deuses, mas sempre infiel. Como não o consegue enfrentar, vinga-se nos filhos que Zeus teve das mortais Io e Europa. Apesar dos atributos reais, o ceptro e o diadema e a cabeça coberta de véus, símbolo do casamento, Hera nunca foi mais do que a esposa de Zeus, não se tendo constituído nunca como "rainha dos deuses e dos homens".
Transmutando-se e transmutando os outros, Hera será também a matriz do pensamento feminino ocidental, pois como nunca conseguiu derrotar o pai dos deuses, acabará por exercer noutras mulheres, noutras entidades divinas, a sua perfídia e a sua vingança.
Ou então falar dessa divindade Prosérpina, como Claudiano a descreve:
| «Prosérpina, por seu lado, encantado a casa com doce cantar, tecia, em vão, um presente para o regresso da sua mãe. Neste pano lavrava com a agulha a série dos elementos e o trono paterno, bordava com que regra a mãe natureza ordenou a antiga confusão e como os elementos e como os elementos se dispuseram nos lugares próprios: o que é leve para o alto é conduzido, no meio caem as coisas mais pesadas, tornou-se o ar incandescente, o fogo ergueu-se para o céu, ondeou o mar, ficou suspensa a Terra. E não havia apenas uma cor: com ouro iluminou as estrelas, derramou as águas com púrpura. Com pedras reciosas ergue um litoral, fios em relevo dão engenhosamente forma a fingidas ondas (...) Acrescentou três regiões: com um fio escarlate assinalou a zona pelo calor atingida (...) De ambos os lados desta colocou as duas regiões habitáveis (...) Ao alto e ao fundo colocou as duas zonas entorpecidas (...) Representa também o santuário de Dite, seu tio, e os Manes para si fatais. Não faltou o presságio: de facto, como que adivinhando o futuro, molharam-se-lhe as faces com um súbito pranto». |
O Rapto de Prosérpina, Claudiano
Vale a pena ler : «La religiosidad de las Sacerdotisas de la Betica», in Congresso Peninsular de Historia Antiga, 1993, Faculdade de Letras de Coimbra.
Origens Cultuais e Míticas de um Certo Comportamento Romano, Pierre Klossowsky
(Falando nisso Cris, estou ainda em falta com o prometido texto da Salomé pedindo a cabeça de S. João).
Sei que voltarei,de novo, a Roma.
quarta-feira, novembro 3
Hei-de voltar às Mulheres em Roma
No Amor, Mil Almas, Mil Maneiras Diferentes
Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.
Ovídio, in "A Arte de Amar"

Ver também:
http://www.wook.pt/ficha/a-vida-quotidiana-da-mulher-na-roma-antiga/a/id/168283
Sim, hei-de regressar um dia à Mulher em Roma, mas por hoje fica aqui apenas, para começar a semana, um texto que ofereci à «Cidade das Mulheres» e que me fez relembrar que tenho que lá voltar.

