
Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias.
No entanto, esse Alentejo está ainda presente, como um pano de fundo, nos lugares que vou visitar.
Porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, e nunca se dão por terminadas!
Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que entretanto fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!
Ciente que o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará.
E o que tem que morrer, morrerá.
A ti, o homem deste Luar, de novo.
CONTO DE INVERNO (Porque o Outono está no ar)
Era uma vez um lugar. Cheio de sol de espaço, onde semeadas houve, em tempos, searas trigueiras. Isto nas planuras, porque esse espaço era tão, tão grande que nele também havia lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teimava em sobreviver, abrigando as "zorras" quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, e sobrevoam as sobranceiras águias ao alvorecer.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.

Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.
Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.


Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.

Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.

Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.

Cientes que, um dia, o périplo poderia recomeçar, pois novas fúrias divinas haveria que apaziguar.
Desde aí estão o homem e a mulher distantes: cada um partiu para seu lugar, mas sempre juntos pelas palavras que juraram um dia de que se voltariam a encontrar, logo que houvesse necessidade de nova viagem empreender.












