quarta-feira, novembro 3

Eu Não, Samuel Beckett


tentar noutro lado ... abocanhar noutro lado ... e a prece sem parar ... a prece num lado qualquer ... para tudo terminar ... e nenhuma resposta ... ou não ouvida ... muito fraca ... por ali fora ... não desistir ... continuar a tentar ... sem saber o que é ... o que ela tenta ... o que é que ela tenta ... o que é que precisa de tentar ... todo o corpo como que a ir-se ... apenas a boca ... como louca ... por ali fora (...)

tudo isto ... não desistir ... sem saber o que é ... (...)

... o que é que ela tenta ... o que é preciso tentar ... seja o que fôr ... não desistir (...)


Instalação: Charles Sandinson, em exposição «A consistência dos sonhos»

terça-feira, novembro 2

Alentejo, era uma vez um lugar (reeditado)



Não sei se é deste Alentejo de que vou ouvir falar no próximo fim de semana, porque o Sado lhe alaga as margens, fazendo adocicar as memórias, pois as terras ribeirinhas ou as palustres são férteis na produção mas não na recordação ...

Com elas se coadunam melhor os campos de sequeiro, as poucas sombras onde se abrigam contos e se escondem alegorias.

No entanto, esse Alentejo está ainda presente, como um pano de fundo, nos lugares que vou visitar.
Porque há viagens que, depois de empreendidas, não têm retorno, e nunca se dão por terminadas!

Há apenas que dar aos caminhos que vamos percorrer uma força redobrada pelo que entretanto fomos capazes de aprender. E iniciar nova peregrinação!

Ciente que o que perdura, o que vale, um dia se reencontrará.
E o que tem que morrer, morrerá.
















A ti, o homem deste Luar, de novo.

CONTO DE INVERNO (Porque o Outono está no ar)

Era uma vez um lugar. Cheio de sol de espaço, onde semeadas houve, em tempos, searas trigueiras. Isto nas planuras, porque esse espaço era tão, tão grande que nele também havia lugares cheios de esteva, infestando hectares e hectares, e outros, onde o montado teimava em sobreviver, abrigando as "zorras" quando anoitece, e onde escavam tocas os coelhos bravios, e sobrevoam as sobranceiras águias ao alvorecer.



Só que uma vez, nesse lugar habitualmente raiado de um Sol que quase tudo queima, o céu resolveu esconder-se e, durante dias e dias a fio, molhar searas, estevas, montados e arrozais, uniformizando tudo com uma luz cinzenta no céu e tudo tapando com uma lamacenta superfície na terra.
Os tímidos ribeiros transformaram-se, de repente, em tumultosos rios e os açudes e barragens, usualmente brandos, espumaram uma água torrencial que arrastou para as suas margens barrentas tudo o que nas águas havia a boiar.

E, de repente, o frio foi tanto tanto que até, em alguns locais, a chuva se transformou em neve e cobriu o resto dos campos e os lugares sagrados.


Esse lugar, habitado por um povo de tez morena, onde se cruzavam mouros e ciganos, estranhou tais fenómenos da natureza, pensando mesmo que, desta feita, os deuses os haviam definitivamente abandonado.
Os poucos habitantes que já o ocupavam chegaram mesmo a julgar que era um convite dos céus ao abandono definitivo do seu lugar.
Só alguns deles teimaram em ficar.


Entre eles, um, provavelmente de remota origem cigana, notória, quer na tez, quer na altivez do porte e das atitudes, resolveu empreender uma viagem, porque era a única forma de um dia poder voltar.
Esse habitante sabia que, para apaziguar os deuses, havia que visitar os lugares sagrados que, antes dele, as divindades haviam semeado nos inacessíveis sítios do seu território. E, tal nómada de sangue, decidiu percorrer esses sítios, enfrentando chuvas e torrentes.

Um a um, visitou-os. E em cada um deles homenageou a divindade, quer fosse uma força anímica, as forças que protegiam os mortos num abrigo rupestre, o orago de uma anta outrora cristianizada, Vénus e Marte num templo romano qualquer, ou numa ermida dedicada a S. Torpes, na Senhora da Boa Nova ou às águas da antiga represa Romana que em Cuba se pode encontrar.