Roma é uma sociedade ancestralmente uma sociedade patriarcal. À cabeça de cada grupo estava um pater familias que exercia o seu poder até à morte, podendo decidir da vida ou morte dos seus filhos.
Pelo casamento, a mulher passava a depender da família do marido, ficando submetida a um poder familiar semelhante ao que tinha em casa antes do matrimónio, pois o esposo podia também decidir da sua vida.
No entanto, em Roma as mulheres ocupavam uma posição de maior destaque do que acontecia na Grécia Antiga.
Quando casada, era, de facto "dona da casa", não sendo reclusa nos aposentos das mulheres, Geniceu, como acontecia na Grécia Antiga. Tomava conta dos escravos e participando das refeições com o marido, como se pode verificar no Banquete, saía (usando a stola matronalis)e participava nos espectáculos públicos, sendo por isso criticada por Juvenal e pelo cristão Tertuliano, e tinha acesso aos tribunais.
Por casamento — justum matrimonium —, sancionado pela lei e pela religião, processava-se a transferência da mulher do controle (potestas) do pai para o de seu marido (manus).
O casamento tomava assim a forma de coemptio, "uma modalidade simbólica de compra com o consentimento da noiva. Ele também podia consumar-se mediante o usus, se a mulher vivesse com o marido durante um ano sem ausentar-se por mais de três noites" (http://marius.blogs.sapo.pt/arquivo/952564.html).
Com o crescimento de Roma, a mulher foi gradualmente adquirindo autonomia, podendo inclusivamente participar da herança dos bens paternos, sendo sabido que, a partir do século II a.C., é notório um processo de emancipação.
Foram-se abandonando gradualmente as formas mais antigas de casamento e adoptou-se uma na qual a mulher permanecia sob a tutela de seu pai, e retinha na prática o direito à gestão de seus bens, havendo muitas mulheres ricas, disfrutando do seu património e dedicando-se aos negócios.
O divórcio era aceite na sociedade romana e o casamento chegou a ser até impopular na Época Imperial, sendo estas as palavras de Cecílio Metelo "Se pudéssemos passar sem uma esposa, romanos, todos evitaríamos os inconvenientes, mas como a natureza dispôs que não podemos viver confortavelmente sem ela, devemos ter em vista nosso bem-estar permanente e não o prazer de um momento" (Suetônio, Vida dos Doze Césares, "Augusto", 89).
Muitas das alterações sentidas na sociedade romana devem-se à sucessivas guerras e aos longos períodos de ausência dos maridos, fruto do expansionismo romano, que permitiu a ascensão do papel da mulher.
No entanto, os recenseamentos omitem as mulheres, sendo apenas contabilizadas as herdeiras.
Se bem que a generalidade das meninas romanas recebesse apenas uma instrução básica, pois a sua função primordial era prepararem-se para ser esposas e mães, houve muitos exemplos de mulheres que exerceram influentes profissões e que dirigiram negócios lucrativos. Há também inúmeros exemplos de mulheres versadas em Literatura.
Até determinada altura, a toga era o elemento básico do vestuário, quer feminino, quer masculino.
No entanto, ele foi-se sofisticando e, já durante a República, só os jovens e as cortesãs usam toga. As matronas utilizavam sobre a stola (túnica ou vestido comprido) a palla (grande mantilha pregueada que, ao contrário da toga, cobria os dois ombros).
As mulheres de condição mais elevada usavam tecidos ricos bordados e importados das várias partes do império.
O rosto era embelezado e os cabelos tratados e penteados de diferentes formas, também dependendo das épocas e respectivas modas, se bem que em público tivessem o costume de cobrir a cabeça.
A mulher romana usava diversos tipos de enfeites no cabelo e utilizava jóias, como brincos e pulseiras de pedras preciosas, colares ou gargantilhas.
Recomendo a consulta de: http://marius.blogs.sapo.pt/arquivo/952564.html
e de http://www.hottopos.com/notand12/ale.htm
Fig. 1 - Escultura de Agripina, proveniente da Villa Romana de Milreu pertencente ao acervo do Museu de Faro.
Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra não produz todas as coisas: tal convém à vinha, tal à oliveira; aqui despontarão cereais em abundância. Há nos corações tantos caracteres diferentes, quantos rostos há no mundo. O homem prudente acomodar-se-á a estes inumeráveis caracteres; novo Proteu, tão depressa se diluirá em ondas fluidas para logo ser um leão, uma árvore, um javali de eriçadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arpão, ali com o anzol, acolá com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo método não convirá a todas as idades: uma corça velha descobrirá a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma noviça, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiará que a vais tornar infeliz. Assim é que a mulher que às vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos braços de alguém que a não merece.
Ovídio, in "A Arte de Amar"
Ver também:
http://www.wook.pt/ficha/a-vida-quotidiana-da-mulher-na-roma-antiga/a/id/168283
Sim, hei-de regressar um dia à Mulher em Roma, mas por hoje fica aqui apenas, para começar a semana, um texto que ofereci à «Cidade das Mulheres» e que me fez relembrar que tenho que lá voltar.

Roma é uma sociedade ancestralmente uma sociedade patriarcal. À cabeça de cada grupo estava um pater familias que exercia o seu poder até à morte, podendo decidir da vida ou morte dos seus filhos.
Pelo casamento, a mulher passava a depender da família do marido, ficando submetida a um poder familiar semelhante ao que tinha em casa antes do matrimónio, pois o esposo podia também decidir da sua vida.
No entanto, em Roma as mulheres ocupavam uma posição de maior destaque do que acontecia na Grécia Antiga.
Quando casada, era, de facto "dona da casa", não sendo reclusa nos aposentos das mulheres, Geniceu, como acontecia na Grécia Antiga. Tomava conta dos escravos e participando das refeições com o marido, como se pode verificar no Banquete, saía (usando a stola matronalis)e participava nos espectáculos públicos, sendo por isso criticada por Juvenal e pelo cristão Tertuliano, e tinha acesso aos tribunais.
Por casamento — justum matrimonium —, sancionado pela lei e pela religião, processava-se a transferência da mulher do controle (potestas) do pai para o de seu marido (manus).
O casamento tomava assim a forma de coemptio, "uma modalidade simbólica de compra com o consentimento da noiva. Ele também podia consumar-se mediante o usus, se a mulher vivesse com o marido durante um ano sem ausentar-se por mais de três noites" (http://marius.blogs.sapo.pt/arquivo/952564.html).
Com o crescimento de Roma, a mulher foi gradualmente adquirindo autonomia, podendo inclusivamente participar da herança dos bens paternos, sendo sabido que, a partir do século II a.C., é notório um processo de emancipação.
Foram-se abandonando gradualmente as formas mais antigas de casamento e adoptou-se uma na qual a mulher permanecia sob a tutela de seu pai, e retinha na prática o direito à gestão de seus bens, havendo muitas mulheres ricas, disfrutando do seu património e dedicando-se aos negócios.
O divórcio era aceite na sociedade romana e o casamento chegou a ser até impopular na Época Imperial, sendo estas as palavras de Cecílio Metelo "Se pudéssemos passar sem uma esposa, romanos, todos evitaríamos os inconvenientes, mas como a natureza dispôs que não podemos viver confortavelmente sem ela, devemos ter em vista nosso bem-estar permanente e não o prazer de um momento" (Suetônio, Vida dos Doze Césares, "Augusto", 89).
Muitas das alterações sentidas na sociedade romana devem-se à sucessivas guerras e aos longos períodos de ausência dos maridos, fruto do expansionismo romano, que permitiu a ascensão do papel da mulher.
No entanto, os recenseamentos omitem as mulheres, sendo apenas contabilizadas as herdeiras.
Se bem que a generalidade das meninas romanas recebesse apenas uma instrução básica, pois a sua função primordial era prepararem-se para ser esposas e mães, houve muitos exemplos de mulheres que exerceram influentes profissões e que dirigiram negócios lucrativos. Há também inúmeros exemplos de mulheres versadas em Literatura.
Até determinada altura, a toga era o elemento básico do vestuário, quer feminino, quer masculino.
No entanto, ele foi-se sofisticando e, já durante a República, só os jovens e as cortesãs usam toga. As matronas utilizavam sobre a stola (túnica ou vestido comprido) a palla (grande mantilha pregueada que, ao contrário da toga, cobria os dois ombros).
As mulheres de condição mais elevada usavam tecidos ricos bordados e importados das várias partes do império.
O rosto era embelezado e os cabelos tratados e penteados de diferentes formas, também dependendo das épocas e respectivas modas, se bem que em público tivessem o costume de cobrir a cabeça.
A mulher romana usava diversos tipos de enfeites no cabelo e utilizava jóias, como brincos e pulseiras de pedras preciosas, colares ou gargantilhas.
Recomendo a consulta de: http://marius.blogs.sapo.pt/arquivo/952564.html
e de http://www.hottopos.com/notand12/ale.htm
Fig. 1 - Escultura de Agripina, proveniente da Villa Romana de Milreu pertencente ao acervo do Museu de Faro.
Eu Não, Samuel Beckett

tentar noutro lado ... abocanhar noutro lado ... e a prece sem parar ... a prece num lado qualquer ... para tudo terminar ... e nenhuma resposta ... ou não ouvida ... muito fraca ... por ali fora ... não desistir ... continuar a tentar ... sem saber o que é ... o que ela tenta ... o que é que ela tenta ... o que é que precisa de tentar ... todo o corpo como que a ir-se ... apenas a boca ... como louca ... por ali fora (...)
tudo isto ... não desistir ... sem saber o que é ... (...)
... o que é que ela tenta ... o que é preciso tentar ... seja o que fôr ... não desistir (...)
Instalação: Charles Sandinson, em exposição «A consistência dos sonhos»
terça-feira, novembro 2
Alentejo, era uma vez um lugar (reeditado)