Contudo, o tal habitante de origem cigana não foi só. Ele sabia bem que para apaziguar a natureza e as divindades precisava da companhia de uma mulher.
Poderia ter escolhido uma da sua raça. Teria sido quase natural fazê-lo. Mas não. Levou consigo alguém que o ajudasse a descobrir outros tantos sítios sagrados que para ele eram desconhecidos. Porque, face a tanta calamidade, a viagem tinha que ser longa e muito prolongada.
Atravessaram caminhos e estradas, algumas vezes quase foram levados pelas enchentes. Espreitaram amontoados de pedras, onde abrigados haviam dormido deuses e descansado homens. Em alguns deles jaziam mesmo mortos milenares.Viram casas onde o abandono dava lugar às almas penadas.


E espreitaram também santuários muito antigos e outros mais recentes dentro dos quais ainda suavam velas que os orantes haviam deixado ficar.



Viram castelos encantados ou talvez de encantar. Alguns falavam de grandes tranças femininas a aguardar o resgate, prisioneiras que o tempo transformou em deusas solitárias ou moiras enfeitiçadas que, de noite, escondiam tesouros e segredavam murmúrios.

Chegaram mesmo a visitar o mar também revolto. E aí vergaram-se perante forças tão antigas como a terra.
E em todos os sítios deixaram oferendas. Em todos eles oraram de acordo com o que um sabia e cria, pedindo que o Céu voltasse a sossegar.




E um dia, depois desse longo, muito longo, périplo, o Sol voltou a raiar forte e cheio de luz.

O homem e a mulher cantaram e dançaram juntos em honra dele e ficaram acordados um dia inteiro, até o verem, de novo, nascer.
Depois despediram-se. Porque a viagem tinha que terminar. Dela ficou o Sol e este conto que é a melhor forma de sonhar.



Cientes que, um dia, o périplo poderia recomeçar, pois novas fúrias divinas haveria que apaziguar.
Desde aí estão o homem e a mulher distantes: cada um partiu para seu lugar, mas sempre juntos pelas palavras que juraram um dia de que se voltariam a encontrar, logo que houvesse necessidade de nova viagem empreender.



Fotografias

Cromeleque dos Almendres: António Carlos Silva

Gruta do Escoural e Castelo de Belver: Manuel Ribeiro

domingo, outubro 31

Conhecem o Grupo Excursionista "Os 31", em Santo Amaro?






























































Só pode ter o número máximo de 31 sócios. Mas eles tudo fazem: a manutenção do espaço e da sua abertura ao público, a organização das festas, o vinho novo que amanhã vão provar e que guardam na adega em espaço que é seu, mas, principalmente, que ambiente bom conseguem construir aos Domingos em que temos a sorte de poder partilhar dos almoços em família com arroz de pato e vinho do Dão! Bem haja quem ainda faz desta cidade um sítio bom para viver; enfim, uma cidade mais social! Refiro também que é dos poucos sítios em Lisboa onde ainda se pode participar do «Jogo da Laranjinha». E, claro está, organizam, para fazer juz ao nome, viagens de sonho para os sócios e familiares!


sábado, outubro 30

quinta-feira, outubro 28

Esta Lisboa de tantas Mães de Água

 
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S. Vicente e O Promontorium Sacrum (reed.)


Retábulo S. Vicente, Museu Nacional de Arte Antiga


Estranha-se a pedra porque está ali onde a olhamos e ela vê-nos à sua maneira com indiferença máxima pelo nosso olhar. Andamos-lhe em volta e não a ignoramos nem a conhecemos nem a podemos domesticar: só podemos admirá-la. Virá-la para dentro. Para o tempo. Que ela mostra. É um relógio de um ponteiro que marca os séculos se os contarmos e tudo o que neles acontece. Um soldado morto vive numa pedra e só nasce debaixo do travesseiro. É um sonho de pedra pequena e muita guerra vista em volta. Com muito tempo. Ninguém as retirava do seu moledro lá por Sagres.

Álvaro Lapa, Impressões da Lusitânia

Cit. in M.F.B. "O Promontório Sacrum e o Algarve entre os Escritores da Antiguidade", Algarve: Noventa Séculos entre a Serra e o Mar.



Refira-se que este texto foi elaborado a partir de artigo com o mesmo nome, publicado na obra que tive o gosto de coordenar, acima mencionada, se bem que numa versão mais sintética com algumas alterações.


Estrabão, no século I a. C., e Avieno, no século IV d.C., descrevem-nos pormenorizadamente a área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente, esse lugar mágico onde o corpo do Santo que lhe conferiu o nome deu à costa, fazendo uma viagem mítica de Oriente, de Valência, para Ocidente.

Esse Santo a quem Lisboa dedicou, mais tarde, a sua primeira Igreja cristianizada e que, porque para aí foi levado em barcaça conduzida por dois corvos, essas aves com capacidade de dar e retirar a visão, a luz, viu neles o símbolo que havia de guardar para a cidade.