Não sei se é deste Alentejo de que vou ouvir falar no próximo fim de semana, porque o Sado lhe alaga as margens, fazendo adocicar as memórias, pois as terras ribeirinhas ou as palustres são férteis na produção mas não na recordação ...
Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias.
No entanto, esse Alentejo está ainda presente, como um pano de fundo, nos lugares que vou visitar.
Porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, e nunca se dão por terminadas!
Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que entretanto fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!
Ciente que o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará.
E o que tem que morrer, morrerá.
Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias.
No entanto, esse Alentejo está ainda presente, como um pano de fundo, nos lugares que vou visitar.
Porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, e nunca se dão por terminadas!
Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que entretanto fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!
Ciente que o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará.
E o que tem que morrer, morrerá.
A ti, o homem deste Luar, de novo.
CONTO DE INVERNO (Porque o Outono está no ar)
Era uma vez um lugar. Cheio de sol de espaço, onde semeadas houve, em tempos, searas trigueiras. Isto nas planuras, porque esse espaço era tão, tão grande que nele também havia lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teimava em sobreviver, abrigando as "zorras" quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, e sobrevoam as sobranceiras águias ao alvorecer.
Só que uma vez, nesse lugar habitualmente raiado de um Sol que quase tudo queima, o céu resolveu esconder-se e, durante dias e dias a fio, molhar searas, estevas, montados e arrozais, uniformizando tudo com uma luz cinzenta no céu e tudo tapando com uma lamacenta superfície na terra.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.
E, de repente, o frio foi tanto tanto que até, em alguns locais, a chuva se transformou em neve e cobriu o resto dos campos e os lugares sagrados.


Esse lugar, habitado por um povo de tez morena, onde se cruzavam mouros e ciganos, estranhou tais fenómenos da natureza, pensando mesmo que, desta feita, os deuses os haviam definitivamente abandonado.
Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.

Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.
Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.
Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.
Um a um, visitou-os. E em cada um deles homenageou a divindade, quer fosse uma força anímica, as forças que protegiam os mortos num abrigo rupestre, o orago de uma anta outrora cristianizada, Vénus e Marte num templo romano qualquer, ou numa ermida dedicada a S. Torpes, na Senhora da Boa Nova ou às águas da antiga represa Romana que em Cuba se pode encontrar.


Contudo, o tal habitante de origem cigana não foi só. Ele sabia bem que para apaziguar a natureza e as divindades precisava da companhia de uma mulher.
Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.
Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.
Atravessaram caminhos e estradas, algumas vezes quase foram levados pelas enchentes. Espreitaram amontoados de pedras, onde abrigados haviam dormido deuses e descansado homens. Em alguns deles jaziam mesmo mortos milenares.Viram casas onde o abandono dava lugar às almas penadas.

E espreitaram também santuários muito antigos e outros mais recentes dentro dos quais ainda suavam velas que os orantes haviam deixado ficar.
Viram castelos encantados ou talvez de encantar. Alguns falavam de grandes tranças femininas a aguardar o resgate, prisioneiras que o tempo transformou em deusas solitárias ou moiras enfeitiçadas que, de noite, escondiam tesouros e segredavam murmúrios.
Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.
Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.

E um dia, depois desse longo, muito longo, périplo, o Sol voltou a raiar forte e cheio de luz.
O homem e a mulher cantaram e dançaram juntos em honra dele e ficaram acordados um dia inteiro, até o verem, de novo, nascer.
Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.
Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.

Cientes que, um dia, o périplo poderia recomeçar, pois novas fúrias divinas haveria que apaziguar.
Desde aí estão o homem e a mulher distantes: cada um partiu para seu lugar, mas sempre juntos pelas palavras que juraram um dia de que se voltariam a encontrar, logo que houvesse necessidade de nova viagem empreender.

Fotografias
Cromeleque dos Almendres: António Carlos Silva
Gruta do Escoural e Castelo de Belver: Manuel Ribeiro
segunda-feira, novembro 1
domingo, outubro 31
Conhecem o Grupo Excursionista "Os 31", em Santo Amaro?
Só pode ter o número máximo de 31 sócios. Mas eles tudo fazem: a manutenção do espaço e da sua abertura ao público, a organização das festas, o vinho novo que amanhã vão provar e que guardam na adega em espaço que é seu, mas, principalmente, que ambiente bom conseguem construir aos Domingos em que temos a sorte de poder partilhar dos almoços em família com arroz de pato e vinho do Dão! Bem haja quem ainda faz desta cidade um sítio bom para viver; enfim, uma cidade mais social! Refiro também que é dos poucos sítios em Lisboa onde ainda se pode participar do «Jogo da Laranjinha». E, claro está, organizam, para fazer juz ao nome, viagens de sonho para os sócios e familiares!
sábado, outubro 30
quinta-feira, outubro 28
S. Vicente e O Promontorium Sacrum (reed.)