Do Cabo a Lisboa empreendeu assim nova caminhada, como a que eu hoje me dispus a fazer.

Na descrição de Avieno, na sua Ora Marítima, diz-se do Cabo de S. Vicente que "Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o Cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros", sabendo-se que foi dedicado um templo a Saturno no Promontorium Sacrum.

O lugar que, em período pré-romano, já era sacralizado, devendo ter-se tornado santuário dedicado ao deus de origem púnica Baal Hammon, associado por fenómeno de sincretismo religioso ao Saturno dos Latinos, é referido por Estrabão como um local onde "não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o local não o tem".

Aí, desde a Pré-História, se poderão ter desenrolado rituais religiosos que Estrabão descreve da seguinte forma: (há) " pedras organizadas em grupos de três ou quatro, as quais, segundo um antigo costume, são viradas ao contrário pelos que visitam o local e depois de oferecida uma libação são recolocadas na sua posição anterior".

A impressão que o local deve ter causado é de tal forma que se dizia entre alguns autores da Antiguidade, como Posidónio, que o Sol aqui aumentava com o Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano.

No Promontorium, no Promontório Sagrado, fiz, de novo, com a luz a banhar as mãos, as minhas preces e orações e assim iniciei a jornada ...


ET: Se não puder ir ao Promontorium Sacrum e estiver em Lisboa, vá à Igreja de S. Vicente ou então vá ao Museu Nacional de Arte Antiga ver o Retábulo.



Fot.: Câmara Municipal de Lisboa


Ou espreite os corvos que trouxeram o Santo, o S. Vicente, pois vão semeando ainda de Luz as ruas da cidade que os mantém orgulhosamente ao dobrar de tantas esquinas.



quarta-feira, outubro 27

Entardecer


Continuarei a descobrir este rio todos os dias
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domingo, outubro 24

quarta-feira, outubro 20

Que se finde hoje o dia como começou ...

 

Esta é a tua hora, ó alma, a do teu livre voo para lá das palavras,
Dos livros, da arte, apagado o dia, concluída a lição,
Quando tu emerges plenamente, silenciosa, absorta, meditando sobre os
temas que mais amas,
A noite, o sono, a morte e as estrelas
.

Walt Whitman, Folhas de Erva.

terça-feira, outubro 19

Mar e mar ...

 


E logo mais quero ir ver este mar de tantas marés, daqui e de além, com que temos a sorte de nos poder cruzar!

E bailar pela noite fora com os fragmentos da Luz que conseguir reter

Adormecerei então, tanto e tão longamente como o fundo desse mar, onde também há restos de cor para desvendar.

sábado, outubro 16

ir ...

 
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iria contigo ... até onde? Não sei!


Fotografia da Mariana no seu dia de anos

sexta-feira, outubro 15

Afinal o que é ser mãe? À minha filha; à minha mãe (reed.)







Tantas vezes me reconheço nas expressões e comportamentos da minha filha ... nos seus gestos, como se fossem gestos meus.
E, no entanto, quase todos os meus amigos dizem que se parece mais com o pai.

Não sei bem o que uma mãe passará a uma filha ...
É certo, isso sim, que me revejo tantas vezes na minha mãe.
E, tantas vezes, observo na forma desabrida de ser da filha que gerei uma infância que foi a minha, uma forma de estar que, pese tudo o que o Tempo me obrigou a aprender, ainda me faz olhar nos olhos e pensar que vale mesmo a pena a vida ser vivida.

Tantas vezes, quase todos os dias, mesmo quando a mais profunda tristeza me invade, me lembro das palavras da minha mãe em vésperas de se despedir: "filha que bom que é ver o Sol, mesmo sabendo que hoje pode ser o meu último dia".
E, lendo ainda um pouco, ouvindo os seus CD's no hospital, até ao dia fatal, se foi despedindo, ensinando-nos, uma vez mais, uma grande lição.

Não sei, de facto, o segredo de passar o melhor que temos em nós, uma coisa tentarei: que a verdade faça parte dos seus princípios essenciais; que saiba alimentar a fonte da alegria; que saiba conviver com os seus medos e angústias ou solidões, enfrentando-os com coragem, mas sem que seja necessária a afronta.
Que não tema os afectos.
E que se orgulhe, afinal, de ser Mulher.

Foi exactamente a um Domingo, há pouco tempo atrás, porque o Tempo não tem dias, que dela me despedi. Ainda por aqui anda, bem perto de mim ... e hoje vou colocalr uma vela, bem perto de mim.