Retábulo S. Vicente, Museu Nacional de Arte Antiga
Estranha-se a pedra porque está ali onde a olhamos e ela vê-nos à sua maneira com indiferença máxima pelo nosso olhar. Andamos-lhe em volta e não a ignoramos nem a conhecemos nem a podemos domesticar: só podemos admirá-la. Virá-la para dentro. Para o tempo. Que ela mostra. É um relógio de um ponteiro que marca os séculos se os contarmos e tudo o que neles acontece. Um soldado morto vive numa pedra e só nasce debaixo do travesseiro. É um sonho de pedra pequena e muita guerra vista em volta. Com muito tempo. Ninguém as retirava do seu moledro lá por Sagres.
Refira-se que este texto foi elaborado a partir de artigo com o mesmo nome, publicado na obra que tive o gosto de coordenar, acima mencionada, se bem que numa versão mais sintética com algumas alterações.
ET: Se não puder ir ao Promontorium Sacrum e estiver em Lisboa, vá à Igreja de S. Vicente ou então vá ao Museu Nacional de Arte Antiga ver o Retábulo.
Álvaro Lapa, Impressões da Lusitânia
Cit. in M.F.B. "O Promontório Sacrum e o Algarve entre os Escritores da Antiguidade", Algarve: Noventa Séculos entre a Serra e o Mar.
Refira-se que este texto foi elaborado a partir de artigo com o mesmo nome, publicado na obra que tive o gosto de coordenar, acima mencionada, se bem que numa versão mais sintética com algumas alterações.
Estrabão, no século I a. C., e Avieno, no século IV d.C., descrevem-nos pormenorizadamente a área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente, esse lugar mágico onde o corpo do Santo que lhe conferiu o nome deu à costa, fazendo uma viagem mítica de Oriente, de Valência, para Ocidente.
Esse Santo a quem Lisboa dedicou, mais tarde, a sua primeira Igreja cristianizada e que, porque para aí foi levado em barcaça conduzida por dois corvos, essas aves com capacidade de dar e retirar a visão, a luz, viu neles o símbolo que havia de guardar para a cidade.
Do Cabo a Lisboa empreendeu assim nova caminhada, como a que eu hoje me dispus a fazer.
Na descrição de Avieno, na sua Ora Marítima, diz-se do Cabo de S. Vicente que "Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o Cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros", sabendo-se que foi dedicado um templo a Saturno no Promontorium Sacrum.
O lugar que, em período pré-romano, já era sacralizado, devendo ter-se tornado santuário dedicado ao deus de origem púnica Baal Hammon, associado por fenómeno de sincretismo religioso ao Saturno dos Latinos, é referido por Estrabão como um local onde "não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o local não o tem".
Aí, desde a Pré-História, se poderão ter desenrolado rituais religiosos que Estrabão descreve da seguinte forma: (há) " pedras organizadas em grupos de três ou quatro, as quais, segundo um antigo costume, são viradas ao contrário pelos que visitam o local e depois de oferecida uma libação são recolocadas na sua posição anterior".
A impressão que o local deve ter causado é de tal forma que se dizia entre alguns autores da Antiguidade, como Posidónio, que o Sol aqui aumentava com o Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano.
No Promontorium, no Promontório Sagrado, fiz, de novo, com a luz a banhar as mãos, as minhas preces e orações e assim iniciei a jornada ...
ET: Se não puder ir ao Promontorium Sacrum e estiver em Lisboa, vá à Igreja de S. Vicente ou então vá ao Museu Nacional de Arte Antiga ver o Retábulo.
Fot.: Câmara Municipal de Lisboa
Ou espreite os corvos que trouxeram o Santo, o S. Vicente, pois vão semeando ainda de Luz as ruas da cidade que os mantém orgulhosamente ao dobrar de tantas esquinas.
quarta-feira, outubro 27
domingo, outubro 24
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